Música

New Talent: Phoebe, o DJ e produtor que quer fortalecer as comunidades queer e POC

Ainda sente nervos ao subir ao palco. Fora dele, criou uma editora que promove as “comunidades marginalizadas”.
Bruno Gonçalves é o nome por detrás de Phoebe

Não é que tocar em cima de um palco para centenas de pessoas seja algo de novo para Bruno Gonçalves. Ainda assim, continua a ser uma experiência atribulada. “Ainda esta sexta-feira fui tocar, estava imensa gente e tive que tomar um calmante”, conta à NiT o DJ e produtor que se apresenta como Phoebe.

“Não deu mesmo. Estava a tremer. Tomo muitas vezes calmantes”, confessa o artista de 25 anos, que mesmo assim não deixa de passar música aqui e ali. Mas é por trás do pano, como programador musical e produtor que se sente mais confortável. “É melhor do que tocar.”

O criador da editora Troublemaker é um dos dez finalistas do New Talent. Este concurso promovido pela NiT, TVI e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa pretende eleger os melhores jovens talentos de Portugal na área do lifestyle — e cujo vencedor irá receber 10 mil euros para desenvolver um projeto pessoal ao longo do próximo ano.

Nem sempre os planos estiveram tão claros como agora. Nascido em Leiria, Bruno familiarizou-se com as mesas de mistura e os discos ao lado do pai, também ele DJ. “Aprendi muito com ele, acabava por me ensinar, apesar de ter pouca paciência. O resto aprendi sozinho”, conta o jovem de 25 anos.

De repente, a vida sofreu uma reviravolta. Os pais separaram-se, saíram de Portugal e o rapaz teve que se desenvencilhar sozinho. Ao terminar o 9.º ano, deixou a cidade e tomou a decisão improvável de se mudar para o interior, para Pedrógão Grande.

“Fui para lá fazer o secundário. Venderam-me aquilo como se fosse uma experiência fixe. Não tinha lá família, fui mesmo sozinho — tinha 16 anos, foi demasiado precoce”, conta. Haveria de passar ainda por Coimbra, Hong Kong e Lisboa. “Sou um inadaptado de nascença.”

Organizou as primeiras festas ainda em Pedrógão, entre colegas de escola que partiram para a faculdade em Coimbra. Novamente sozinho, decidiu seguir-lhes os passos. “Cheguei à conclusão que estava no meio do nada, num aborrecimento total. Tinha que sair dali.”

Também sobe à mesa do DJ, mas prefere estar fora do palco

Do rock e do indie, começou a saltar para a eletrónica, para o dubstep e drum’n’bass. Mas a música só se tornaria numa realidade a sério do outro lado do mundo, em Hong Kong, para onde se mudou com o objetivo de tirar um curso superior.

Reencontrou o pai na Ásia, onde decidiu seguir outra paixão, o cinema. “Era mesmo o que queria fazer, adoro fazer produção. Durante anos pensei que o curso tinha sido inútil, mas felizmente percebi que o que aprendi lá deu muito jeito”, conta. “Não queria ser realizador, queria produzir. E percebi que fazer música e editar vídeo são duas coisas muito parecidas. Deu-me algumas bases.”

A música tornou-se também num hobby mais sério. Organizou as primeiras festas em Hong Kong. Recorda-se de uma em particular, a primeira, feita num rooftop da metrópole com mais de sete milhões de habitantes.

“Era uma festa com malta com poucos concertos, artistas desconhecidos, o pessoal do underground. O evento teve cerca de duas mil pessoas, imensa cobertura dos media”, recorda. “Uma marca de cerveja chegou a oferecer-nos cervejas para a festa porque acharam que éramos promotores. Éramos só dois putos de 17 anos.”

Foi lá que começou a “trabalhar mais a sério” na música, a criar os seus próprios temas, a fazer parte da cena. Só que em 2015, voltou a pegar nas malas e a recomeçar do zero em Lisboa, onde não conhecia ninguém.

“Foi pior do que em Hong Kong”, explica sobre o processo de adaptação. “Cheguei do nada, não conhecia ninguém, não andava na escola. Vim tentar. Mas foi mais doloroso.”

Não conseguiu encontrar trabalho na área do cinema e, para sobreviver, foi fazendo o que podia. Passou por call centers, restaurantes, cafés. Aos poucos, foi travando conhecimento com DJ, músicos, produtores.

Em 2018 decidiu criar uma editora talhada para o meio em que se movia. “Sentia que havia uma grande lacuna na cena lisboeta. Por muito que estivesse a crescer a cena queer, estava a faltar uma parte muito grande: onde estão as pessoas de cor desta cena?”, explica. “Como todas as pessoas da Troublemaker [a editora] são afrodescendentes, isso foi uma coisa mais ou menos automática.”

A editora, hoje com cinco elementos, assume-se com o foco nas identidades queer e POC (people of colour ou pessoas de cor). “Nas cenas de Berlim ou de Nova Iorque, tens a cena queer e a cena POC. Aqui não havia isso.”

O processo foi relativamente natural e o trabalho de Bruno foi servindo de centro de congregação destas “pessoas que não tinham onde se incluir”. “Não é que tenhamos todos que estar em caixas, mas por vezes é importante termos uma direção.”

Ao lado da faceta identitária da Troublemaker surge, claro, a óbvia faceta da oportunidade. “Todos os artistas que trabalham connosco não tinham nada antes e agora todos temos o que fazer. Essa entreajuda é importante.”

Essa vontade de criar um impacto e de ajudar artistas de minorias marginalizadas tornou-se ainda mais forte com a entrada na Rádio Quântica, onde trabalha como programador musical. Passou também a exercer funções em diversos eventos como o festival queer feminista Rama em Flor.

“Foi possível ajudar a trazer mais artistas das comunidades queer e POC para a frente”, nota. “Eu também vou tocando, lançando cenas, mas é secundário. A minha carreira pessoal é secundário. Continuo a preferir estar no background.”

É da sala de operações que quer gerir os potenciais 10 mil euros do prémio do concurso do New Talent. O seu fim já tem um destino: “Quero fazer compilações destes artistas de comunidades marginalizadas que foram os que mais sofreram com a pandemia.”

Depois da primeira compilação lançada pela Troublemaker, cujos lucros reverteram exclusivamente a favor dos próprios artistas, Bruno quer repetir a dose, sempre com os artistas em mente. “É muito fixe doarmos o dinheiro a uma associação, mas nunca se sabe bem para onde ele vai. Prefiro fazer o caminho direto e dá-lo a quem precisa dele.”

Veja o vídeo realizado por Phoebe para explicar porque é que merece vencer o concurso New Talent deste ano. A partir do dia 3 de dezembro já vai poder votar no seu finalista favorito.

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