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Opinião: Criptomoedas são para meninos. É nos discos de vinil que devem investir

O cronista da NiT, Nuno Bento, explica como podem ganhar dinheiro a ouvir boa música.
É aqui que está o dinheiro.

Já terão ouvido os vossos pais e os vossos avós dizer que comprar ouro é o melhor investimento. Não é arriscado como criptomoeda, acções em bolsa, ou fundos de investimento e dá um retorno seguro. Muito bem, mas qual é a piada? A não ser que sejam fãs de numismática, nenhuma. E mesmo se forem, o nível de divertimento é seriamente discutível. Já os discos de vinil? Horas de diversão a comprar e a ouvir e um retorno absurdamente elevado. É plástico envolto numa capa de cartão, certo, mas se souberem “investir”, isto é, se souberem o que comprar, o vinil deixa a criptomoeda de rastos. Como? Aqui o tio Nuno explica.

A lógica de mercado dos discos de vinil tem as suas nuances, mas na base, é relativamente fácil de entender — o preço é função direta da raridade do disco e da sua procura. Os discos lançados nos anos 90 e anos 00 (décadas “mortas” do vinil) tiveram prensagens limitadas, pelo que os preços destes discos é invariavelmente alto, mesmo que a procura não seja muito grande. Se a procura for grande, então o preço explode. Um exemplo simples é a discografia dos Radiohead nos 90s.

Partindo do princípio que os Radiohead são uma banda muito popular, incluindo nos dias de hoje (12.6 milhões de ouvintes mensais no Spotify), as prensagens originais dos seus álbuns serão sempre caras; tendo sido lançados nos 90s, esse preço dispara; e nos álbuns mais consagrados, o preço é ainda mais obsceno. Senão vejamos: o preço médio da primeira prensagem britânica do “Pablo Honey” — álbum raro, mas pouco popular — são na ordem dos 100€ (dados do Discogs); já as primeira prensagens do “The Bends” e “Ok Computer” (o mais popular, mas também o mais comum) andam à volta dos 200€ — o dobro do “Pablo Honey”. Qualquer um destes discos, se o encontrarem “in the wild” (que é como quem diz, perdido numa loja de discos) por um preço razoável abaixo dos 100€, é sempre de compra imediata. O investimento é de retorno garantido.

Aconteceu-me exatamente isto neste fim-de-semana, quando andava no meu record shop tour em Londres. No mesmo dia, em lojas diferentes, vi o “Smile Sessions” dos Beach Boys e o “Singles Collection” do David Bowie, ambos por 50£. Comprei os dois sem pestanejar. Quando cheguei a casa, pus o “Smile Sessions” no eBay pelo triplo do preço e dois dias depois estava vendido. O Bowie, não o pus à venda, mas se fosse para o eBay, fazia o dobro facilmente. Limpinho, limpinho.

As nuances deste mercado são a chave para saber onde investir. Qualquer edição limitada é à partida um bom investimento, uma vez que quando ficar fora de circulação, o preço automaticamente duplica. E nisto dos discos, nunca há desvalorização. Se o preço por alguma razão duplicar, é aí que fica estabelecido para sempre. A não ser que haja uma reedição e aí quebra um pouco, pelo menos até essa reedição sair de circulação. Depois volta ao mesmo preço, ou a um preço superior.

É preciso também ter em atenção os fenómenos que causam os picos de subida. Já vimos que a saída de circulação (o disco ficar out-of-print) é um deles. A morte do artista é o mais óbvio de todos, sendo o caso mais flagrante a morte de David Bowie, que fez disparar os preços de toda a sua discografia. A prensagem original (e única até hoje) do “Older” do George Michael já andava a preços proibitivos, na ordem dos 100€ a 200€ antes da sua morte. Hoje, o preço médio no Discogs é de 650€. Sim, leram bem. 650€ por um disco de vinil. Falem-me lá agora da valorização da Bitcoin.

Recentemente, temos também o caso da separação dos Daft Punk, que criou um pico de procura absurdo no Discogs, o maior da história da banda. Temos também o caso dos Queen, em que o filme “Bohemian Rhapsody” fez disparar o custo de todos os discos para o dobro. E mesmo se não considerarmos estes picos, a valorização é sempre uma constante, especialmente para os discos mais antigos, cada vez mais difíceis de encontrar em boas condições.

Sou um colecionador e não um negociante de discos, mas quando vejo uma oportunidade de negócio, não resisto a meter a mão. No ano passado vi uma caixa “The Rolling In Stones in Mono” selada por 300£; pus no eBay a 900£ e em três meses estava vendida pelo preço que estabeleci. Ouro? Não, plástico. Muito mais fixe, tem o bónus de dar música e não estão dependentes da volatilidade dos mercados, das políticas do governo, ou de declarações incendiárias do Elon Musk que vos fazem perder tudo. A vossa coleção de música, para além de cool as fuck, está sempre a valorizar. A música nunca perde valor.

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