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Nuno Bettencourt vence Grammy para Melhor Performance de Rock

Já atuou com Janet Jackson, Rihanna e os Aerosmith. Este domingo, 1 de fevereiro, o músico açoriano fez história.

A noite dos Grammy Awards 2026 foi histórica para Nuno Bettencourt. Na 68.ª edição do evento, que decorreu este domingo, 1 de fevereiro, conquistou um dos prémios mais cobiçados da indústria da música internacional. O guitarrista português foi um dos distinguidos na categoria de Melhor Performance de Rock pela atuação em “Changes (Live from Villa Park / Back to the Beginning)”, versão ao vivo do clássico dos Black Sabbath realizada em julho de 2025, no Reino Unido, durante o concerto de despedida de Ozzy Osbourne, que morreu a 22 de julho de 2025.

A Academia de Artes e Ciências de Gravação considerou a atuação, que juntou ainda o britânico Yungblud, o baixista Frank Bello, o teclista Adam Wakeman e o baterista II, uma das grandes manifestações do rock contemporâneo. A performance foi enaltecida como tributo simultâneo ao percurso de Osbourne e à força do rock ao vivo. Bettencourt chegou a partilhar o que Ozzy lhe disse nas semanas antes de morrer.

O líder dos Black Sabbath era um dos ídolos de Bettencourt, pelo menos desde 1982, ano em que respondeu a um anúncio lançado por Osbourne para substituir Randy Rhoads. “Ele lançou um anúncio onde pedia para que lhe enviassem uma cassete. Foi o que fiz. Tinha 15 anos. Claro que ninguém me ligou de volta”, confessou.

O convite tardou, mas acabou por chegar, 12 anos mais tarde. Em 1993 foi convidado por Ozzy Osbourne para se tornar seu guitarrista e só conseguiu fazer uma pergunta: “Ouviram a minha cassete?”.

Embora se tenha sentido vingado, o guitarrista acabou por recusar o convite. Na altura, já andava na estrada a tocar com os Extreme, grupo que ajudou a formar em 1985.  A sonoridade da banda, um estilo hard rock da que fluía do glam metal ao funk rock, cultivou uma legião de fãs muito graças às performances eletrizantes do artista nacional.

Aos 59 anos, Nuno Bettencourt cimentou o seu nome como um dos melhores guitarristas do país — e, para muitos, do mundo. E voltou a mostrar isso mesmo em Lisboa, no “concerto explosivo” dos Extreme, na última edição do Rock in Rio, em 2024. Entre a multidão que sabia as letras de cor, destacaram-se os seus solos.

Nascido na ilha Terceira, nos Açores, mudou-se para os Estados Unidos com apenas quatro anos. A família ia à procura de tudo: emprego, dinheiro e uma vida melhor. Após juntar-se aos Extreme, os membros chegaram mesmo a tocar ao lado dos Aerosmith e, pelo meio, ainda colaborou com nomes como Janet Jackson, Toni Braxton e Robert Palmer, por exemplo. Tornou-se cada vez mais requisitado.

A parceria com Rihanna

Desde 2009, Nuno Bettencourt é também o guitarrista da banda que acompanha Rihanna em todas as digressões. Em 2023 foi um dos músicos que subiram ao palco para dar apoio à cantora na final do Super Bowl, num espetáculo que durou pouco mais de 13 minutos.

“Tínhamos acabado de fazer uma digressão dos Extreme e um amigo meu, o Tony Bruno, ligou-me a dizer: ‘Já te pedi dez vezes, mas sei que estás em Los Angeles. Nós estamos cá também, a Rihanna viu alguns dos teus vídeos. Aceitarias fazer isto?’”, revelou numa entrevista.

Inicialmente, recusou o convite porque o material tinha pouca guitarra. Foi então que lhe disseram que a caribenha queria algo mais pesado ao vivo e, perante o desafio, mudou de ideias. “Pensei: portanto, vou poder fazer o que faço melhor. ‘Posso arruinar cada uma das canções dela?’ E ele respondeu: ‘Sim’.”

Confrontado pelos céticos, explica que há mais perícia e dificuldade nos espetáculos do que se poderia pensar à partida. “É uma banda a sério, não há playback. Pegamos nos temas e tocamo-los a sério, não têm nada a ver com o que está no disco”.

Como tudo começou

Curiosamente, a primeira paixão de Bettencourt não foi a guitarra. Foi com a bateria que aprendeu toda a noção rítmica que apresenta hoje nos riffs. Começou a explorar estre instrumento bastante novo na casa onde vivia com a família, cidade de Hudson, em Massachusetts, nos Estados Unidos.

Quando o irmão Luís o apresentou à guitarra, tudo mudou. Tornou-se autodidata e faltava às aulas para praticar até sete horas por dia. Acabou por desistir dos estudos para se dedicar à música e ainda chegou a ter uma banda de rock na adolescência, mas o projeto teve uma vida curta.

O artista aproveitou para explorar as suas influências, como Jimmy Page, Jimi Hendrix e, sobretudo, Eddie Van Halen. Nuno estava a gravar uma versão de “Rise”, do neerlandês, quando o próprio apareceu no estúdio, revelou à “Guitarworld”.

“O meu telemóvel estava a explodir e isso irritou-me porque o Gary [Cherone] sabe que não me deve incomodar enquanto estou a gravar. Continuou a ligar-lhe e depois mandou mensagem: “Desce as escadas. Na terceira vez, pensei ‘vou dar um murro neste gajo’, desço, abro a porta e é o Edward Van Halen”.

Surpreendido, não quis que o ídolo ouvisse o que estava a fazer. A ideia era mostrar-lhe o resultado mais tarde, mas o músico acabou por morrer antes disso, em 2020.

A versão acabou por ser lançada pelos Extreme, em 2023, e o solo do guitarrista foi amplamente elogiado nas redes sociais. É um dos trabalhos que melhor refletem estas influências no estilo de Nuno Bettencourt: muito preciso, rápido e cheio de energia, com técnicas como o tapping [envolve o uso das duas mãos para pressionar as cordas do instrumento].

Dos Extreme à carreira a solo

Este ADN de Nuno Bettencourt está presente desde o início dos Extreme, sobretudo desde que se cruzou com Gary Cherone e Paul Geary, que tocavam numa banda chamada The Dream. Já atuavam em alguns bares da região de Massachussets e a química com o guitarrista, que já era conhecido na cena local, levou-os a juntarem-se ao grupo. Mais tarde, Pat Badger entrou como baixista.

Um dos primeiros solos do artista foi no single “Play With Me”, do álbum homónimo, que fez parte da banda sonora do filme “A Fantástica Aventura de Bill e Ted”. Trata-se de um tema que capta a essência do rock típico do final dos anos 80 e que, recentemente, foi usado na abertura de um episódio de “Stranger Things”.

O tema que os catapultou para a fama foi o eterno “More Than Words”, composto por Nuno e Gary Cherone. Lançado em 1990, inserido no álbum “Pornograffitti”, chegou ao primeiro lugar da Billboard norte-americana, também no Canadá — e, naturalmente, em Portugal. No resto do mundo, foi também um incrível sucesso. Só no Reino Unido, por exemplo, o single vendeu mais de 200 mil cópias.

Apesar do sucesso, os Extreme não se enquadraram na cena musical e acabaram por se separar em 1996, reunindo-se para um disco em 2008. No ano passado, apresentaram o sexto disco da banda, “Six”, e mostraram que, mesmo que o hard rock já não lidere os tops musicais, a banda norte-americana continua a mover milhares de fãs.

Nesta pausa, Bettencourt aproveitou para se lançar a solo com o disco “Schizophonic”, em 1997, e juntou-se ao sobrinho para criar os Mourning Windows. Ainda criou um projeto que passou por vários nomes: Population 1, Near Death Experience e Drama Gods, tendo gravado mais alguns álbuns elogiados pela crítica.

Inovador e eclético, o guitarrista recebe cada vez mais convites para fazer colaborações especiais. É impossível não reparar no seu contributo no “Black Cat”, de Janet Jackson, por exemplo, ou na produção para artistas tão distintos como Dweezil Zappa, Steve Perry dos Journey, Toni Braxton ou Lúcia Moniz.

Nuno Bettencourt explorou vários géneros, mas na altura de regressar às raízes, sabia exatamente o que queria fazer. Quando entrou no estúdio para gravar o mais recente trabalho de estúdio dos Extreme, levou consigo a ambição. Não havia lugar para objetivos humildes para que fosse um comeback grandioso.

“O meu empresário perguntou-me qual é a minha vibe, o que é que eu pretendia neste disco. Respondi: ‘Estou à procura de sangue’”, contou numa entrevista à “Classic Rock”. “Queria trazer a guitarra de volta. Não necessariamente de uma forma técnica, mas com amor e emoção”.

Leia também este artigo da NiT para ficar a conhecer os restantes vencedores dos Grammy Awards 2026 e descubra quem se destacou na passadeira vermelha, pelos melhores e piores motivos.

Carregue na galeria para ver mais imagens do concerto dos Extreme na última edição do Rock in Rio, em 2024.

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