Música

Paulo de Carvalho: “Sou sempre o fulano do ‘E Depois do Adeus’, mas não vivo só disso”

O emblemático músico português está a celebrar os 60 anos de carreira com uma série de concertos. Os bilhetes estão à venda.
Paulo de Carvalho tem 75 anos.

Paulo de Carvalho, nome histórico da música portuguesa, prepara-se para celebrar 60 anos de carreira com uma pequena tour. Arranca na próxima sexta-feira, 2 de setembro, com um espetáculo no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. Para essa atuação, vai contar com os convidados Selma Uamusse e FF.

Depois, Paulo de Carvalho sobe ao palco do Coliseu do Porto, a 9 de setembro. Segue-se o Convento São Francisco, em Coimbra, no dia 10. A digressão culmina a 17 de setembro com um concerto no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria. Os bilhetes encontram-se à venda online e os preços variam consoante as salas.

Para antecipar estes espetáculos e assinalar os 60 anos de carreira deste nome incontornável da música nacional, a NiT falou com Paulo de Carvalho. Leia a entrevista.

Está a celebrar 60 anos de carreira com uma série de concertos em várias cidades. Quando começou a tocar com os Sheiks, no início dos anos 60, alguma vez imaginou que continuaria a tocar em 2022?
Não [risos]. Francamente que não. Aliás, nunca pensei em nada de especial. É evidente que programei a minha vida para uns tempos depois, mas sempre ao nível da semana ou do mês, quanto muito. Nunca foi “daqui a não sei quantos anos vou estar ou a tentar fazer”… Zero, nunca foi nada disso. 

Começou sem objetivos concretos, mas alguma vez imaginou que faria música durante tantos anos?
Não, não fazia a mais pequena ideia, palavrinha de honra que nunca pensei nisso. Sobretudo nessa altura do princípio. O entusiasmo era tocar com amigos e depois as coisas foram acontecendo. E através desses acontecimentos… Uns deram mais nas vistas, foram mais mediáticos, outros não tanto. Mas agora olho para o lado — não é bem para trás, é para o lado — e penso: já passaram 60 anos disto?! Pois, já passaram. 

Recorda-se do momento específico em que percebeu que era mesmo isto que ia fazer da vida?
Se há que falar de um tempo em que tudo isso começou, foi para aí em 1968. Foi um ano no mínimo engraçado, não me ocorre outro termo. Foi o ano em que entrei para o serviço militar, o que a mim não me deu nenhum prazer especial. Foi o ano em que estive a tocar com músicos com o dobro da minha idade e com quem aprendi bastante — neste caso, o grupo do Thilo Krasmann, os Thilo’s Combo. E foi o ano em que, tocando bateria ainda, decidi que queria ser músico. Lógico que não pensei sequer que iria ser músico cantor, ou que ia “tocar voz”, como eu costumo dizer. Mas depois as coisas foram-se desenvolvendo. Dois ou três anos depois, o Pedro Osório convida-me para o meu primeiro Festival da Canção. E a partir daí… Se enquanto músico de bandas pop rock na altura era um produto da rádio, porque era o que ouvia e desenvolvia muito o meu ouvido a ouvir aquelas músicas, a partir daí tornei-me muito num produto dos Festivais da Canção. Foram sete ou oito mais ou menos seguidos, com duas vitórias.

Esta pequena digressão celebra seis décadas, um aniversário redondo. Sempre teve essa perspetiva de olhar para o lado e não para trás, como diz?
Como se diz que diz o poeta, eu tenho saudades é do futuro. Não é do que já fiz.

Vai ter convidados especiais nalguns concertos.

Sempre fez o seu caminho a olhar para a frente?
É natural, não fiz de propósito: sou assim. Porque a gente vai fazer outras coisas, não vai fazer as mesmas coisas. Quem anda a fazer as mesmas coisas… Penso que anda a perder algum tempo. O que não quer dizer que, nesta profissão, isso também não sirva para respeitar a vontade do público que gosta de nós. De um modo geral, o público é um bocado conservador e espera aquilo que conhece de nós. É isso que quer ver e ouvir. Tenho confundido um bocado o público nesse sentido. Porque tanto vou ao fado como vou à canção ligeira, como vou a coisas perto do jazz, se quiserem, não tenho essa pretensão… E não é só o público. Muita gente do meio, que toma até decisões em relação ao nosso trabalho, acha que estamos numa prateleira de determinado tipo de música e quando querem vão-nos lá buscar para se servirem de nós. E eu tenho confundido um bocado toda essa gente, porque tanto faço uma coisa como faço outra como me apetece fazer outra. Não faço de propósito, é porque me apetece.

Não está em nenhuma prateleira.
Tento não estar, não quer dizer que não me queiram por.

Tendo em conta as expectativas do público que refere, como foi preparar estes concertos?
Não é muito difícil, porque, de um modo geral, as únicas dificuldades que tenho são as três ou quatro músicas novas que tenho de pôr nos concertos porque não tenho forma de as divulgar… Não pertenço ao grupo de malta que toca na rádio. Coisas novas, atenção. Não quer dizer que a rádio não toque coisas minhas. Mas é sempre “E Depois do Adeus”, “Os Meninos do Huambo”, “Nini dos Meus Quinze Anos”… eh pá, isso tem tantos anos, já. Por isso, a dificuldade de preparação destes espetáculos é “em que lugar é que se metem cantigas novas que possam acertar no público que nos vai ver”. E como eu ainda não disponho de Spotify meu… Das editoras onde gravei, sim, vão divulgando o material que lá têm. Agora eu… É uma das coisas em que estou a pensar: como é que utilizo o Spotify para dar a conhecer cantigas novas. Quer dizer, ainda não morri. Ainda ando cá. Infelizmente, para algumas pessoas [risos].

Considera a dificuldade em divulgar música nova nos dias de hoje algo ingrata, depois de tudo o que já fez e da carreira que construiu?
Não é ingrata nem deixa de ser. É a sociedade que construímos. Isto não é uma queixa, é uma constatação. Não sou só eu que sofro com isto: muitos mais companheiros de profissão têm os mesmos problemas que eu. Uns mais novos, outros provavelmente da minha idade. Só lamento que continuemos a fazer coisas novas e elas não cheguem às pessoas. Mas também, se eu quisesse ser um bocado pretensioso, dir-te-ia: quantos séculos levou o Camões para ver reconhecida a sua obra? E o Pessoa? É uma meia brincadeira, não levem a mal [risos].

Obviamente, tem acompanhado de muito perto a transformação e evolução da música em Portugal. Da indústria e da música em si. Como a vê em 2022?
Sinto que se está a fazer, de maneiras diferentes, muito boa música em Portugal. Há uma coisa de que tenho a certeza: está a aparecer gente com belíssimas vozes. O que não quer dizer cantar bem. Cantar bem é uma coisa, ter boa voz é outra — no meu entender. Mas penso que se está a fazer muito boa música em Portugal. A dificuldade dos mais novos é a dos mais velhos. E repito: são os meios de divulgação da música que se vai fazendo. Tem que se entrar, não direi em esquemas, mas nalguns entendimentos com os divulgadores — e não é mau nem é bom, é assim. É a sociedade que construímos. Mas se não passares por ali, provavelmente ninguém conhece o teu trabalho. E não adianta estares a pensar que o teu trabalho é melhor do que o do parceiro que está ao lado. Não é isso que está em causa hoje em dia. Estamos a viver uma época de muitos likes e dos milhões de discos vendidos, das milhares de pessoas à frente de um concerto, e nada disto quer dizer boa música. Agora, quem é que decide o que é boa música? Pois, não sei. Eu não sou crítico. Aliás, acho que já nem há críticos de música [risos].

Nasceu em Lisboa em 1947.

Olhando para o lado, para usar a sua expressão, de todos os momentos que marcaram a sua carreira, de quais mais se orgulha?
Há um rapaz por quem tenho uma certa apreciação, gosto dele e do que tem feito, já devem ter ouvido falar, chama-se Paul McCartney. E ele diz que os melhores momentos dos Beatles nunca foram filmados nem gravados sequer. É quando estamos a tocar com os amigos, num sítio mais sossegado… Não temos ninguém em cima de nós, salvo seja. Estamos a fazer a música de que gostamos. E tudo isso tem a ver com o facto de estarmos mais à vontade. E estando mais à vontade, oh pá, esses são os momentos que nós — e atrevo-me a dizer nós porque há muita gente como eu, que gosta de música de determinada maneira… Agora, se vamos falar do público, é evidente que em 1974 o “E Depois do Adeus”… Blá, blá, por aí fora. Eu também gosto, atenção, mas não vivo só disso. Que curiosamente é uma cantiga que fica na nossa história porque ficou… Foi a escolhida por um homem da rádio, o João Paulo Diniz, para substituir aquilo que o Movimento dos Capitães gostava que acontecesse. Que seria uma música do Zeca Afonso e essa, sim, faria todo o sentido. O Zeca, pela vida dele, o músico e o compositor que foi, e pela importância que teve até nas movimentações na nossa sociedade, fazia todo o sentido que fosse, por exemplo, o “Venham Mais Cinco”, que era aquela que queriam que fosse. Foi o “Grândola Vila Morena”, que também é muito bonita. Agora, só teve a ver com isso. Se tivesse sido no ano anterior, a música escolhida também faria algum sentido, que era a “Tourada” do Fernando Tordo. Também era giro.

Sente-se demasiado colado a isso?
Colam-me. Não me sinto colado, até gosto da cantiga. Agora, colam-me bastante a isso, sou sempre o fulano do “E Depois do Adeus”. Então e depois? Já passaram mais de 40 anos e o gajo parece que está sempre no mesmo sítio, mas pronto [risos]. Mas digo isto a rir. Mais uma vez, é uma constatação, não uma queixa. 

Os melhores momentos que guarda são os tais que viveu entre amigos?
Sim, em lugares mais pequenos, com músicos até de outras áreas que não a minha.

Quer contar algum episódio específico?
Há um lugar em Lisboa que frequentava muito há uns tempos, antes da pandemia, onde cantava com gente amiga, sobretudo com um músico com quem continuo a trabalhar, que é um enorme pianista cubano que vive cá há muitos anos, o Victor Zamora. E parava lá muito e quem aparecesse tocava — ou cantava. Isso era muito bom para mim e trazia-me outro tipo de experiências porque me punha a tocar com outro tipo de músicos. Sobretudo mais novos… Já começa a ser difícil serem mais velhos [risos]. As áreas musicais eram várias e eu era obrigado a ir para outras músicas de que também gosto. Era uma coisa pela música em si, até porque aquilo não era pago nem nada… Era pelo gozo que nos dava.

Vai atuar a 2 de setembro em Lisboa.

Sente-se reconhecido?
Quer dizer, tenho um público. Voltando atrás, aos likes e não sei quantos, noutro dia estive a ver com o meu filho Bernardo, que vocês conhecem como Agir, e ficou muito admirado porque eu estava a ser seguido por, para aí, 125 mil pessoas. Se é bom, a mim dá-me algum gozo. Há imensa gente que gosta. Acho que é um número considerável, para o que se usa. Agora, não me traz mais nada se não isso: o reconhecimento de uma série de gente. Na rua, faço a minha vida normal, vou ao supermercado, agora já não levo tanto as minhas filhas mais novas à escola porque estão a crescer… Mas as pessoas param para falar comigo, lógico que não é malta mais nova, e querem saber de coisas e eu falo também, porque gosto. Vejo algum reconhecimento do meu trabalho através dessas pessoas. Por outro lado, também devo dizer uma coisa em que já pensei e estou satisfeito com o que descobri: a unanimidade é uma chatice. Se fosse toda a gente, era capaz de ser chato. Convém ter assim uns inimigozinhos. De vez em quando é giro.

Ser consensual nem sempre é bom?
Não, não. A unanimidade é uma chatice.

Há alguma coisa que ainda não tenha feito na sua carreira mas que sente que ainda tem por concretizar?
Como deves calcular, é uma pergunta que já me fizeram diversas vezes. E costumo responder assim: Tudo. Mas não é verdade. 

Há coisas que, de facto, já fez.
Há muita coisa que já fiz. Em 60 anos… É uma resposta de querer dizer “estou aqui e ainda vou fazer coisas”. Mas sei lá se estou. A gente em qualquer altura pode cair para o lado. Não estou à espera que isso aconteça, mas pode acontecer. Portanto, sei lá. Mas estes concertos que estamos a fazer foram programados. Um dos próximos, que será numa cidade que me é muito querida, o Porto… Vamos atuar no Coliseu do Porto. E tocar com os músicos que costumo tocar mas reforçados, com quatro sopros e um quarteto normal… E tenho um grande carinho por aquela terra porque é uma terra onde nasceu o meu avô e o meu pai. Eu sou lisboeta, enfim, ninguém é perfeito. Mas eles são dali do centro do Porto, da freguesia de Santo Ildefonso. E tenho lá imensos amigos. Portanto: é em frente. Enquanto cá andarmos, todos juntos, uns com os outros, e a dar gozo e a fazer música, a malta é para a frente. É para fazer.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT