Música

Opinião: A pandemia do Spotify e o formato físico como salvação da indústria musical

O cronista musical da NiT, Nuno Bento, fala do problema fatal do Spotify e diz como ajudar os artistas em tempos de pandemia
Nada vai substituir isto.

Adoro o streaming. Adoro saber que posso, em qualquer altura e em qualquer lado, apenas com uma ligação à Internet, pôr a tocar “aquela” música que eu preciso de ouvir naquele exato momento. Adoro ter os novos lançamentos no Spotify à mão e ouvir tudo no commute para o trabalho (quando havia commute) às sextas-feiras de manhã. Ou se estiver tão ansioso que mal posso esperar, ouvir tudo logo à meia-noite, qual Pai Natal a chegar em noite de consoada.

Adoro chegar ao fim do mês e ver as estatísticas do que ouvi nas últimas semanas e depois passar tudo para um Excel onde tenho todos os registos musicais da minha vida. Adoro tanto esta funcionalidade, que chego ao ponto de pôr a tocar durante a noite as músicas que ouvi em vinil no dia anterior (em casa só ouço discos de vinil), de modo a contabilizar os formatos físicos para as estatísticas. Adoro tudo isto. Mas o Spotify tem um grande problema — está a matar a indústria musical.

Atentem nos números: o CEO e co-fundador do Spotify, o sueco Daniel Ek, tem uma fortuna avaliada em 2.8 mil milhões de dólares; o co-fundador dos Beatles, o britânico Paul McCartney, tem uma fortuna avaliada em 1.2 mil milhões de dólares. Sim, leram bem. O CEO do Spotify tem mais do dobro do dinheiro que o Paul, sem nunca ter escrito uma canção. E ambos fizeram fortuna à custa de música. Alguma coisa não está bem aqui.

Não se trata de uma apologia ao comunismo, mas se o dono de uma plataforma de música se serve do produto dos artistas para fazer fortuna e esses artistas não veem nada do bolo, este torna-se um modelo de negócio insustentável. Quase todos os gigantes já se pronunciaram contra a ganância do Spotify, desde os Radiohead aos Tool, passando pela Taylor Swift, Neil Young e Beck, todos já tentaram agir contra a plataforma de streaming. Todos caíram.

Veja-se a Taylor Swift, tão somente uma das maiores trendsetters e influencers do mundo, que andou em guerra com o Spotify durante vários anos e planeou em 2017 uma plataforma com conteúdos próprios para fazer face à sua ausência no mundo do streaming. Acabou por vacilar e disponibilizar toda a sua discografia no Spotify.

Também Neil Young perdeu a guerra contra os suecos. Durante anos, impediu a partilha da sua música no Spotify e chegou a criar o seu próprio leitor de media (o Pono), o qual oferecia música com resolução muito mais elevada. Acabou por ceder no final de 2016. Mas a sua investida contra o Spotify vai mais além. Neil acredita que o Spotify nos está a matar o cérebro, com música de má qualidade e fraca resolução. E acrescenta: “quando ouvimos música verdadeira, perdemo-nos nela porque tem o som de Deus. O Spotify não soa a Deus, ninguém pensa isso. Soa a uma ventoinha elétrica, comprada uma loja de eletrodomésticos”. Claro que Neil é o purista dos puristas, mas ele tem a sua quota de razão. Ninguém discute que o vinil soa melhor que o Spotify, mas a verdade é que eu não posso ouvir os meus discos a caminho do trabalho. O streaming veio para ficar e não há mal nenhum nisso.

Independentemente da bonomia do vinil, a transição para o streaming é evidente, pelo que terão que ser essas plataformas — que vieram, em parte, substituir o papel das editoras — a compensar devidamente os artistas pela sua música e a investir neles, tal como as editoras faziam. Isto implica uma negociação complexa, da qual estamos ainda muito longe. A não ser, claro, que estejamos a falar de “marcas” já estabelecidas, com poder de alavancagem suficiente para negociar. Foi o caso dos Beatles, que por causa disto mesmo, entraram no Spotify muito tarde, só no final de 2015. Já os artistas em ascensão são obrigados a aceitar as migalhas que lhes atiram para os pés, tendo como única vantagem no Spotify a disponibilização (livre) do seu trabalho, como forma de promoção. Se esta promoção é mais ou menos efetiva é outra discussão — pertinente — que tem a ver com algoritmos e que deixarei para outro texto. 

Esta dependência do streaming foi agudizada pela crise da pandemia do último ano. Até 2020, as bandas compensavam a queda das vendas físicas com a faturação da bilhética e a venda de merchandising. Sem a possibilidade de ir para estrada e levar a sua música ao público, esta alternativa esfumou-se e deixou em crise profunda uma indústria que já estava em agonia. O que resta às bandas neste momento são as vendas físicas pelos seus websites, tanto de discos, como de merchandising. Porque lá está, com o streaming, não podem contar. Pensem que comprar uma t-shirt equivale a aproximadamente 5 mil streams. Eu, que ouço música compulsivamente e faço em média 2 mil streams por mês, precisava de quase 3 meses a ouvir a mesma banda para pagar uma T-shirt.

Adoro o Spotify, mas a plataforma tem um problema fatal, de não pagar o que é justo aos artistas. Sendo hoje uma ferramenta tão poderosa, tem que rever a forma como valoriza o seu produto — adicionando a opção para áudio de alta resolução (prevista para o fim do ano) e, acima de tudo,  recompensando os artistas que lhes disponibilizam o seu trabalho de mão beijada.

Até que esse acordo seja alcançado, resta-nos a nós, fãs, pugnar pela sobrevivência da “nossa” música e, dentro das nossas possibilidades, ajudar os artistas que estiveram lá para nós, com a sua música, quando nós precisámos. E isso neste momento só é possível com o regresso aos formatos físicos, os únicos capazes de fechar o elo de ligação entre o artista e o ouvinte, agora mais do que nunca. Mas isso digo eu, que adoro o streaming, adoro os formatos físicos, e não vivo sem um nem o outro. Sei que estou precavido para o apocalipse nuclear que se avizinha. O apocalipse vai apagar todos os dados de todas as clouds e discos externos no planeta, eliminando toda a música das plataformas de streaming. Restarão os discos de vinil, os CD e as cassetes. Como podem ver pela foto em cima, estou descansado.

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