Música

“O grande desafio é esconder os meus interesses pessoais para ser imparcial”

Antes da final de "Ídolos" no domingo, 3 de julho, a NiT falou com Martim Sousa Tavares sobre a sua experiência como jurado.
Tem 30 anos.

Para a alegria de muitos jovens talentosos, sete anos após a última edição, em 2015, a SIC anunciou o regresso de “Ídolos”, com várias novidades. Os clássicos “cromos” — uma compilação das audições mais desastrosas que aconteciam em cada programa — por exemplo, ficavam de fora.

“Consideramos que, no mundo em que vivemos hoje, não faz sentido. As pessoas preferem ver outras coisas e já não gostam de assistir a cenas que antes eram aceitáveis. O mundo já não aceita determinadas situações — e bem”, justificou na altura, em entrevista à NiT, a cantora Ana Bacalhau, que se estreava como jurada. Com ela, mais três novatos: a humorista Joana Marques, o músico Tatanka (dos The Black Mamba) e o maestro Martim Sousa Tavares. A apresentar, no lugar que outrora ocupou João Manzarra, surgiu Sara Matos.

Com a final de “Ídolos” à porta — acontece este domingo, 3 de julho —, falamos com Martim, talvez o membro do júri menos conhecido entre o grande público quando tudo começou. Aos 30 anos, contudo, o seu percurso no mundo da música clássica já inclui a direção de orquestras em cidades como Rio de Janeiro, Madrid, Chicago, São Petersburgo, Milão ou Lisboa.

Preocupado com a descentralização e a acessibilidade radical no acesso à música clássica, menciona com igual entusiasmo palcos como Rapoula do Côa (Sabugal), Orjais (Covilhã), Colmeal da Torre (Belmonte), Atalaia do Campo (Fundão), Benquerença (Penamacor), Carvalhal Redondo (Nelas) e Pínzio (Pinhel) na sua página.

Trabalha também como autor, speaker e em direções artísticas. À NiT falou sobre este projeto tão diferente de tudo o que já fez, dos que estão por vir e a vontade de colocar a música clássica em foco.

Qual a sua reação quando recebeu o convite para fazer parte do júri de “Ídolos”?
Foi de surpresa. Não dei logo resposta afirmativa. Pedi 24 horas para pensar, mas depois a ideia cresceu em mim. Achei que ia divertir-me muito, portanto, aceitei. Não estou nada arrependido, nem penso que me tenha enganado.

Costumava acompanhar o programa?
Acompanhava quando era adolescente, até porque alguns amigos meus participaram. Como esteve algum tempo fora do ar [a última edição nacional foi em 2015], confesso que não tinha muitas referências recentes.

Que expetativas tinha para este projeto?
A de poder pôr à disposição dos candidatos tudo aquilo que tenho para dar, baseando-me mesmo no princípio altruísta que é a fundação deste programa: dar oportunidades a pessoas que as merecem. Há jovens músicos no nosso País que têm muito talento e sei bem disso porque, o quotidiano do meu trabalho, embora seja com música clássica, também os envolve.

E as expetativas corresponderam à realidade?
Acho que sim. Na verdade, até acho que esta é, de todas as edições do programa, aquela que tem mais talento na fase final. Há duas semanas que qualquer concorrente podia ganhar. E é incrível pensar que neste fim de semana ainda há quatro pessoas [a concorrer] e só uma vai vencer, quando as outras também mereciam. Por isto, acho que não interessa só quem é que leva o prémio, mas que estas pessoas possam ser vistas e ouvidas para que as suas carreiras se abram. O programa serve para ajudar todos e não apenas quem ganha.

O papel de julgar os participantes pode ser ingrato.
Alguém tem de o fazer e é bom para estes jovens que quem o faça seja objetivo e construtivo, como somos. Fundamentamos sempre as opiniões e ninguém vai embora por não gostarmos da cara dessa pessoa ou da forma como vai vestida. E, como são autodidatas e aprenderam no YouTube, se calhar é a primeira vez que estão a ouvir uma voz crítica. Neste sentido, isto é muito importante porque pode, rapidamente, endireitá-los, fazê-los perceber o que realmente lhes faz falta e ajudá-los a procurar por isso.

Acha que os concorrentes estão preparados para ouvir essa voz crítica quando não diz o que esperavam?
Acho que sim. Nós não estamos a julgar e sim a avaliar, a emitir um parecer enquanto profissionais. Talvez, no momento, alguns não consigam afastar-se do seu ego, uma vez que estão tão dentro daquilo, que é muito emocional, e não tenham a clarividência do que estamos a dizer do momento. Mas tenho a certeza que depois, chegando a casa, com mais distância, o entendam, porque são questões objetivas.

O programa termina no domingo, 3 de julho. Qual o balanço que faz da sua participação em particular e da experiência no geral?
De mim, só posso dizer que me diverti muito e aprendi bastante. Foi algo feito com muita humildade e vontade de dar a cada pessoa tudo o que tinha. Em relação ao programa, foi um sucesso porque voltou a ser aquele formato que as pessoas gostam muito com várias pessoas diferentes na fase de casting. Depois, à medida que aqueles concorrentes vão avançando, as pessoas criam uma ligação empática com eles. Tenho visto o público que lá está a sofrer e festejar com eles. É algo muito bonito.

Tem algum favorito à vitória?
Tenho, mas não posso dizer quem é.

Aceitaria voltar a ser um dos membros do júri numa próxima outra edição?
Claro que sim. Acredito que seja uma coisa que, caso venha a acontecer, até poderia correr melhor. Das cinco pessoas que ali estão [os quatro jurados e a apresentadora], nenhum tinha experiência a fazer uma coisa destas e, portanto, de certa maneira, foi uma aprendizagem para todos. Olhando para trás, penso que conseguiríamos ser ainda mais assertivos e fazer melhor aquilo que nos era pedido, mas não tínhamos maneira de saber por estarmos também a aprender.

Estudou a forma como outros jurados se posicionavam para se preparar para este papel?
Claro. Tivemos até uma formação com a produtora inglesa do programa, que fez uma apresentação — os painéis de jurados do mundo inteiro passam por isso — com bons e maus exemplos, boas e más práticas, conselhos, esquemas de distribuição de tarefas, formas de ajudar a conduzir a coisa através do que estamos a dizer, de negociar com a reação. Francamente, acho que estivemos bem. O programa foi muito agradável de acompanhar e surpreendeu, mas claro que podemos sempre crescer e, portanto, se se fizer um segundo, vamos querer ser melhores.

Como foi a relação com os outros membros do júri? Já os conhecia?
Não conhecia nenhum pessoalmente, mas a todos enquanto figuras públicas. Foi uma relação muito bonita a que se gerou, automaticamente, assim que passamos um dia completo nas gravações. Percebemos que nos dávamos todos muito bem, a coisa cresceu e tornou-se muito complementar. Agora que vamos para a última sessão, já estamos todos com saudades uns dos outros.

Qual considera ter sido o maior desafio de “Ídolos”?
Há uma parte que é meramente física. Tem a ver com a resistência, porque as rondas de casting são gravadas em dias extremamente longos. Houve um em que entrei às oito horas da manhã e saí já depois das duas do dia seguinte. Aqui é uma dificuldade de dar a atenção que os concorrentes merecem que lhes seja dada, independentemente da hora do dia e de quantos já vimos.
Passada essa fase, diria que o grande desafio é mesmo esconder aqueles que são os meus interesses pessoais. Por exemplo, como toda a gente, gosto mais de certas coisas do que outras, de certos géneros, à quais que não ouço. No entanto, há pessoas que valem independente disso. Temos de nos colocar no papel de quem está a ver e de quem gosta daquele género. Não emitir um juízo de valor que é pessoal, mas sim universal e imparcial.

Há alguma história de bastidores curiosa?
A única que poderia haver foi logo assumida no primeiro minuto. Já conhecia a Beatriz [Almeida], que agora está na final, antes do concurso. Ela é também violoncelista e foi nessa vertente que nos cruzamos. Ela tocava num espetáculo que estava a dirigir em 2021. Estreou no Teatro Nacional D. Maria II e depois fomos numa pequena digressão pela Europa, pelo que passei algum tempo com ela ao longo da primeira metade do ano passado. Depois, quando recebi o convite e foi anunciado ela disse-me que tinha concorrido. Quando apareceu na primeira audição, pedi para ser o último a falar e, para que os outros jurados se pronunciassem livremente e tudo fosse genuíno, não disse a ninguém que a conhecia.

A verdade é que ela chegou à final. Temos sido imparciais com ela, mas se chegou à final é porque, de facto, é muito boa. Já são as pessoas a votar nela. É bonito, de certa forma, ver este outro lado da Beatriz, que não conhecia, mas está muito em linha com o que sabia. Trata-se de uma música da cabeça aos pés e desejo-lhe todo o bem do mundo, tal como desejo aos outros que também são incríveis. Acho que este é o tipo de coisa que, se tivéssemos tentado esconder, poderia ter sido horrível e pô-la numa posição muito chata. Assumimos a coisa e parece que as pessoas compreenderam. É um mundo pequenino e só lhe fica bem a ela que mostra ter uma outra faceta, a tocar violoncelo, com muito valor.

Aos 30 anos, já trabalhou como maestro, autor, em direção artística e divulgação musical. O que lhe falta fazer? Tem algum projeto em mãos?
No futuro mais imediato, o projeto que tenho na calha é preparar um livro. Estive três anos a fazer programas na rádio todas as semanas e tenho escrito muitos guiões de música clássica. Gostava de agarrar em todas estas ideias e nas centenas de páginas que produzi e pô-las em forma de um livro. Há muitas pessoas que me pedem referências, leituras e coisas para entrarem na música clássica, pelo que é o desafio mais imediato que tenho, diferente de tudo o que já fiz e que gostava de ter pronto na primeira metade do ano que vem.

Outros projetos são em áreas que já estou a trabalhar. Pedidos para escrever músicas, dirigir uma peça de teatro, estrear em algumas salas que ainda não toquei, dirigir novas orquestras… Nem tudo tem ser novidade, mas um balanço de consolidação do trabalho e de diversificação daquilo que é o meu portefólio.

O facto de estar no centro das atenções pode contribuir para um maior interesse pela música clássica?
Imagino que sim e gosto de acreditar nisso, que foi também uma das razões que me levaram a aceitar o desafio. Ou seja, pensar que depois consigo canalizar esta atenção e levá-la para uma zona mais específica, ao mostrar que sei estar à vista de todos, mas depois também criar curiosidade para verem o que são as coisas específicas que eu faço e menos pessoas possam conhecer.

Tenho recebido imenso feedback nesse sentido. Há um livro [“Música, só música”] do [escritor e tradutor japonês Haruki] Murakami, que saiu com o meu prefácio e a minha revisão técnica. Na altura em que andei a publicitá-lo, chegou aos tops de vendas. Uma causa efeito que me parece evidente. Ou seja, uma pessoa que, se calhar não era conhecida e, de repente, está no centro das atenções, num programa mainstream, põe cá fora um livro que está ligado ao Murakami e ele chega a número dois de vendas nessa altura. A demonstração que tive foi que, de facto, estar ali todos os sábados à noite, pode ajudar-me a dar maior visibilidade ao que faço no resto da minha semana, que é com música clássica.

O que pode ser feito em Portugal para haver um maior interesse na música clássica? Falta um maior investimento?
Honestamente, acho que não é só uma questão de investir a nível do Estado. Os próprios artistas, as organizações e as orquestras têm de repensar as suas formas de estar e de como querem renovar os seus públicos. Pensar em oferecer concertos com um tipo de experiência diferente. A questão da divulgação, aqui, acho que é chave. Significa que as pessoas ganham maior consciência sobre aquilo que é a música clássica, têm mais curiosidade e vão elas procurar mais informação. Na verdade é uma abordagem que tem de ser feita por vários agentes, não é só pedir ao Estado para gastar mais dinheiro ou pedir às pessoas para irem ver concertos só porque sim. Têm de ser feitas estas coisas. Tento, no meu pequeno contributo, fazê-las todas um bocadinho, seja como maestro com a minha orquestra ou como comunicador, ao tentar encontrar tópicos que possam interessar às pessoas e pensá-los de uma nova forma.

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