Música

O concerto dos Backstreet Boys em Lisboa foi mais do mesmo — e os fãs agradecem

Arrancaram a segunda etapa da "DNA Tour", esta segunda-feira. Trouxeram à Altice Arena um espectáculo bem oleado e que não desiludiu.
Os rapazes estão bem e recomendam-se.

A Alice Arena estava lotada para receber o quinteto formado por AJ McLean, Howie Dorough, Nick Carter, Kevin Richardson e Brian Littrell, ou seja, os Backstreet Boys. Esta foi a quarta vez que atuaram em Portugal, 24 anos depois da primeira vez que pisaram um palco em território nacional. Na altura, estavam juntos há cinco anos (formam-se em Orlando, na Flórida, em 1993) e deixavam milhões de adolescentes a suspirar.

Só voltaram mais de uma década e meia depois, ao Campo Pequeno, em 2014, para celebrarem 20 anos de carreira. Há três anos, em 2019, estiveram na Altice Arena, a propósito do lançamento de “DNA”, o nono álbum. Ora foi precisamente à mesma sala de espectáculos que os Backstreet Boys regressaram esta segunda-feira, 3 de outubro, para a primeira apresentação da segunda etapa da digressão “DNA Tour”. Uma história que vale a pena recordar e que ajuda a perceber o que por lá se passou, mas comecemos pelo fim. Os rapazes, já nos ‘entas, e um acabadinho de entrar nos 50, estão bem e recomendam-se. Aliás, parecem mesmo estar muito melhor que a maior parte dos trintões e sobretudo quarentões que esgotaram a Altice Arena. Tudo acabou bem, mas o arranque provocou alguns arrepios — e a sensação de que tudo poderia correr mal.

À hora certa, o ecrã gigante ligou-se e começou a passar os nomes de alguns dos álbuns do grupo, em letras douradas, e com efeitos de luz dignos de um discoteca futurista dos anos 80. O público estava pronto para dançar (e dançou) e recebeu Nick, Brian, Kevin, Howie e AJ — à medida que foram aparecendo um a um na tela, com gritos. Estava dado o tom, quando finalmente surgiram em palco, de fatos pretos que misturavam uma estética Mad Max, com pormenores retrofuturistas, com hip hop. Um mix pouco auspicioso que resultou na perfeição. Os Boys andam nisto há muito tempo, há precisamente 29 anos, e conhecem bem o seu público.

Arrancaram com canções do álbum que dá nome à tour, que muitos sabem de cor e acompanharam a plenos pulmões (algo que não era propriamente garantido, dada a longevidade da carreira do grupo repleta de hits estrondosos que poderiam ter dominado o alinhamento). Entre temas mais recentes e antigos, não faltou equilíbrio — uma harmonia que ajudou a disfarçar as pausas de segundos de um e outro para recuperarem o folêgo. E bem precisaram. Entre “Don’t Go Breaking My Heart”, “Nobody Else”, “I Wanna Be With You”, “Get Down (You’re the One for Me)”, “Incomplete” e muitas outras, não faltaram coreografias bem sincronizadas, saltos e muito movimento em palco. Não ficou um metro por percorrer, para alegria da assistência que vibrava com os acenos e olhinhos.

“É por causa de vocês que ainda podemos continuar a fazer isto. (…) Esta noite vamos fazer de conta que temos 20 anos outra vez”, anunciou Brian Littrell na primeira vez que se dirigiu à Altice Arena. Foi uma viagem de regresso ao passado por um caminho bem iluminado (os técnicos de luz merecem um elogio) e num palco bastante despojado, que o quinteto enche com passos bem coreografados, trocas de roupa e muita interação com os fãs.

Kevin Richardson fez 51 anos e o momento foi devidamente assinalado. Foram cantados os parabéns, o aniversariante hasteou uma bandeira portuguesa, e mostrou-se bastante emocionado. Seguiu-se o single “No Place” (do álbum DNA), apenas um motivo para mostrar à multidão que os Boys já não são rapazes, mas pais de família. Nos ecrãs gigantes passavam imagens dos artistas com várias idades, e já com as mulheres e filhos. “Esta música é a minha favorita”, disse Kevin, acrescentando: “Porque é uma música sobre a família”. E é isso que os Backstreet são agora — uma família que se formou há 29 anos (celebram 30 anos de carreira em 2023) — que atua para famílias inteiras. “Temos aqui três gerações. Alguns de vocês trouxeram os vossos filhos”, constatou Kevin. Foi um momento bonito, mas era preciso lembrar ao público feminino — claramente em maioria — o que as trouxe ali.

“Somos a única boy band que nunca, nunca parou”, lembra AJ. Um feito, de facto. E os Boys sabem a quem o devem — e durante praticamente duas horas não se cansaram de agradecer, inclusive em português. “É por causa de vocês que os Backstreet são os Backstreet.” E mostraram, literalmente, que gostam de retribuir o que recebem das fãs. AJ e o aniversariante esconderam-se atrás de uns biombos instalados no meio do palco para mudarem de roupa e aproveitaram para atirar os boxers para as fãs (que duvidamos que alguma vez tenham usado, mas todos aderem à encenação com muitos gritos a acompanhar). Uma espécie de troca por troca de todas as peças de lingerie que foram recebendo das fãs ao longos dos anos. “Estamos demasiado velhos para isto”, diz Kevin a brincar, mas muito a sério. Já não são um grupo de miúdos que cantam e dançam para miúdas — e vivem muito bem com isso.

As vozes até podem vacilar, mas a energia de quem faz realmente o que gosta está lá toda. Sentem-se privilegiados por continuarem a fazer o que sempre fizeram e o público sentiu isso. Não lamentam o que poderiam ter sido, acaso se tivessem separado como aconteceu a tantas outras boy band — e optassem por carreiras a solo. E não pedem desculpa por serem quem são, nem pelos figurinos que pararam nos anos 90 (e que agora, com o revival da década e do Y2K estão perfeitamente alinhados com o zeitgeist), nem pelas batidas pop desenhadas ao milímetro com regra e esquadro. Têm uma máquina bem oleada e sabem conduzi-la de olhos fechados. E, muitas vezes, é mesmo só isso que queremos — alguém que saiba o que está a fazer e nos garanta uma viagem de ida e volta, sem percalços nem más surpresas, à adolescência.

“Nem acredito no que estou a ver, tantos anos depois”, disse Nick Carter a meio do show, deslumbrado com a lotação da Arena. Precisamente a frase que nos vem à cabeça quando percebemos que o espectáculo se aproxima do fim e o público já grita pelo encore. Olhamos em volta, sentimos a emoção no ar e é difícil acreditar na energia frenética que nos rodeia. Dois minutos depois os cinco estão de novo em palco, com outro figurino, e prontos a mostrar que são “Larger than life”, a música com que se despedem da Altice Arena. E talvez sejam mesmo. Até porque, garantem, “querem continuar a fazer isto até ao fim”.

Carregue na galeria e descubra alguns dos melhores momentos do concerto.

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