Música

Nuno Bettencourt: o guitarrista português que foi Deus no Rock in Rio

Já atuou com Janet Jackson, Rihanna e os Aerosmith. Este sábado, deu um dos melhores concertos com os Extreme.
Simplesmente genial. Fotografia: Rodrigo Simas

Nuno Bettencourt tinha um dos seus ídolos do outro lado da chamada, mas não se deixou deslumbrar. Para o guitarrista luso-americano, era como se uma profecia estivesse a cumprir-se. Estávamos em 1993 quando foi convidado por Ozzy Osbourne para se tornar seu guitarrista e só conseguiu fazer uma pergunta: “Ouviram a minha cassete?”.

Na verdade, ninguém sabia ao que se referia. No início da década anterior, ainda adolescente, o artista tinha visto um anúncio numa revista em que o Madman procurava um substituto para Randy Rhoads, falecido em março de 1982. Apesar da convicção do jovem talento, acabou por não ser escolhido e a oportunidade só acabaria por surgir mais tarde.

Embora se tenha sentido vingado, o guitarrista acabou por recusar o convite. Na altura, já andava na estrada a tocar com os Extreme, grupo que ajudou a formar em 1985.  A sonoridade da banda, um estilo hard rock da que fluía do glam metal ao funk rock, cultivou uma legião de fãs muito graças às performances eletrizantes do artista nacional.

Aos 58 anos, Nuno Bettencourt cimentou o seu nome como um dos melhores guitarristas do país — e, para muitos, do mundo. O músico voltou a provar a sua força no concerto explosivo dos Extreme este sábado, 15 de junho, no Rock in Rio. Entre palmas, gritos e uma multidão que sabia as letras de cor, destacaram-se os seus solos.

“É tão bom voltar ao país mais bonito do mundo, Portugal a minha casa, vamos partir tudo hoje”, disse, emocionado, no centro do palco. Depois, quando colocou um boné com o emblema do Benfica, não havia forma de controlar o público que o via interpretar de forma frenética alguns dos maiores êxitos do grupo, como “Play With Me” e “Hole Harte (Pornografitti)”.

Mais tarde, para provar que “os portugueses são os melhores cantores do mundo”, Bettencourt tocou o hino na guitarra, sozinho em palco, enquanto a multidão cantou em uníssono “A Portuguesa”. Foi um dos momentos mais emocionantes desta edição do festival no Parque Tejo. 

Nascido na ilha Terceira, nos Açores, mudou-se para os Estados Unidos com apenas quatro anos. A família ia à procura de tudo: emprego, dinheiro e uma vida melhor. Após juntar-se aos Extreme, os membros chegaram mesmo a tocar ao lado dos Aerosmith e, pelo meio, ainda colaborou com nomes como Janet Jackson, Toni Braxton e Robert Palmer, por exemplo. Tornou-se cada vez mais requisitado.

A parceria com Rihanna

Nuno Bettencourt é também o guitarrista da banda que acompanha Rihanna em todas as digressões, desde 2009. No ano passado, foi um dos músicos que subiram ao palco para dar apoio à cantora na final do Super Bowl, num espetáculo que durou pouco mais de 13 minutos.

“Tínhamos acabado de fazer uma digressão dos Extreme e um amigo meu, o Tony Bruno, ligou-me a dizer: ‘Já te pedi dez vezes, mas sei que estás em Los Angeles. Nós estamos cá também, a Rihanna viu alguns dos teus vídeos. Aceitarias fazer isto?’”, revelou numa entrevista.

Inicialmente, recusou o convite porque o material tinha pouca guitarra. Foi então que lhe disseram que a caribenha queria algo mais pesado ao vivo e, perante o desafio, mudou de ideias. “Pensei: portanto, vou poder fazer o que faço melhor. ‘Posso arruinar cada uma das canções dela?’ E ele respondeu: ‘Sim’.”

Confrontado pelos céticos, explica que há mais perícia e dificuldade nos espetáculos do que se poderia pensar à partida. “É uma banda a sério, não há playback. Pegamos nos temas e tocamo-los a sério, não têm nada a ver com o que está no disco”.

Como tudo começou

Curiosamente, a primeira paixão de Bettencourt não foi a guitarra. Foi com a bateria que aprendeu toda a noção rítmica que apresenta hoje nos riffs. Começou a explorar estre instrumento bastante novo na casa onde vivia com a família, cidade de Hudson, em Massachusetts, nos Estados Unidos.

Quando o irmão Luís o apresentou à guitarra, tudo mudou. Tornou-se autodidata e faltava às aulas para praticar até sete horas por dia. Acabou por desistir dos estudos para se dedicar à música e ainda chegou a ter uma banda de rock na adolescência, mas o projeto teve uma vida curta.

O artista aproveitou para explorar as suas influências, como Jimmy Page, Jimi Hendrix e, sobretudo, Eddie Van Halen. Nuno estava a gravar uma versão de “Rise”, do neerlandês, quando o próprio apareceu no estúdio, revelou à “Guitarworld”.

“O meu telemóvel estava a explodir e isso irritou-me porque o Gary [Cherone] sabe que não me deve incomodar enquanto estou a gravar. Continuou a ligar-lhe e depois mandou mensagem: “Desce as escadas. Na terceira vez, pensei ‘vou dar um murro neste gajo’, desço, abro a porta e é o Edward Van Halen”.

Surpreendido, não quis que o ídolo ouvisse o que estava a fazer. A ideia era mostrar-lhe o resultado mais tarde, mas o músico acabou por morrer antes disso, em 2020.

A versão acabou por ser lançada pelos Extreme, em 2023, e o solo do guitarrista foi amplamente elogiado nas redes sociais. É um dos trabalhos que melhor refletem estas influências no estilo de Nuno Bettencourt: muito preciso, rápido e cheio de energia, com técnicas como o tapping [envolve o uso das duas mãos para pressionar as cordas do instrumento].

Dos Extreme à carreira a solo

Este ADN de Nuno Bettencourt está presente desde o início dos Extreme, sobretudo desde que se cruzou com Gary Cherone e Paul Geary, que tocavam numa banda chamada The Dream. Já atuavam em alguns bares da região de Massachussets e a química com o guitarrista, que já era conhecido na cena local, levou-os a juntarem-se ao grupo. Mais tarde, Pat Badger entrou como baixista.

Um dos primeiros solos do artista foi no single “Play With Me”, do álbum homónimo, que fez parte da banda sonora do filme “A Fantástica Aventura de Bill e Ted”. Trata-se de um tema que capta a essência do rock típico do final dos anos 80 e que, recentemente, foi usado na abertura de um episódio de “Stranger Things”.

O tema que os catapultou para a fama foi o eterno “More Than Words”, composto por Nuno e Gary Cherone. Lançado em 1990, inserido no álbum “Pornograffitti”, chegou ao primeiro lugar da Billboard norte-americana, também no Canadá — e, naturalmente, em Portugal. No resto do mundo, foi também um incrível sucesso. Só no Reino Unido, por exemplo, o single vendeu mais de 200 mil cópias.

Apesar do sucesso, os Extreme não se enquadraram na cena musical e acabaram por se separar em 1996, reunindo-se para um disco em 2008. No ano passado, apresentaram o sexto disco da banda, “Six”, e mostraram que, mesmo que o hard rock já não lidere os tops musicais, a banda norte-americana continua a mover milhares de fãs.

Nesta pausa, Bettencourt aproveitou para se lançar a solo com o disco “Schizophonic”, em 1997, e juntou-se ao sobrinho para criar os Mourning Windows. Ainda criou um projeto que passou por vários nomes: Population 1, Near Death Experience e Drama Gods, tendo gravado mais alguns álbuns elogiados pela crítica.

Inovador e eclético, o guitarrista recebe cada vez mais convites para fazer colaborações especiais. É impossível não reparar no seu contributo no “Black Cat”, de Janet Jackson, por exemplo, ou na produção para artistas tão distintos como Dweezil Zappa, Steve Perry dos Journey, Toni Braxton ou Lúcia Moniz.

Nuno Bettencourt explorou vários géneros, mas na altura de regressar às raízes, sabia exatamente o que queria fazer. Quando entrou no estúdio para gravar o mais recente trabalho de estúdio dos Extreme, levou consigo a ambição. Não havia lugar para objetivos humildes para que fosse um comeback grandioso.

“O meu empresário perguntou-me qual é a minha vibe, o que é que eu pretendia neste disco. Respondi: ‘Estou à procura de sangue’”, contou numa entrevista à “Classic Rock”. “Queria trazer a guitarra de volta. Não necessariamente de uma forma técnica, mas com amor e emoção”.

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