Música

O dia em que os Depeche Mode levaram Portugal ao mundo — à boleia do seu maior êxito

"Enjoy the Silence" consagrou a banda por todo o mundo. Escondido no videoclipe do single está uma lindíssima praia portuguesa.
Fletcher (à dir.) tinha 60 anos

E ao sétimo disco, os Depeche Mode cimentavam-se finalmente como uma das gigantes bandas dos 80 e 90. O relativo sucesso internacional dos anteriores álbuns empalideceu perante o estrondoso “Violator”. Na sua lista de faixas estava aquela que se tornaria num verdadeiro hino, “Enjoy the Silence”.

A banda era então composta pelo inconfundível Dave Gahan, por Martin Gore, Alan Wilder e Andy Fletcher. Mais de três décadas depois — já devidamente introduzidos ao Hall of Fame e reconhecidos como um dos grupos mais influentes da sua geração —, os Depeche Mode despedem-se de um dos seus membros fundadores.

Fletcher, o teclista da banda britânica, morreu esta quinta-feira, 26 de maio, aos 60 anos. “Estamos chocados e imensamente tristes com a morte prematura deste nosso querido amigo, membro de família e colega de banda Andy ‘Fletch’ Fletcher”, anunciou o grupo em comunicado.

Entre todos os êxitos intemporais criados pelos Depeche Mode, “Enjoy the Silence” permanece como um dos mais simbólicos. E o que muitos fãs não sabem é que Portugal teve uma pequena participação especial nesse hit que levou os rapazes britânicos ao topo das tabelas por todo o mundo.

Para promover o tema que seria o segundo single de “Violator”, decidiu-se que o videoclipe seria entregue ao realizador holandês Anton Corbijn. Isto na era MTV onde, ao contrário do que acontece hoje, os videoclipes eram verdadeiros momentos de êxtase que ajudavam a levar ainda mais longe e a mais gente as músicas. Os videoclipes ainda importavam — e era vital que fossem bem executados.

“O Anton veio ter comigo e disse-me: ‘Bem, Dave, tenho uma ideia. Vais usar uma coroa. És um rei que caminha para todo o lado e vais levar uma daquelas cadeiras de praia debaixo do braço’”, recordou o vocalista da banda, anos mais tarde. “Não percebi nada, mas assim que começámos a filmar, ele mostrou-me as imagens e entendi o que ele queria: retratar o homem que tem tudo mas que não sente nada.”

Assim foi. Gahan vestiu-se com uma túnica vermelha, colocou a coroa na cabeça e agarrou numa cadeira de praia de madeira com tecido azul. Ao longo de várias localizações escolhidas pela Europa, Gahan foi filmado a fazer o mesmo gesto: a caminhar, inexpressivo, até um local de contemplação.

Cadeira armada, rei acomodado e o silêncio. O videoclipe estava em total harmonia com o tema e, claro, gozou do mesmo sucesso.

“O tema realmente completou o disco e levou-o até outro cosmos. Os dez anos que o antecederam foram uma constante escalada, mas acho que não estávamos minimamente preparados para o que se seguiria”, explicou Gahan. “O disco foi um sucesso mundial e de repente começaram a cair os cheques das royalties e percebemos que podíamos fazer o que queríamos, quando o queríamos.”

O videoclipe levou a equipa de filmagens a um lago escocês, aos Alpes suíços e a Portugal. Queriam escolher locais intocados pelo homem, onde só fosse possível observar a natureza. Nos Alpes, Gahan caminha pela neve. Na Escócia, pelos rochedos enlameados. Chegado a Portugal, o destino foi o Algarve, algures em 1989.

Só uma análise mais cuidada permite descortinar o real local das filmagens, que terá sido na Prainha, uma praia na zona do Alvor, a poucos quilómetros de Portimão. Gahan percorre as arribas verdes e desce as escarpas até chegar ao areal. É lá que monta novamente a cadeira e se senta, enquanto admira o pôr do sol.

Especula-se ainda que o quarto cenário usado no videoclipe possa ter sido gravado num monte alentejano, dadas as parecenças das duas paisagens, embora isso nunca tenha sido confirmado.

(Foto: X__Alien (Reddit))

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT