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Opinião: os ABBA de volta como hologramas. É este o futuro que queremos?

O cronista da NiT, Nuno Bento, reflete sobre o que o novo projeto dos ABBA pode significar para o futuro da música
Regresso ao futuro: os ABBA do futuro são os ABBA dos anos 70

E eis que chegámos oficialmente ao futuro. Quarenta anos depois da mais acrimoniosa das separações, que envolveu um drama mexicano de traições, divórcios e corações partidos, os ABBA estão de volta com um novo álbum e uma nova digressão. Mas quem for ver um concerto dos ABBA em 2022, não vai ver propriamente os ABBA e muito menos ao vivo. O que a audiência vai ver é um espetáculo de realidade virtual, com hologramas do que eram os ABBA em 1974. Como devem imaginar, isto levanta um sem número de questões e ironias, por isso vamos por partes. Comecemos pela nova música.

Se há um elemento que confere validade a todo este projeto distópico de fusão do novo com o “não-tão-novo” (estou a citar a expressão espirituosa do site) é que, tal como nos bons velhos tempos, esta digressão é apoiada em música nova. Vem aí um novo álbum dos ABBA, “Voyage”, a ser lançado em Novembro, exatamente 40 anos depois de “The Visitors”, em 1981. E com este anúncio vieram dois aperitivos do novo disco: “I Still Have Faith In You” e “Don’t Shut Me Down”. Fiquei parcialmente impressionado. Já explico porquê.

A maioria dos álbuns de reunião de grupos são uma desilusão, uma vez que falham em recapturar a magia que levou ao sucesso noutros tempos. Os artistas mudam, a música muda, as técnicas de gravação mudam, o mundo muda, e invariavelmente temos álbuns que são orientados para as bases de fãs antigas, vendem tudo o que têm para vender nas primeiras semanas (muitas vezes atingindo o topo das tabelas) e depois desaparecem do mapa para nunca mais serem ouvidos. É possível que seja isso que aconteça com “Voyage”, contudo, mérito seja dado aos ABBA, os temas que ouvimos são competentes no seu propósito de somar o número máximo de elementos clássicos do quarteto sueco. Os compositores, Bjorn e Benny, provam que sabem e ainda dominam a fórmula dos ABBA. Com exceção das vozes das meninas que, naturalmente, envelheceram, a música consegue capturar o âmago dos anos 70. É esse o maior feito dos novos temas dos ABBA. 

“I Still Have Faith In You” foi escolhido como o tema de avanço devido ao conteúdo lírico, obviamente autorreferencial, mas é o elo mais fraco deste lote. Admito que nunca tive paciência para as baladas dos ABBA e talvez por isso não consiga tirar nada deste tema, mas o facto é que, 5 dias depois de desvendado, está no primeiro lugar das músicas em alta no YouTube com 14 milhões de visualizações. O cínico em mim diz que é um sucesso fundado em nostalgia, mas é mais que isso. É a fórmula resolvente dos ABBA em ação.
 
 “Don’t Shut Me Down” é o tema mais upbeat deste par e francamente superior. Os elementos reconhecíveis dos ABBA também estão aqui, mas resultam melhor num contexto dançável. Especialmente quando a melodia despoleta uma reacção familiar no cérebro, programado para sentir conforto quando reconhece padrões antigos. “Somos suecos e fazemos música que não vos sai da cabeça”, deveria ler-se no cartão de visita do grupo.
 
Como a última frase deve ter deixado escapar,  quem vos escreve não é propriamente um fã dos ABBA. Mas nem eu consigo escapar ao charme dos “a-has” de “Voulez-Vous”, das notas impossíveis de “Dancing Queen”, ou da deliciosa linha de sintetizador de “Gimme! Gimme! Gimme!”. Estas canções estão cravadas na cultura popular e no imaginário de quem quer que se cruzou com elas. É impossível escapar aos ABBA, porque eles são assim tão bons. Goste-se ou não. Além do seu espólio, deixaram o dedo firme em todo o género que conhecemos como música Pop, desde Madonna, a Max Martin, ou Lady Gaga. Se andarmos as referências para trás, vamos invariavelmente dar aos ABBA.
 
Por outro lado, esta bitola de excelência Pop torna a vida das novas canções inevitavelmente mais difícil. E se eu não posso rebater um “Thank You For The Music” (adaptado para português pelo “Chuva de Estrelas” e readaptado brilhantemente por estudantes universitários), não consigo ouvir os hooks inatacáveis nas novas canções. São competentes, sim, mas carecem aquele magnetismo característico dos ABBA. Esperemos pelo resto do disco para um juízo final deste regresso. Para já, levam um nada desprestigiante B-. 
 
A outra parte do anúncio deste comeback refere-se à já referida digressão holográfica da banda sueca. Ora, isto não é de somenos. Já se fala nos hologramas há muitos anos, normalmente com o propósito mórbido de levar ao palco artistas defuntos (Amy Winehouse, Whitney Houston, Tupac, etc.), mas penso que será a primeira vez que músicos vivos preferem enviar em digressão hologramas, em vez de levarem a sua música ao seu próprio público. O grupo nem sequer gravou faixas vocais novas para a digressão — o que vamos ouvir são gravações dos anos 70, cantadas por hologramas dos ABBA dos anos 70. É um episódio digno de um livro de Philip K. Dick. E isto levanta, obviamente, uma série de questões. É isto que nós queremos para o futuro da música? Será que a oferta da música dos nossos dias é tão calamitosa que nos obriga a ir buscar jovens a 1974? Será o próximo passo a criação de andróides, réplicas dos ABBA, que vão andar em digressão? Não nos estamos a aproximar demasiado do Blade Runner e de outras distopias da ficção científica? São questões pertinentes e sem resposta imediata. A substituição de humanos por tecnologia é uma temática complexa, que merece a nossa reflexão. Temos que falar também dos deep fakes musicais, como o bot que “escreveu” uma música de Nirvana, mas isso fica para outra crónica.
 
Se estivéssemos a falar de outro tipo de banda, digamos, por exemplo, os Arcade Fire, poderíamos alegar que este projeto estaria mergulhado em ironia pós-moderna — em como a nossa sociedade está obcecada com a juventude —, e que este seria um “statement” para ridicularizar isto mesmo. Mas são os ABBA, historicamente kitschy e grau zero de ironia. São a maior instituição pop global e what you see is what you get. E o que temos é um passo firme em direção ao futuro que quisemos ter, ancorado na nostalgia dos ases do passado e higienizado com a certeza de uma banda que cumpre todas regras do bom comportamento e do distanciamento social, uma vez que nem sequer está lá. Cabe-nos a nós decidir se este é mesmo o futuro que queremos.

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