Música

Nick Cave não tem nada para aprender. Isto é o auge de qualquer carreira

Esta quinta-feira, 9 de julho, o artista australiano conseguiu transformar o NOS Alive num festival intimista.

Se em 2024 a passagem de Nick Cave pela MEO Arena foi marcada por um ambiente solene e quase fúnebre, nesta quinta-feira, 9 de julho, o músico australiano mostrou uma faceta completamente diferente no NOS Alive. Bastaram os primeiros acordes de “Get Ready For Love” para transformar o palco principal do festival numa celebração coletiva.

Antes mesmo de começar a cantar, Nick Cave lançou o desafio que deu nome ao tema. “Preparem-se para o amor”, avisou, antes de descer do palco e circular perto da primeira fila na plateia. Passou o microfone a uma fã em êxtase, percorreu a barreira enquanto tocava nas mãos de dezenas de pessoas e, por momentos, parecia um líder espiritual rodeado por seguidores completamente rendidos. Foi o primeiro de muitos momentos em que fez desaparecer a distância entre artista e público.

“Fucking Lisbon. Obrigado”, repetiu várias vezes ao longo da noite. Seguiu para a interpretação de “From Her to Eternity” e não parou um segundo, sempre junto ao público, sempre em movimento. E a gritar com entusiasmo “yeah, yeah, yeah”, a que o público respondia com uma aplausos e a cantar em simultâneo, como se estivessem numa festa com um amigo.

É essa capacidade de transformar concertos para milhares de pessoas em momentos intimistas que continua a distinguir Nick Cave. Perante milhares de pessoas no Passeio Marítimo de Algés, conseguiu criar a sensação de que cada canção era interpretada apenas para quem estava à sua frente.

Em “Train Long Suffering”, mostrou toda a teatralidade que o tornou num dos performers mais respeitados do mundo da música contemporânea. A forma como se move em palco faz-nos esquecer que já tem 68 anos. A multidão ficou num verdadeiro êxtase.

“Vocês são lindos”, repetiu várias vezes, num português inesperado, antes de arrancar com “Wild God”. O coro da banda elevou o momento a uma dimensão quase religiosa. Durante alguns minutos, o NOS Alive deixou de parecer um festival para se transformar numa missa onde até os ateus acabaram a cantar.

Em “O Children”, pediu ajuda ao público e até ensinou o refrão, como se os milhares de fãs presentes não o soubessem de cor. A canção culminou num solo de violino arrepiante que conseguiu prender completamente a atenção do recinto, um feito raro num festival desta dimensão.

“Esta próxima música é muito bonita”, anunciou antes de interpretar “Carnage”. O tema trouxe uma pausa à intensidade da primeira metade do espetáculo. Com uma voz carregada de fragilidade, impossível de desligar das tragédias pessoais que marcaram a sua vida — incluindo a morte do filho Arthur, em 2015, aos 15 anos, após cair de uma falésia em Brighton — Nick Cave deixou muitos espectadores à beira das lágrimas.

A intensidade emocional manteve-se em “Joy”. No final da canção, o recinto ficou praticamente em silêncio para ouvir apenas a voz do músico, num momento a cappella onde a sua voz ecoou por todo o recinto.

Já “The Weeping Song” foi anunciada com um certo humor: “É uma canção para chorar enquanto rockamos até adormecer. É uma canção para chorar, mas não choraremos durante muito tempo.”

A reta final foi uma sucessão de clássicos. “Red Right Hand”, eternizada junto de uma nova geração pela série “Peaky Blinders”, transformou-se num gigantesco coro coletivo. Seguiu-se “Jubilee Street” e, para fechar o alinhamento principal, “Hollywood”, uma despedida calorosa depois de quase duas horas em que conseguiu fazer um dos maiores festivais do País parecer uma pequena sala de concertos.

Mas quando muitos acreditavam que o espetáculo tinha terminado, Nick Cave regressou para um encore onde interpretou “City of Refuge” e “Wide Lovely Eyes”.

No entanto, guardou um dos momentos mais emocionantes para o fim. “Seria maravilhoso se pudessem cantar comigo”, pediu ao apresentar “Into My Arms”. Não foi preciso insistir. Milhares de vozes acompanharam cada verso daquela que continua a ser uma das canções mais marcantes da sua carreira, encerrando uma atuação que ficará entre as mais memoráveis desta edição do NOS Alive. 

“Obrigado, Lisboa. Vejo-vos novamente um dia. Obrigado por serem tão lindos”, despediu-se ao som das palmas dos fãs.

Carregue na galeria para ver algumas imagens do espetáculo.

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