David Santos sobe ao palco rodeado de instrumentos, teclados, pedais e cabos. Conhecido como Noiserv, grava sons durante o concerto e usa-os para construir as canções diante do público. Este domingo, 27 de setembro, leva esse espetáculo ao Cineteatro D. João V, na Amadora. O concerto começa às 21 horas e integra a digressão dos 20 anos do projeto. Noiserv vai apresentar temas de “7305”, o quinto álbum de estúdio, lançado no final de 2025, e recuperar músicas de outras fases da carreira.
Aos 44 anos, o músico lisboeta já não vive a mesma rotina que tinha quando conciliava os concertos com a engenharia. Deixou essa profissão em 2013, mas parte do que aprendeu continua presente na forma como monta e liga os instrumentos. Pelo caminho, editou discos, compôs para cinema, teatro e dança e viu “Almost Visible Orchestra” ser distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores.
Em entrevista à NiT, Noiserv falou sobre o novo álbum, a decisão de viver da música, as pequenas falhas que podem mudar um concerto e a razão pela qual continua a usar T-shirts às riscas. Também respondeu a duas perguntas de atualidade: o afastamento de Macklemore da digressão de Ed Sheeran e o lugar que a inteligência artificial poderá ocupar na criação musical.
O concerto na Amadora assinala os 20 anos de Noiserv. O que vão encontrar as pessoas que já o acompanham e aquelas que o vão ver pela primeira vez?
Há um disco novo, por isso quero mostrar essas músicas. Mas também gosto que o concerto faça um pequeno passeio pelos discos anteriores. Espero que quem já me conhece saia com mais vontade de ouvir as canções novas e que quem nunca ouviu Noiserv descubra ali qualquer coisa de que goste. Ao longo destes 20 anos fui fazendo muita música e quero que isso também esteja presente em palco.
O novo álbum chama-se “7305”, o número de dias que associou a estas duas décadas. Porque quiseste contar o tempo dessa forma?
Não sou uma pessoa que goste muito de celebrar números redondos. Já fiz, por exemplo, um concerto para assinalar 13 anos de carreira. Cada ano em que conseguimos continuar a fazer música conta; não é preciso chegar aos dez ou aos 20 para que seja importante. Quando percebi que este disco ia sair no ano em que Noiserv fazia 20 anos, achei que podia ser interessante olhar para esse tempo. Mas quis fazer um álbum de músicas novas, não uma compilação.
Essa ideia dos anos também aparece nas canções?
Sim. Alguns títulos começam com anos ligados a discos que lancei. Isso ajudou-me a revisitar maneiras de trabalhar que fui tendo. Por exemplo, a música identificada com 2016, em que participa a Milhanas, tem apenas vozes e piano, porque o disco que lancei nesse ano era feito com piano. A primeira faixa, ligada a 2005, tem vozes e guitarra, como o primeiro EP. Não tentei reproduzir as músicas antigas; foi mais uma forma de pensar nos processos criativos pelos quais passei. A capa também é um calendário perpétuo, por isso tudo acabou por se ligar.
Há um dia, entre esses 7305, que vejas como o grande momento de viragem?
Não consigo escolher um. Fui lançando discos, tocando em festivais e apresentando as músicas em salas que foram crescendo. Esses momentos, em conjunto, mostram-me que houve um caminho. Não sinto que tenha existido um único acontecimento que mudou tudo. É esse percurso que me deixa contente e orgulhoso.
Passaram seis anos desde o álbum anterior. O que entrou da tua vida nesse intervalo em “7305”?
Tudo o que fui fazendo acabou por entrar de alguma forma. Entre discos, trabalho em bandas sonoras para cinema, teatro e dança, e essas experiências dão-me outras ideias. Também vou descobrindo instrumentos e maneiras diferentes de fazer música. Não houve uma mudança drástica na minha vida que explique este álbum. Foram essas experiências, pessoais e musicais, que lhe deram outras cores.
Em 2013, deixaste a engenharia para viver da música. Houve um momento em que percebeste que já não conseguias conciliar as duas profissões?
Foi uma decisão gradual. Comecei a ter cada vez mais solicitações na música e queria fazer bem tudo aquilo com que me comprometia. Percebi que podia chegar a um ponto em que já não teria tempo suficiente para cumprir o meu trabalho na engenharia como devia. Resolvi experimentar viver só da música, sabendo que poderia voltar mais tarde. Felizmente, ainda não precisei de o fazer.
A formação em engenharia continua a ser útil quando estás a preparar um concerto?
Muito. A forma como trabalho com os loops, como ligo os teclados uns aos outros e como monto tudo em palco tem bastante dessa formação. A engenharia deu-me vontade de imaginar uma coisa e descobrir como a posso pôr a funcionar. Às vezes tenho de fazer adaptações num teclado ou encontrar uma forma diferente de ligar os cabos. Nem sempre é fácil, mas gosto dessa parte.
As versões ao vivo das tuas músicas são diferentes das gravações?
Há sempre diferenças. Primeiro componho e termino a música para o disco. Depois tenho de ouvir todos os arranjos e escolher o que consigo levar para o palco. Uma canção pode ter dezenas de melodias gravadas e não posso tocá-las todas sozinho ao vivo. Faço uma seleção das que são mais importantes, ensaio e tento chegar a uma versão fiel à gravação, mesmo que não seja igual.
E quando algo corre mal no meio de uma canção construída ao vivo?
Pode acontecer, porque gravo os loops naquele momento e procuro levar o mínimo possível já gravado de casa. Houve uma altura em que me castigava muito por cada falha. Hoje aceito melhor que façam parte do que estou a fazer. Às vezes nem toco uma nota errada: viro-me, bato com o cotovelo numa tecla e essa nota fica gravada no loop. Por vezes até resulta bem. Se não resultar, paro, explico ao público o que aconteceu e começo outra vez. Não há problema.
Depois de tantos concertos, há alguma música antiga que continue a ter um lugar especial no alinhamento?
“Mr. Carousel”, de 2010, é uma das que ainda toco. Para muitas pessoas, Noiserv está muito associado a essa música. As canções que faço hoje podem ser mais complexas, mas aquela conserva uma energia que me lembra o início do projeto. Tocar músicas antigas também me leva de volta à altura em que as fiz. Posso já não sentir a mesma tristeza ou alegria, mas reconheço o lugar de onde vieram.
Ao fim de 20 anos, tornou-se mais difícil encontrar uma ideia que te entusiasme?
Não perdi esse prazer. Quando lanço um disco, costumo passar um ou dois anos a tocá-lo e a trabalhar noutros projetos, sem pensar logo no seguinte. Mais tarde, quando volto a criar, continuo a sentir entusiasmo por uma melodia de voz e guitarra que começa a ganhar forma. Hoje conheço-me melhor e talvez encontre mais depressa um som que me agrada. Mas continuo a gostar da procura. Não quero fazer músicas iguais umas às outras.
As T-shirts às riscas também se tornaram uma marca de Noiserv. Foi uma escolha pensada?
Não. Se vir fotografias dos primeiros concertos, há muitas em que não estou vestido às riscas. Acho que começou porque tinha uma ou duas T-shirts novas de que gostava e usava-as para tocar. Depois pensei: “Esta correu bem, vou levá-la outra vez.” A minha mãe também começou a oferecer-me T-shirts às riscas no Natal e fui acumulando cada vez mais. Chegou uma altura em que achei que, para o concerto correr bem, tinha de usar uma. Agora também as uso quase todos os dias, porque praticamente já não tenho outro tipo de T-shirt.
Macklemore foi afastado da digressão de Ed Sheeran depois de se manifestar a favor da Palestina. Achas que um músico deve usar o palco para tomar posição, mesmo que isso possa afetar a carreira?
Acho que ter pessoas a ouvir aquilo que fazemos também nos dá uma responsabilidade. Não temos de assumir posições extremadas sobre todos os assuntos, mas não faz sentido sermos indiferentes ao que se passa à nossa volta. E, para mim, faz ainda menos sentido censurar uma posição. Posso compreender que este caso envolvesse muitas pessoas e interesses, mas acho que Ed Sheeran não esteve bem na forma como lidou com a situação. Mesmo quando há opiniões diferentes, não devia haver espaço para censura. Ter uma voz que é ouvida e ignorar o que acontece no mundo parece-me cada vez mais difícil de justificar.
Vens de uma área ligada à tecnologia. Usarias Inteligência Artificial para criar uma música?
Um dos meus maiores prazeres nestes 20 anos foi criar uma coisa a partir do nada. Sei que hoje podemos escrever uma indicação e receber uma música pronta, mas isso não é o mesmo processo criativo. A tecnologia pode facilitar tarefas, tal como a gravação digital tornou mais fácil fazer um disco, mas entregar-lhe a criação inteira tiraria aquilo de que mais gosto. Se chegasse a esse ponto, preferia deixar de fazer música.
Preocupa-te que se torne difícil distinguir uma canção criada por uma pessoa de outra gerada por uma máquina?
Sim. Podemos vir a perder a noção de quem fez o quê. Quero acreditar que a presença humana continua a ser importante, sobretudo nos concertos, onde há uma relação direta entre quem toca e quem ouve. Se essa ligação desaparecer, perde o autor e perde também o público. Há ali um lugar de verdade que, para mim, é essencial.
Os bilhetes para o concerto deste domingo, no Cineteatro D. João V, na Amadora, custam 15€ na plateia e 10€ no balcão. Estão à venda online e podem ser comprados na bilheteira do cineteatro nas duas horas anteriores ao espetáculo.







