Música

A nova vida de Pete Doherty, sem drogas mas com muito queijo

O puto rebelde dos The Libertines viveu uma década negra. Agora vive em França, lançou um livro de memórias e confessa-se apaixonado por queijo.
Ganhou uns quilos, mas livrou-se das drogas

“Não sei como é que ainda estou vivo.” É desta forma desarmante que Pete Doherty olha para trás para mais de duas décadas a seguir à risca o clássico lema da profissão: sexo (muito), drogas (ainda mais) e rock ‘n roll enquanto as duas anteriores o permitiram.

Fez par com a bombástica Kate Moss, criou alguns dos melhores hinos do rock do início do século e poderia ter sido enorme. “Se não fossem as drogas, seria uma força a ser em conta. Teria dinheiro, amor próprio e as mãos limpas.”

Por estes dias, muito mudou na vida do membro dos The Libertines — dos Babyshambles e dos mais recentes The Puta Madres — que vai aproveitando as diversas entrevistas para recordar os momentos mais loucos da carreira e da vida. Como aquele em que foi pela primeira vez a Glastonbury, de mão dada com Kate Moss, e enfrentou um segurança de Vivienne Westwood nos bastidores.

Pelos vistos, Doherty levava vestido um casaco da estilista — e que pertencia a Marc Bolan, dos T.Rex — avaliado em perto de 19 mil euros e que Doherty tinha trazido à socapa de uma sessão fotográfica. “Basicamente, a Vivienne Westwood mandou um agente infiltrado arrancar-me o casaco.”

A fúria alimentada a cocaína e heroína acelerou com a crescente fama dos The Libertines onde, ao lado do fiel Carl Barat, criou êxitos como “Don’t Look Back into the Sun” ou “Can’t Stand Me Now”. Mas foi também Barat e os restantes membros da banda que, em 2004, no auge da fama, pediram que Doherty se fosse embora.

No cadastro de Doherty havia um pouco de tudo, de condução sob o efeito de álcool ao próprio roubo de viaturas. Consumia quase tudo, de crack a heroína, de canábis a quetamina. Um ano antes da saída da banda, desesperado por dinheiro, chegou a assaltar a casa do colega de banda, Barât.

Na lista de ofensas não-criminais desponta, claro, o retrato que fez de Kate Moss com o seu próprio sangue. Curiosamente, haveria de repetir a proeza anos mais tarde, desta feita com um retrato de Amy Winehouse, que acabaria por ser vendido por mais de 40 mil euros.

“Faltam-me partes [do corpo] de todo o lado”, confessa ao “The Guardian” sobre os tempos de loucura. “Estava a tentar acertar nos paparazzi em Itália, quando um deles pousou a câmara, agarrou-me pelo pescoço e arrancou à dentada parte do lóbulo da minha orelha. O outro lóbulo foi arrancado num pub em Stoke. Acho que o tipo só queria levar um souvenir.”

 

Entre estadias na prisão e em clínicas de reabilitação, tornou-se impossível tirar partido da aptidão natural para a poesia e para a música. Ainda tentou fazer das suas com uma nova banda, os Babyshambles, mas o vício era mais forte do que o talento. Pelo caminho, foram-se destruindo duas carreiras: a célebre imagem de Kate Moss a consumir cocaína foi precisamente tirada numa das sessões de gravação da banda de Doherty.

Ao fim de dez penosos anos, decidiu finalmente tentar recuperar a sua vida e viajou para uma clínica de reabilitação de luxo na Tailândia. Um ano depois, saía em liberdade e com aparente dever cumprido, apenas para, dois anos depois, em 2017, ter sido apanhado em Itália na posse de heroína. 2019 seria, então, o ano decisivo.

“Estou livre [das drogas] desde dezembro de 2019”, revelou à “NME” em janeiro, enquanto apresentava o seu novo single, num dueto com Frédéric Lo.

Doherty trocou o Reino Unido pelos campos franceses da Normandia, onde agora passa a maior parte do tempo. Pai de dois filhos — Astile, da relação com Lisa Moorish, e Aisling, da relação com Lindi Hingston —, voltou a casar, desta vez com a ex-companheira dos The Puta Madres, Katia de Vidas. Pelo caminho, ajudou a nova mulher a recuperar da luta contra um cancro da mama.

De todo do dinheiro que acumulou com o sucesso no arranque dos anos 2000, pouco sobrou. Ainda regressou aos The Libertines para uma digressão em 2014 — que passou por Portugal, no palco do Alive —, mas o dinheiro voltou a voar. De tal forma que acabaria por ser fotografado num café a devorar uma travessa recheada de fritos para o pequeno-almoço. Tratava-se de um daqueles desafios de comida e Doherty não teria que pagar se comesse tudo em 20 minutos. Fê-lo, revelou mais tarde, porque estava “teso”.

Hoje, vive uma vida simples, com bastantes mais quilos do que nos bons velhos tempos — mas também com um ar bastante mais saudável. Segundo o próprio, trocou as drogas pelo vício do queijo. “Gosto de Comté. Queijo Comté em tostas”, explica ao “The Sun”. “E dormir é o meu guilty pleasure. Durante anos, chegava a ficar acordado cinco e seis dias, e depois dormia durante 24h horas. Agora adoro dormir.” Apesar de ter largado as drogas, assume que ainda bebe um ou outro copo, mas que normalmente prefere “um bom copo de água”.

A música parece querer voltar. Depois de um disco com os The Puta Madres em 2019, acaba de lançar The Fantasy Life of Poetry & Crime com Frédéric Lo — e acaba de voltar a tocar com os velhos Libertines no palco de Glastonbury. Mas Doherty ainda tem muito para contar e, por isso, lançou em junho um livro de memórias, “A Likely Lad”, que promete “o homem genuíno por detrás da fama e da infâmia”. “Uma memória do rock como não se viu.”

Doherty está irreconhecível

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