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E agora, o que se segue à vitória dos Måneskin na Eurovisão?

O cronista Nuno Bento analisa o sucesso flash do grupo de rock italiano e o futuro dos outros nomes deste festival.
O futuro é incerto.

A Itália ganhou a Eurovisão com os Måneskin e a pergunta que se impõe é: e agora? O que espera a banda rock italiana? Ultrapassada que está a questão da cocaína, importa perceber qual será o impacto da banda italiana no panorama musical. Mas antes do assunto principal, algumas notas prévias sobre o concurso.

Em primeiro lugar, o festival em si foi surpreendentemente entertaining. Já não via a Eurovisão do princípio ao fim há muitos anos e dei por mim a tomar notas mentais sobre os meus favoritos e a torcer por eles durante a votação. Portugal esteve bem representado pelos Black Mamba (embora eu preferisse uma letra em português) e a votação dos membros do júri deu para sonhar. Pena que o público não tenha aderido à nossa canção e tenha votado massivamente na Itália (note-se que os italianos são doidos pela Eurovisão e estão espalhados por toda a Europa, ainda mais que os portugueses), em detrimento de melhores entradas do festival. Foi bom ver uma banda rock triunfar num festival marcadamente pop, mas os Måneskin são tão desesperadamente rock ‘n’ roll que, paradoxalmente, não são Rock ‘n’ Roll. Confusos? É uma questão de atitude. No rock ‘n’roll é suposto quebrar as regras e os Måneskin parecem seguir o livro das regras do rock ‘n’ roll à risca. Logo, não são Rock ‘n’ Roll. Eu, como fã do género, não fiquei entusiasmado com eles.

Quanto à questão da cocaína, para mim é muito simples. É absolutamente irrelevante se eles estavam sob a influência de drogas na noite do festival. Por duas razões: primeiro, isto é a Eurovisão, não é o Tour de France; segundo, se acreditam que não há consumo de drogas envolvido na história da Eurovisão, então o melhor é voltarem a pôr os vossos óculos cor de rosa e olharem para os unicórnios a voar. E se por cúmulo de alienação acreditarem que a vossa música preferida não foi feita com a ajuda de consumo de drogas, então é melhor mandarem queimar os vossos discos dos Beatles, dos Queen e dos Pink Floyd. Ou então mandem-nos aqui para Vauxhall, que eu aceito. 

Quem me entusiasmou na noite do festival foi a concorrente francesa — Barbara Pravi. Canalizando de forma bastante óbvia os maneirismos e até o penteado de uma tal de Édith Piaf, a cantora de Paris foi a performer que imprimiu maior intensidade na sua actuação, ao ponto quase do desconforto. Não ganhou o prémio da originalidade, é certo, mas se há coisa que a Eurovisão prova é que tentar forçar a originalidade nem sempre traz bons resultados — exemplo da prestação russa, que ainda teve o bónus de forçar a política num concurso pop. A minha favorita era a França e embora o público tenha revertido a decisão do júri e dado a vitória à Itália, continuo convencido que Barbara Pravi será a artista com o futuro internacional mais brilhante deste lote da Eurovisão. Atenção também à concorrente grega, que me parece uma aposta segura da pop europeia.

Quanto ao futuro dos Måneskin, tenho as minhas dúvidas. Se o target deles for o rock, temo que nunca passem das fronteiras de Itália, onde já tinham sucesso considerável. Para conquistar a Europa e o mundo, os Måneskin precisarão de se focar mais na música e menos nos clichés do rock ‘n’ roll. Se enveredarem por esse caminho, o melhor que podem aspirar será o sucesso de uma banda Rock para a televisão. Pelo exemplo de sábado passado, já percebemos que funciona. O pior que lhes pode acontecer é tornarem-se nos Greta van Fleet europeus, com a mesma dose de humor involuntário. Mas não sei se vão chegar a essa projeção.

Lembro que o registo histórico da Eurovisão não é especialmente animador. De todos os vencedores do concurso desde 1956, poucos atingiram sucesso internacional. A excepção que confirma esta regra são os ABBA, que foram catalpultados pela vitória em 1974, para uma carreira fenomenal de milhões de discos vendidos em todo o mundo. Houve também a Céline Dion em 1988, embora nesse caso seja discutível a bonomia do presente que a Eurovisão deu ao mundo. O caso dos Lordi em 2006 é o que melhor pode servir de barómetro para os Måneskin, uma vez que a banda finlandesa chegou ao festival com mais de uma década de existência e continuou com sucesso sustentado ao longo dos anos, no mercado niche do metal, nunca cruzando a fronteira do mainstream. Veremos pois se os Måneskin ultrapassam essa linha. Pun intended, como é óbvio.

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