Música

Natiruts: “Fazer reggae original não é só imitar o Bob Marley”

A NiT entrevistou o vocalista e compositor da icónica banda brasileira, que regressa a Portugal para três concertos.
Falámos com Alexandre Carlo, à direita.

“Liberdade Pra Dentro da Cabeça”, “Sorri, Sou Rei” ou “Quero Ser Feliz Também” são alguns dos muitos temas que imortalizaram os Natiruts como uma banda de culto. Colossos do reggae brasileiro, e pioneiros na fusão com a música popular local, preparam-se para regressar a Portugal para três concertos.

Os Natiruts vão atuar no Casino da Figueira, na Figueira da Foz, a 13 de agosto. Depois atuam no Casino Estoril, a 26 de agosto; e no Pavilhão Rosa Mota – Super Bock Arena, no Porto, no dia seguinte. Os espetáculos estão integrados numa digressão europeia que também irá passar por Espanha, França, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido ou Irlanda.

Pode comprar online os bilhetes para a Figueira da Foz, para o Estoril e para o Porto. A banda vem apresentar o álbum “Good Vibration – Vol. 1”, editado no ano passado. Para antecipar as performances, a NiT falou com o vocalista, guitarrista e compositor Alexandre Carlo. Leia a entrevista. 

Os Natiruts vêm dar três concertos a Portugal, onde já atuaram muitas vezes. De que é que gostam mais de fazer por cá?
De vez em quando fazemos aquilo que no Brasil se chama peladas — jogos de futebol amador, de brincadeira. Já fizemos alguns aí. Antigamente fazíamos uma espécie de Brasil Vs. Portugal, mas não deu muito certo, porque as pessoas começam a levar aquilo muito a sério: “Estou a representar o meu país!”. Então de vez em quando alguém lesionava-se [risos]. Hoje já fazemos jogos misturados, os amigos portugueses com os brasileiros, para não haver rivalidade. Outra coisa de que gostamos é fazer passeios turísticos e gastronómicos. E, principalmente, tocar música.

Com a experiência, ao longo dos anos, deixaram de fazer certas coisas em tour? Ou seja, estão mais resguardados? O que é que mudou?
No início da carreira, tudo é novidade. Vais para um outro país e, além de tocares, queres ir para a festa nos dias de folga, em vez de descansares. Queres ir para a noite e tudo mais. Hoje em dia estamos mais tranquilos, mais conscientes, e seguramos as coisas para que possamos fazer um bom concerto no dia posterior. 

Vocês já têm uma carreira longa, com mais de 25 anos. O que é que vos continua a estimular, neste momento, para continuarem de forma tão ativa a lançar música e a dar concertos?
O estímulo é a própria realidade, a própria vida. Enquanto compositor dos Natiruts, inspiro-me no dia a dia. Não há nada que venha do nada, é tudo bastante inspirado no que está a acontecer. É isso que me move para compor e o que move a banda para continuar a lançar discos. Mesmo tendo a vontade desde sempre de inserir novos elementos nas canções, não nos incomodamos muito com a auto-repetição. De parecer com aquilo que já fizemos no passado. Isso está bem resolvido no universo dos Natiruts. 

Provavelmente no início sentiam mais esse desafio.
Exatamente, era um desafio de não ficares na mesmice. De criares alguma coisa nova a cada trabalho. Depois de nove trabalhos, sabemos que, uma vez ou outra, vamos parecer-nos connosco próprios. E acho que isso não é nenhum pecado.

O vosso processo para construir as canções evoluiu ao longo dos anos? Ou, basicamente, continua a ser o mesmo desde sempre?
Acho que é o mesmo desde sempre. Só na pandemia — porque costumávamos tocar todos juntos no estúdio, principalmente a base de baixo, guitarra e bateria, para ter uma unidade rítmica — é que não foi possível. Tivemos que gravar separados. Mas foi a única diferença.

Tendo em conta tudo aquilo que fizeram ao longo do vosso percurso, o que é que ainda sentem que têm por concretizar?
Sinceramente, acho que a nossa contribuição com o reggae, se só tivéssemos lançado a “Liberdade Pra Dentro da Cabeça”, já seria uma grande contribuição. No entanto, ainda continuámos por 20 e poucos anos depois desse lançamento. Os Natiruts mudaram a forma como o reggae é visto no Brasil. Claro que é um movimento e existem várias outras bandas muito boas, mas sem dúvida que os Natiruts são uma das principais. E mudou no sentido de inserir os Natiruts no universo fora do reggae. Hoje, o fã de samba, de axé, forró, sertanejo, estes artistas todos e o público brasileiro no geral aprenderam a ouvir reggae e a curti-lo como um estilo musical como qualquer outro. E não como uma coisa que era de uma tribo, de um grupo apenas, como quando começámos.

Sente que era um circuito fechado por não existir muito público? Ou havia algum preconceito associado ao reggae?
O preconceito há sempre, mas nunca me importei. Nunca foi uma coisa que me impediu de fazer nada. Pelo contrário, incentiva-me. Porque os efeitos do preconceito são mais psicológicos do que, efetivamente, materiais. Se tens uma cabeça preparada para não te subjugares e não te sentires menor, então fazes o que tens a fazer. Em relação ao reggae ter saído do nicho, que era pessoal que era contra inserires elementos brasileiros no reggae, eu entendia isso. Acho importante e interessante respeitar a origem do reggae, mas ao mesmo tempo acredito que, nós como brasileiros, vocês como portugueses, não somos jamaicanos… Se é para fazer reggae original, não é só imitar o Bob Marley. Porque aquilo é cultural. Seria preciso ter nascido naquele lugar, ter comido aquela comida, acordado de manhã e pisar aquele chão… Tal como o fado em Portugal ou o samba no Brasil. Sempre acreditei então que nós, enquanto brasileiros, podíamos dar uma contribuição ao reggae que era inserir uma identidade brasileira dentro do estilo, sabendo sempre que o reggae é um ouro do povo jamaicano. Mas nunca quis ser jamaicano.

Ao longo dos anos, fizeram várias colaborações com músicos estrangeiros de diversos géneros musicais e acabaram por chegar mais longe. Atuaram também por todo o mundo. Houve algum momento específico em que sentem que conseguiram passar a fronteira do Brasil?
Acho que sim, começou em 2006, quando tocámos nos países próximos do Brasil, como a Argentina e o Chile. Ou o Paraguai, que é muito influenciado pela cultura brasileira. É quase um Brasil. A Argentina e o Chile são países que têm a própria cultura bem enraizada, como Portugal, que têm os seus músicos e cultura. É mais difícil para os artistas brasileiros terem uma repercussão nesses países, mas começámos por lá, depois Portugal, e a partir do DVD de Natiruts no Rio de Janeiro, que foi em cima da montanha… Foi um sucesso muito grande. Esteve na Netflix durante algum tempo e muitas pessoas de outros países tiveram acesso. E começámos a tocar em vários outros países.

Esse concerto no Rio de Janeiro foi um dos vossos favoritos de sempre?
Acho que sim, é muito bonito aquele DVD. Ali apresentou-se uma nova forma de tocar reggae — uma banda do género completamente diferente, genuinamente brasileira. Os próprios jamaicanos, quando ouvem, sentem a brasilidade, uma banda que realmente conseguiu mesclar reggae com música brasileira. 

Vocês também sentiram esse reconhecimento por parte de músicos jamaicanos?
Sem dúvida. Tivemos um featuring com o Ziggy Marley no álbum “Good Vibration – Vol. 1”, e é o artista de reggae mais importante do mundo. Por ele ter o legado que carrega, e pelas canções que já fez. É um grande artista, vencedor de alguns Grammys, e ele ter aceitado colaborar numa canção connosco é a maior prova de que a Jamaica reconhece os Natiruts como algo autêntico e importante. 

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