Habituado a dar música a milhões, poder-se-ia dizer que o mais recente espectáculo do Padre Guilherme foi intimista. No sábado passado, 10 de janeiro, atuou numa das discotecas mais concorridas de Beirute, com lotação esgotada. E foi este espectáculo para (apenas) duas mil pessoas que foi alvo de uma tentativa de cancelamento. A atuação motivou a apresentação de uma queixa formal, que acabou por ser rejeitada por um juiz.
Guilherme Peixoto, de 52 anos, foi acusado de uso indevido de imagens e símbolos do cristianismo, como a projeção de imagens do Papa durante o espectáculo, que, segundo os queixosos, representa uma violação dos limites e da moral cristã.
Horas antes de apresentar o set, celebrou uma missa na Universidade Pontifícia do Líbano, onde “tudo decorreu com normalidade”, assegura à NiT.
Questionado sobre a tentativa de cancelamento que mereceu atenção mediática em todo o mundo, o sacerdote respondeu com neutralidade. “Não tenho nada a dizer, pelo contrário, só tenho a agradecer ao Líbano”, sublinhou.
“Quando há barulho, geralmente, vem apenas de alguns, poucos. E foi o que aconteceu”, reforçou. A viagem de quatro dias a Beirute, na sua avaliação, não podia ter corrido melhor. Afinal, foi recebido como uma estrela pop.
“Havia sempre muitas pessoas a querer tirar fotografias comigo, a dar os parabéns, a cumprimentar”, recorda. “A única coisa que senti foi carinho das pessoas.”
Leia agora a entrevista completa do Padre Guilherme à NiT.
A sua ida ao Líbano parece ter estado envolta em alguma controvérsia e gerou muito burburinho mediático. O que aconteceu realmente?
Soube pela comunicação social que existiam umas pessoas, de várias religiões ou sem religião, não sei ao certo, que achavam que o meu espetáculo era contra os valores deles, e tentaram impedir que se realizasse. Acontece que desde as atividades religiosas às públicas onde participei, nunca houve nada relacionado com isso, pelo contrário. Estive na Universidade Pontifícia do Líbano [The Holy Spirit University of Kaslik], a única do género no Médio Oriente, encontrei-me com os responsáveis pela faculdade e pela pastoral, com os sacerdotes, e não aconteceu nada de anormal. A universidade até partilhou fotografias na sua conta Instagram.
Sabe quem esteve por detrás das críticas?
Quando há barulho, geralmente, vem apenas de alguns, poucos. E foi o que aconteceu. Não tenho nada a dizer, pelo contrário, só tenho a agradecer ao Líbano. O ambiente foi fantástico, tanto antes do espetáculo, como durante e depois. Fui muito bem recebido pelos responsáveis da igreja local. Penso que o que aconteceu terá sido feito por alguém à margem da igreja. A realização do espetáculo não lhes agradou, mas não foi preciso ir ao Líbano para encontrar quem não gosta do meu trabalho. Em Portugal também há quem goste e quem não goste.
Como surgiu a oportunidade de ir ao Líbano?
Fui convidado pela organização do festival que aconteceu no clube, através da agência, que falou comigo, — como são feitos todos os convites, no fundo.
O que o levou a aceitar?
Analisámos o histórico do festival e achámos um projeto interessante, até porque a comunidade cristã do Líbano não é muito grande.
Foi a primeira vez que esteve no Líbano?
Sim, e não tive nenhum problema, nem à entrada, nem durante a estadia. Nem eu, nem ninguém da minha equipa, que trata do som, da luz, dos efeitos visuais, do vídeo, fomos todos juntos.
Foram bem-recebidos.
Muito bem, até. Nos restaurantes a que fomos, havia sempre muitas pessoas a querer tirar fotografias, a dar os parabéns, a cumprimentar. E noutros sítios, como no santuário de Nossa Senhora, a Virgem de Harissa, um dos marcos de Beirute, — que é um local de peregrinação, como Fátima é para nós, — veio muita gente ter comigo, muitos a dar os parabéns, a querer tirar fotografias.
Isso quer dizer que é uma estrela em Beirute, no Líbano.
[Risos] Durante a estadia, a única coisa que senti foi carinho das pessoas, em todo o lado. Estive lá quatro dias, por causa de voos adiados devido a uma tempestade, senão seriam dois, e não tive qualquer tipo de problema. A única coisa que senti no Líbano foi carinho, todos conheciam o Padre Guilherme, muitos quiseram tirar selfies comigo [risos].
Então, tal animosidade que parece ter existido contra si, não a sentiu.
Pelo contrário, só recebi coisas boas. Agora, o desafio é voltar lá, talvez ainda este ano.
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Isso significa que já foi convidado a regressar? Quando?
Ainda não sei, mas quem me convidou quer que regresse antes do final do ano. E também recebi muitas mensagens onde me pediam para voltar. Portanto, há quem goste do que faço, e quem não goste, é normal, — e não preciso ir ao Líbano para os encontrar.
A ação para impedir o espetáculo foi diretamente contra si, ou já é um processo habitual sempre que acontecem eventos semelhantes?
Segundo aquilo que me foram dizendo, há muito extremismo religioso no Líbano. E, provavelmente, foi um desses grupos mais extremistas que não gostaria de ter um padre num clube. Basicamente, penso que foi isso. O que percebi do que me disseram é que ter um padre num clube ia contra os princípios deles.
Mesmo assim, o clube estava cheio.
Sim, estava esgotado.
Em termos percentuais, tem ideia de quantos cristãos que existem no Líbano?
Não faço ideia, e é difícil dar um número concreto, porque existem vários tipos. Há os católicos, como a maioria de nós, em Portugal; mas depois existem também os maronitas, a igreja ortodoxa… Curiosamente, no voo de regresso a Portugal, uma jovem pediu-me para tirar uma fotografia comigo, e o pai dela é padre ortodoxo — eles podem casar. Ela também estava a fazer a viagem de regresso porque o marido dela é português, da Figueira da Foz. O curioso é que o pai é padre ortodoxo e, ao que parece, gosta do que faço. E ela estava toda contente, porque podia tirar uma fotografia comigo para lhe mostrar. Isto para dizer que no Líbano há muitas religiões: cristãos e também muitos muçulmanos, claro. Aliás, no clube havia muitos muçulmanos a dançar, portanto, não houve qualquer problema.
Teve um público muito diverso, então.
Sim. E no meio desta diversidade religiosa no Líbano, sempre senti respeito. A pista de dança, na música eletrónica, é um espaço de grande liberdade e convivência.
Liberdade em que sentido?
Cada um vai como quer, veste-se como quer, não há dress code nem coreografias impostas. Cada um faz a sua própria viagem ao som da música é livre de dançar à sua maneira. Aliás, este respeito mútuo na pista de dança deveria ser levado para as ruas, para o seio das famílias. Se as pessoas conseguem estar em paz a dançar num clube, também o devem fazer no dia a dia.
A pista de dança é um terreno neutro?
Sim. Há tolerância entre religiões e para com quem não tem religião, ali vê-se que só temos esta casa [a Terra] e que é preciso viver como irmãos.
E quando não está a pôr música, o Guilherme também dança?
Quando estou a atuar, estou a trabalhar. Claro que me mexo, sinto a música, mas de forma controlada, porque estou concentrado em misturar e pensar na próxima faixa. Quando assisto às atuações de outros DJ, acabo por estar mais ‘em modo trabalho’, observo a reação das pessoas à minha volta, as escolhas musicais e a forma como cada DJ constrói a tal viagem de que falava.
Há quem insinue que parte do seu sucesso se deve ao facto de ser padre e DJ. O que pensa disto?
Quem diz isso não faz a mínima ideia do trabalho que é ser produtor de música. Porque, se imaginassem o que significa produzir música, percebia, que os, os alicerces do que acontece na pista estão na produção musical, que é a base de tudo.
Base, em que sentido?
Quando alguém vai ouvir o meu set, vai ouvir 80 por cento de temas inéditos. Isto quer dizer que o trabalho de casa faz a diferença. Se o meu sucesso se devesse apenas ao facto de ser padre, podia ser interessante duas ou três vezes. Seria um fenómeno momentâneo, tão depressa chegava como passava.
Como um fenómeno de moda.
Isso. Quem não sabe o que é música eletrónica, quem não sabe realmente o que é o trabalho de um DJ, pode falar, não é? Naturalmente, toda a gente é livre de dizer o que entender, mas há um trabalho que ninguém vê. Um trabalho que é feito durante a semana, com uma equipa grande, uma parte anda comigo na estrada e outra pelo mundo. A trabalhar em músicas diferentes, em ritmos diferentes, em estilos diferentes, em línguas diferentes.
Quantas pessoas fazem parte da sua equipa?
Cerca de 40 pessoas, da produção ao audiovisual, à comunicação, a quem anda comigo na estrada. Aquilo que faço não é uma moda, ponho música eletrónica há 20 anos, e produzo desde 2022. Se não gostassem do meu trabalho, não teria tantos convites.
Falando de convites, pode revelar onde serão os próximos espetáculos?
Vou estar em vários festivais pela Europa, na Polónia, República Checa, Sérvia e Portugal, claro. No RFM Somnii.
E tem novidades para partilhar, como, por exemplo, outros festivais em Portugal onde irá participar?
Neste momento, ainda não posso adiantar. O que posso dizer é que tenho um álbum em preparação há dois anos, e, se tudo correr como previsto, será lançado em março.

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