Música

O jogo de futebol surreal que salvou a carreira de André Rieu

Em 1995, o holandês era um desconhecido e fez uma jogada arriscada para vender mais discos. Hoje, pode dar graças aos golos marcados pelo Ajax.
Pode agradecer a Louis Van Gaal

Quem não conhece André Rieu, o violinista extravagante que mora no castelo que inspirou Alexandre Dumas e que envergonha outros artistas pop com a suas arenas a abarrotar de público; com os seus palcos que recriam palácios, onde se esbanjam garrafas de champanhe em carruagens banhadas a ouro? Pois bem, o músico holandês está de volta a Portugal em dezembro e prevê-se, tal como sempre acontece, uma corrida desenfreada aos bilhetes para os três espetáculos na Altice Arena, de 2 a 4 de dezembro.

O seu estatuto como músico é hoje inatacável — embora olhado de soslaio por muitos colegas de género musical por “vulgarizar” o estilo —, mas a sua carreira poderia ter tomado um rumo muito diferente. Rieu pode agradecer parte do seu sucesso a três golos marcados pelo Ajax em 1995. Mas a história começa um par de anos antes, quando o violinista preparava o seu quinto disco, “Strauss & Co.”.

Apesar de ter já vários discos editados, os primeiros anos não foram fáceis. Rejeitado pela maioria das editoras e dos estúdios, teve que percorrer meio mundo até convencer os responsáveis da Decca, editora que fazia parte da Universal. Começou então a trabalhar em “Strauss & Co.”, que viria a transformar-se no seu primeiro grande álbum, numa fórmula que juntou talento, acasos e um alinhamento astral improvável.

O disco estava quase pronto quando Rieu tomou uma decisão de última hora. Tinha-se apaixonado recentemente por um tema clássico do compositor russo Dmitri Shostakovitch. Reuniu novamente a sua Johann Strauss Orchestra, gravou a sua versão da “Segunda Valsa” e acrescentou-a à lista de canções.

O disco acabaria por ser lançado com um modesto sucesso. Para o promover e potenciar as vendas, o músico decide apostar numa estratégia de publicidade arriscada. “Tínhamos acabado de gravar o nosso maior disco e à época, uma seguradora tinha escolhido a ‘Segunda Valsa’ para fazer um anúncio e por isso decidi colocá-lo no disco”, contou ao “The Guardian”.

“Sabia que ia haver um grande jogo europeu e por isso comprei um minuto de transmissão ao vivo durante o intervalo.” Esse jogo seria a meia-final da Liga dos Campeões.

A 19 de abril de 1995, o Ajax era protagonista de uma campanha fabulosa na maior competição de futebol do mundo. Do outro lado estavam os arqui-inimigos dos holandeses, os alemães do todo-poderoso Bayern de Munique.

Rieu tinha tudo planeado: se o Ajax estivesse a perder, o minuto seria usado para transmitir um anúncio do disco; se as coisas corressem bem aos holandês, subiria ao relvado no intervalo para animar as bancadas e do outro lado da câmara, os milhões de espectadores ouviriam a sua versão do tema que muitos já estavam habituados a cantarolar. Havia, porém, esse pequeno pormenor que não podia controlar: os golos.

“O Ajax fez me um enorme favor e marcou mesmo antes do intervalo”, recorda Rieu do 3-1 assegurado a poucos minutos dos 45. “Na semana seguinte vendi 200 mil discos.” O Ajax viria a destroçar os alemães com um 5-2 impiedoso. Na segunda-mão, um empate a zero levou-os à final que voltariam a vencer. Um golo solitário de Kluivert frente ao AC Milan deu o título europeu ao clube de Amesterdão. Não foi a única grande vitória holandesa do ano.

Nos dias que se seguiram à partida, os discos de Rieu começaram a desaparecer das prateleiras. “A Marjorie e eu íamos todos os dias às lojas ver se ainda restavam alguns CD. Normalmente, não era esse o caso: estava tudo esgotado.”

A editora tinha previsto vender pouco mais de cinco mil cópias. Por altura do Natal, “Strauss & Co.” tinha vendido mais de 250 mil. Foi então que a carreira de Rieu definitivamente explodiu. Três décadas depois, o holandês tem no currículo mais de 40 milhões de cópias vendidas.

Extravagante e ambicioso, assume que só vende mais discos “para poder viver num castelo”. E que castelo: Rieu é o orgulhoso dono de um palacete do século XVII que pertenceu a Charles de Batz-Castlemore d’Artagnan, que serviu de inspiração ao d’Artagnan de Dumas.

Entrou na casa pela primeira vez aos seis anos. Foi lá que teve as suas primeiras lições de piano. “É lindíssimo mas não o era. Vim cá pela primeira vez aos seis para ter aulas com uma professora irritante, odiava-a. O sítio era escuro e húmido, praticamente a cair. Mais tarde disse à minha mulher que gostava de ficar com ele. E ela avisou-me: ‘Nesse caso, é melhor começares a vender alguns discos.”

Com Rieu, nada é feito pela metade. Depois de um concerto em 2008, dado à entrada do Palácio Schonbrunn em Viena, decidiu que iria replicar o cenário para a sua próxima digressão.

“Construímos uma réplica em tamanho real, era o maior palco em digressão do mundo. Tinha fontes, uma pista de patinagem no gelo e estava cheio de dançarinas — até tinha uma carruagem coberta em ouro real”, explica. Os vestidos dos músicos eram feitos à medida e custavam mais de dois mil euros. O champanhe esbanjado era real. Nada poderia ser falso.

“Estaríamos a fazer de conta e quando isso começa, tudo se torna num mero espetáculo. O que eu faço não é uma encenação. Se parece que nos estamos a divertir no palco, é porque estamos mesmo.”

A megalomania teve um custo. “Fiquei com a conta bancária a negativo. Propus a ideia ao banco e estavam todos a olhar para a minha casa a ver o que podiam vir buscar [caso não pagasse a dívida]. O gerente pediu-me para continuar a explicar a minha ideia. E ele tinha razão, porque agora estamos todos novamente ricos.”

O espetáculo único de André Rieu repete a volta ao mundo do costume e regressa a Portugal. Mas desta vez, o sucesso não depende de um par de pontapés na bola.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

Novos talentos

AGENDA NiT