Música

O ex-vocalista dos Sex Pistols deixou a música para cuidar da mulher com Alzheimer

Johnny Rotten não perdeu o mau feitio, mas dedicou-se aos netos adotivos e aos cuidados da família.
Rotten e Forster em 2011

Irritante, detestável, impertinente, odioso, sujo, malcriado. Os adjetivos colados ao longo das últimas quatro décadas a John Lydon dariam para escrever um livro com vários volumes. Johnny Rotten, como é conhecido, está longe de ser uma figura afável.

Recorrentemente nas notícias por motivos pouco recomendáveis, voltou a levantar a voz no passado domingo, 25 de abril, para se insurgir contra a minissérie sobre os Sex Pistols, produzida por Danny Boyle, cuja história se inspira nas memórias do guitarrista Steve Jones.

“Acho que é a merda mais desrespeitosa que já tive que aturar. Contrataram um ator para fazer de mim, mas vai interpretar o quê? Certamente não será a minha personalidade. Não posso ir a lado nenhum senão a tribunal”, atirou o antigo vocalista dos Sex Pistols. “Se acham que podem fazer isto, passar por cima de mim. Não vai acontecer. Não sem uma enorme, gigante luta.”

Aos 65 anos, mantém o bom espírito de punk rocker rebelde: o cabelo pintado e espetado, os muitos brincos e, sobretudo, o feitio irascível. Os Sex Pistols já lá vão: abandonou a polémica banda que chocou o mundo em 1978, depois de um desentendimento com o agente e os colegas.

Quarenta anos depois do adeus, Rotten (podre) — que ganhou a alcunha graças à falta de higiene dentária — mantém-se no ativo, à frente dos Public Image Ltd., mas a carreira ininterrupta chegou, finalmente, a um obstáculo intransponível.

O amor de um punk

Em 1978, Rotten despedia-se do palco com os Sex Pistols com uma frase icónica: “Alguma vez sentiram que foram enganados?” Seria a última como membro da banda. Um ano depois, terá mesmo casado com Nora Forster — terá, porque a união nunca foi confirmada oficialmente.

Com ou sem papel a confirmá-la, a verdade é que Forster e Lydon estão juntos desde então. Catorze anos mais velha do que o companheiro, Nora começou a mostrar indícios de Alzheimer há cerca de uma década, sobretudo depois da morte da filha, Ari Up, vítima de cancro da mama.

Nora e Lydon (à esq.) durante os tempos dos Sex Pistols

“Uma mãe perder uma filha é uma tragédia. É uma parte alegre da tua vida que te é roubada, corres o risco de ficar perdido com pena de ti próprio, ou eventualmente perdido nos pormenores. Acho que foi nessa altura que os problemas da Nora começaram”, revela Lydon.

Aos 78 anos, Forster está completamente dependente do companheiro. E Lydon fez o que nunca havia feito em quatro décadas de carreira: arrumou o punk e a música no armário e dedicou-se à vida familiar. Hoje, admite, é um “cuidador a tempo inteiro”.

“Ela não se lembra de caras e situações, mas a personalidade está lá e continua a ser a pessoa que amei durante 40 anos. Isso não vai mudar.”

Apesar de ainda reconhecer Lydon, tudo o resto envolve tarefas quase impossíveis para a mulher cuja “memória é um puzzle permanente”. Lydon cozinha, limpa, dá banho e veste Nora. “Ela ainda não está completamente incapaz, mas os especialistas garantiram-me que isso irá acontecer. Até lá, as coisas serão assim.”

Sem cuidados 24 horas por dia, uma tragédia podia acontecer. “Ela já pegou fogo à casa duas vezes, uma em Inglaterra e outra aqui [na Califórnia]. Não pode acontecer outra vez”, recorda. “E às vezes deita chá pela minha cabeça abaixo porque se esquece da forma correta de segurar uma caneca.”

Mesmo nos momentos mais difíceis, Lydon assegura que há esperança. Admite que por vezes explode de impaciência. “Mas depois olho para ela e pisca-me o olho. Momentos como esse são geniais e recompensadores, porque algo nela fez um clique e provoca-me como sempre fez quando eu me passava da cabeça.”

Fora de questão está o internamento num lar e muito menos dar-lhe medicação. “Seria mais fácil para mim mas não para ela. E é com ela que estou mais preocupado.”

Um pai para todos

Nora e John nunca foram pais, mas ela já era mãe de uma adolescente, Ariane Forster, quando ambos se casaram. Rotten acabou por se tornar no seu padrasto e a influência fez-se notar.

Rebatizou-se como Ari Up e tornou-se na vocalista da banda de post-punk The Slits. A artista problemática era uma preocupação para Forster e Lydon, que tinham medo que os dois filhos de Ari não estivessem a ter o devido acompanhamento.

Lydon e a filha adotiva, Ari Up

“Ela estava a criá-los em Kingston, na Jamaica, e faziam o que queriam. Não sabiam ler, escrever ou falar em frases completas”, revelou Lydon sobre os dois adolescentes. “Um dia a Ari disse-nos que não conseguia tratar deles e eu sugeri que viessem viver connosco porque não os queria abandonados. Tornaram a nossa vida num inferno, mas adorava ter miúdos por perto.”

Pablo e Pedro mudaram-se para a casa de Rotten no início dos anos 2000 — e tornaram-se numa dor de cabeça. “Já eram adolescentes, desafiantes, queriam declarar a sua masculinidade. Foram tempos caóticos mas amigáveis.”

Não foi a única boa ação do punk rocker. Em 2010, surge uma nova tragédia com a morte de Ari, vítima de cancro da mama. Tinha sido novamente mãe e coube a Lydon e Forster adotar a criança.

Hoje, Wilton tem 25 anos e Rotten sente-se um pai adotivo orgulhoso, embora continue com um jeito particular para as tiradas polémicas: “Anda lá na dele, na universidade dos sem género ou lá o que lhe chamam por estes dias. É tudo demasiado confuso. Mas está a viver a vida dele, de forma diferente, e por mim está tudo bem. Mostra que tem caráter e personalidade.”

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