Durante dez minutos, o palco Vodafone foi apenas um ecrã iluminado por imagens a preto e branco da multidão. O relógio já tinha ultrapassado a hora marcada, mas ninguém arredava pé. Pelo contrário. Quanto mais a espera se prolongava, mais pessoas chegavam. Os gritos de “IDLES, IDLES, IDLES” ecoavam pelo Parque da Cidade como uma convocatória coletiva para o último grande momento de rock do Primavera Sound Porto.
Às 00h50, as luzes apagaram-se por completo. Por breves segundos, o recinto mergulhou na escuridão. Depois ouviu-se a bateria. A seguir a guitarra. E, de repente, a energia frenética dos IDLES tomou conta do festival.
“Levitator” abriu o concerto e bastaram poucos segundos para perceber que ninguém estava ali para assistir de forma passiva. Braços no ar, aplausos sincronizados, cabeças a abanar ao ritmo das guitarras e uma maré humana que continuava a avançar em direção ao palco. Nos ecrãs laterais surgiam imagens granuladas da atuação e do público, enquanto as luzes intermitentes acompanhavam cada explosão sonora.
Formados em Bristol em 2009, os IDLES passaram mais de uma década a construir uma das carreiras mais sólidas do rock britânico contemporâneo. Liderados pelo vocalista Joe Talbot, a banda — que inclui os guitarristas Mark Bowen e Lee Kiernan, o baixista Adam Devonshire e o baterista Jon Beavis — encontrou o reconhecimento internacional com “Joy as an Act of Resistance”, de 2018, um álbum que transformou o grupo numa voz incontornável da cena pós-punk moderna. No Porto, essa identidade ficou evidente. Seguiu-se “Never Fight a Man With a Perm”, com a explosão previsível numa plateia que acolheu todos os que foram acumulando energia no morno espetáculo dos Massive Attack.
Entre saltos, danças e empurrões e mosh pits, milhares de pessoas aglomeraram-se para assistir a um dos concertos mais intensos da edição. No final da canção, durante um momento instrumental, Talbot lançou a primeira de muitas mensagens: “Free, free Palestine”. O público anuiu. Ao longo da carreira, os IDLES transformaram os concertos em espaços de discussão sobre saúde mental, desigualdade, inclusão e direitos humanos. No Primavera, essas mensagens voltaram a fazer parte do espetáculo.
Depois chegaram “Mother” e “Gift Horse”. A essa altura, já não havia praticamente ninguém parado. O público cantava cada palavra, acompanhava cada refrão e respondia a cada gesto vindo do palco. As letras dos IDLES, muitas vezes construídas entre a crítica social, a vulnerabilidade emocional e a confrontação política, encontravam eco numa audiência que parecia conhecer cada verso de cor. No final de “Gift Horse”, Joe Talbot voltou a dirigir-se ao público em português. “Obrigado.” A palavra simples foi recebida com nova explosão de aplausos.
“Um momento, por favor”, pediu pouco depois. O vocalista aproveitou para elogiar a cidade, agradecer a presença dos fãs e sublinhar que era uma honra tocar no Porto. Instantes depois, voltou a repetir o apelo pela Palestina, novamente acompanhado pela multidão.
Seguiram-se “Mr. Motivator” e “Divide and Conquer”, duas das músicas que melhor representam a intensidade física dos concertos dos IDLES. As luzes piscavam ao ritmo frenético das guitarras, enquanto a energia do palco parecia refletir-se diretamente no público. Mas o momento mais íntimo da noite surgiu pouco depois.
“A próxima canção é sobre a minha mãe e o seu vício [do álcool]. Só quero dizer que, se alguma vez se sentirem sozinhos, partilhem os vossos sentimentos com alguém. Pode salvar a vossa vida ou a vida de outra pessoa. Muito obrigado.” Foi assim que Talbot apresentou “The Wheel”.
Num concerto dominado pela força e pelo ruído, a mensagem trouxe alguns segundos de reflexão. Também ela faz parte do ADN da banda. Desde a morte da mãe e da filha ainda bebé, Joe Talbot transformou experiências profundamente pessoais em canções sobre luto, recuperação e sobrevivência, temas que atravessam grande parte da discografia do grupo.
A intensidade regressou logo a seguir com “I’m Scum”, recebida como um hino por uma plateia que parecia recusar-se a aceitar que a noite caminhava para o fim. Seguiram-se outros êxitos da banda como “Gratitude”, “Car Cash”, “1049 Gotho”, “War”, “Danny Nedelko”, “Dancer” e ainda “Rottweiler”, num concerto que conseguiu juntar uma maré geracional que tinha uma ambição em comum: viver a energia dos IDLES.
Talvez fosse a energia inesgotável da banda. Talvez fosse um público em negação perante o aproximar do encerramento do festival. Pouco importava a explicação. Àquela hora da madrugada, o palco Vodafone era uma catarse coletiva alimentada por guitarras, suor, convicções e uma energia que parecia impossível de esgotar. E, durante pouco mais de uma hora, os IDLES fizeram questão de lembrar por que razão continuam a ser uma das bandas mais poderosas do rock atual.







