Música

Olivia Rodrigo partilha tudo com toda a gente — até com os motoristas da Uber

Já foi vítima de misoginia e teve uma alegada discussão com Taylor Swift, o que fez com que se afastassem.
É uma das maiores estrelas da pop atual.

“Sempre partilhei tudo sobre minha vida com as pessoas.” Olivia Rodrigo, de 21 anos, não tem medo de ser vulnerável. Ao mundo contou os seus desgostos amorosos e as dores da adolescência nos seus dois álbuns: “Sour” e “Guts”. Este segundo vai ser o protagonista de dois concertos esgotados a 22 e 23 de junho na MEO Arena, integrados na Guts World Tour.

Além de revelar os seus segredos ao público, fá-lo com os motoristas da Uber. Tal como nos discos e canções, não tem problemas em falar sobre todos os seus “traumas e inseguranças”, contou em 2021 à “NME”. 

Muitas destas batalhas interiores vêm do facto de não ter tido infância e adolescência normais. Tinha apenas sete anos quando protagonizou o primeiro anúncio publicitário — para a Old Navy, em 2010.

No mesmo ano, em estreou-se num pequeno filme, “Grace Stirs Up Success”, onde interpretou a protagonista. Em 2016, mudou-se para Los Angeles quando foi selecionada para interpretar a personagem Paige Olvera, que tocava guitarra, na série da Disney “Bizaardvark” — trabalhou nesse projeto durante três anos. 

Quando saiu deste último trabalho, conseguiu um papel numa produção maior da Disney, a série de “High School Musical”, onde esteve entre 2019 e 2023. Para a banda sonora da produção, compôs o tema “All I Want”, que se tornou um hit graças ao TikTok, e coescreveu “Just for a Moment”, com o seu colega Joshua Bassett, com quem também namorou e cujo término da relação inspiraria muitos dos seus temas.

O seu talento era evidente e foi isso que levou as editoras Interscope e Geffen Records a quererem assinar um contrato com Olivia Rodrigo em 2020. Viam-na como mais uma estrela da Disney que podia dar o salto para uma enorme carreira na música — como Selena Gomez ou Miley Cyrus, além de casos mais antigos, como os de Justin Timberlake, Christina Aguilera ou Britney Spears. Mas, ao mesmo tempo, Rodrigo explicou que ficou interessada no acordo porque a viam sobretudo como uma compositora talentosa — e não apenas como uma intérprete com potencial para ser uma estrela pop.

A vida de Olivia Rodrigo mudou completamente a 8 de janeiro de 2021, quando lançou o single “Drivers Licence”. A canção bateu duas vezes o recorde do Spotify de mais streams numa única semana — a 12 do mesmo mês já tinha sido ouvida mais de 17 milhões de vezes na plataforma de streaming. No espaço de sete dias, eram mais de 80 milhões de plays, o que também foi um recorde. Conquistou sobretudo um público jovem.

“Tem sido absolutamente a semana mais louca da minha vida. A minha vida inteira mudou num instante”, disse a cantora e atriz ao “The New York Times” na altura. Apesar de haver inúmeras histórias de sucesso repentino, não é de todo habitual que algo assim aconteça com o lançamento de um primeiro single por parte de um artista.

O TikTok terá contribuído para o sucesso de “Drivers Licence” — uma vez que se tornou num dos temas mais usados para vídeos na rede social. E o programa “Saturday Night Live” fez um sketch baseado na canção. Apesar de nunca ter sido confirmado, muitos fãs acreditam que o tema aborda um desgosto amoroso que foi inspirado na relação de Olivia Rodrigo com o colega Joshua Bassett.

Em abril, lançou o segundo single, “Déjà vu”, que foi mais um enorme sucesso. No mês seguinte chegou “Good 4 You”, outro êxito, ainda que tenha tido uma vida atribulada. Olivia Rodrigo teve de creditar a banda Paramore, já que o seu tema era bastante semelhante a “Misery Business”.

“É frustrante que as pessoas descredibilizem as habilidades e o talento de jovens mulheres. Toda a música é inspirada por outra música, e acho que seria muito fixe se uma rapariga daqui a 15 anos quisesse criar uma canção inspirada em algo que criei. É esse o objetivo da criatividade”, disse numa entrevista ao “LA Times”, publicada em dezembro de 2021.

Não só criou do nada uma legião de fãs, como foi bem recebida pela crítica musical. Isso acentuou-se ainda mais com o lançamento do disco de estreia, “Sour”, editado a 21 de maio de 2021. Foi um dos álbuns do ano para várias publicações especializadas e venceu três Grammys: Melhor Álbum Pop Vocal, Melhor Nova Artista e Melhor Performance a Solo Pop (com “Driver’s License”).

Caracterizada como “a voz da sua geração”, criou um disco intenso que inclui alguma angústia típica da adolescência — com influências de pop punk — mas também baladas pop que abordam desgostos de amor de forma realista (e não melodramática). Pegou nas suas vulnerabilidades e inseguranças e construiu canções a partir delas. Taylor Swift, Lorde e até nomes como Avril Lavigne ou Fiona Apple foram algumas das influências.

O som do disco seria replicado em “Guts”, lançado a 8 de setembro do ano passado. “Para mim, este álbum é sobre as dores que senti ao amadurecer e é sobre tentar perceber quem é que sou nesta altura da minha vida”, contou à revista “Variety”. “Sinto que cresci dez anos entre os 18 e os 20 — foi um período muito constrangedor e com grandes mudanças. Mas acho que tudo isto faz parte do crescimento, e o disco reflete isso mesmo.”

Com todo o sucesso veio também o escrutínio por parte do público e de outros profissionais da sua indústria. “Seria uma enorme mentira se eu dissesse que nunca fui vítima de misoginia dentro do ramo da música, especialmente por ser jovem”, contou à “NME”.

A alegada discussão com Taylor Swift

Rodrigo nunca escondeu a inspiração pelo trabalho de Taylor Swift e chegou a dizer à “NME” que a sua mentora era “a melhor compositora do mundo”. “Estou sempre a admirá-la, constantemente. É verdade que não seria a compositora que sou hoje se não tivesse crescido a ser inspirada por tudo o que ela faz”, contava durante a campanha de lançamento de “Sour”. “Ela até me enviou uma carta que abri ontem. Era uma carta escrita à mão porque, sim, ela é mesmo incrível. Não é deste mundo.”

Foi neste clima de elogios mútuos que se encontraram nos Brit Awards de 2021. As duas posaram para as fotos que haveriam de espalhar pelas suas redes sociais. A paixão, contudo, durou muito pouco.

Pouco tempo depois do lançamento de “Sour”, começaram a surgir acusações de plágio nos bastidores. Entre outras “supostas inspirações”, dizia-se que Rodrigo copiara, aqui e ali, alguns elementos para os seus temas. De Elvis Costello a Paramore e, aparentemente de forma inevitável, Taylor Swift. Este poderia ter sido um caso resolvido em tribunal, num longo e dispendioso processo. Não foi. Rapidamente, Rodrigo acrescentou créditos de co-autoria aos temas em questão.

A semelhança do seu “Déjà Vu” a “Cruel Summer” levou a que na lista de autores passassem a figurar Taylor Swift, Jack Antonoff e St. Vincent. Os primeiros dois foram também colocados como autores de “1 Step Forward, 3 Steps Back”.

Rodrigo revelou detalhes numa entrevista com a “Rolling Stone”. “Todas as canções têm quatro acordes. Essa é a parte divertida — conseguir torná-los numa coisa tua”, explicou, enquanto falava da “inspiração de artistas” que vieram antes de si e do “bonito processo de partilha”.

Considerou, no entanto, as acusações “infelizes e descontextualizadas”. Em 2023, faz mais revelações sobre esses dias. “Fui surpreendida. Na altura, foi tudo muito confuso, eu era muito verde”, explicou. Tinha sido ela ou não a tomar a decisão de atribuir o devido crédito às “inspirações”? Ou foi forçada a isso receando ser levada a tribunal? “Foi algo no qual não estive muito envolvida”, esquivou-se a responder.

A lista de autores de “Sour” não foi a única coisa que mudou no final de 2021. Os fãs, sempre atentos, notaram que, ao contrário do que acontecera até então, Rodrigo e Swift nunca mais se mencionaram mutuamente. Nem sequer elogiaram ou aplaudiram os lançamentos de uma e outra, como já o haviam feito.

Rodrigo começou também a fazer comentários que muitos interpretam como tendo outros significados. Numa conversa com Alanis Morissette, a veterana falava sobre o início da carreira e a fama. “Havia muito bullying, muita inveja, e pessoas que adorei toda a vida adorei revelaram-se ser péssimas”, atirou Alanis. Rodrigo respondeu de imediato: “Igual”.

A ausência de Olivia nas plateias da gigantesca digressão de Swift, a “Eras Tour”, também foi notada. Sobretudo porque não há artista ou celebridade que não tenha passado pelas zonas VIP das muitas dezenas de concertos que Taylor deu pela América do Norte. Rodrigo foi franca e confirmou, ao “The New York Times” que não, não viu qualquer concerto da artista que um dia afirmou ser a sua musa.

Numa outra entrevista vulnerável com a “Rolling Stone”, foi confrontada se existia uma animosidade entre si e Swift. Rodrigo respondeu: “Não estou zangada com ninguém. Sou muito relaxada e reservada. Tenho as minhas quatro amigas e a minha mãe e é apenas com elas que falo”, afirmou. “Não há mais nada a dizer.”

A resposta algo evasiva não convenceu muitos fãs que continuam a desconfiar que algo se passa. O que é certo é que a aparente relação de admiração mudou definitivamente de 2021 em diante.

E, por fim, o toque que revelaria que a aluna aprendeu bem com a mestre a usar a sua própria arma. Para muitos, as letras de “Vampire”, o primeiro single do novo disco, são inteiramente direcionadas a Swift.

“Cometi muitos erros, mas tu fazes com o que o meu pior erro pareça bom; Devia ter percebido que o facto de apenas saíres à noite era estranho; Achava que era esperta, mas fizeste-me parecer ingénua, na forma como me vendeste aos bocados; Foste afundando os dentes em mim, sanguessuga, famefucker, e sugaste-me o sangue como um raio de um vampiro.”

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