Música

Pessoas enterradas na lama, caos e revolta no North Festival. Diretor diz que “há coisas a melhorar”

A organizadora Vibes & Beats mudou o evento para o Parque Serralves, com a ambição de realizar o mais festival do norte. Foi uma desilusão.
O North Festival decorreu de 24 a 26 de maio.

Sempre que tem oportunidade, a organização do North Festival gosta de garantir que pretende ser o maior grande festival de música da região norte de Portugal. Nesta edição, que arrancou na passada sexta-feira, 24 de maio, e terminou este domingo, as expectativas ficaram muito aquém do esperado para os milhares de visitantes que passaram por lá.

Keane, Nelly Furtado, Nininho Vaz Maia e Alejandro Sanz foram os grandes cabeças de cartaz de uma festa que apostou, este ano, numa nova localização, no Parque de Serralves, no Porto. Outra das novidades da quarta edição do North Festival foi o palco secundário especialmente dedicado à música eletrónica, por onde passaram os Bitch Boys, Rich & Mendes ou James Flower.

A New in Porto passou pelo evento e confirmou aquilo que já circulava nas redes sociais desde o arranque do festival na sexta-feira: má organização, atrasos sistemáticos nos concertos e um pântano de lama para afundar os visitantes. Ainda assim, confrontada com estas críticas, a Vibes & Beats recusa-se a assumir qualquer responsabilidade.

Um novo espaço (mas sem condições)

O Parque de Serralves recebeu pela primeira vez o festival, prometendo acolher mais pessoas do que as edições anteriores, que decorreram na Alfândega do Porto. Apesar de o recinto conseguir de facto acolher até o dobro de pessoas que a antiga localização, não pareceu a ninguém que que esta tivesse sido uma aposta “ganha”, como Jorge Veloso, diretor do North Festival, afirmou tantas vezes. 

“Estive na edição do ano passado, quando ainda era na Alfândega e foi muito melhor, teve mais e melhores condições. Para começar, o facto de ser em Serralves, onde tem terra, com a chuva aquilo ficou de facto cheio de lama, além de escorregadio, uma pessoa ficava com os pés enterrados a tentar sair”, conta Sílvia Cunha, de 30 anos, à NiP, este domingo no North Festival. Esta queixa foi repetida por várias outras pessoas ao longo dos dias.

Em comparação com as edições anteriores, de facto, desta vez, o North Festival contava com muitos mais nomes no cartaz diário. Contudo, as condições no backstage dos próprios artistas foram uma enorme desilusão. Neste caso, a Vibes & Beat assumiu que era preciso melhorar para edições próximas. 

“Ano após ano há sempre aspetos a melhorar. Esforçámo-nos por trazer um maior número de artistas para esta edição, mas ficou muito por fazer para melhor as condições do próprio backstage. Mas é apenas um aspeto para no próximo ano fazermos mais e melhor”, justifica Jorge Veloso à New in Porto. 

A mudança de local, sob a justificação de ter “mais espaço”, foi pouco aproveitada pela organização da forma mais literal possível. Até porque cada vez que chegava a hora de as pessoas se deslocarem até as casas de banho, era todo um desafio. As filas intermináveis, os acessos dificultados e, sobretudo, a falta de higiene destas zonas provocaram verdadeiros coros de críticas no festival.

A culpa é da lama, não da organização

Apesar de existirem críticas sobre a distância do palco em comparação com outros espaços do recinto, como food trucks, quiosques e até as próprias casas de banho, a revolta dos festivaleiros concentrou-se sobretudo contra a organização do festival.  

“Ontem [sábado, 25 de maio] também estive presente no festival e ocorreram várias situações que prejudicaram a experiência no festival. Apesar de cada situação merecer uma reclamação própria, há uma que foi, na minha opinião, gravíssima. No final do concerto dos Keane, por volta da uma da madrugada, parece não ter havido o mínimo de preparação ou preocupação para a enchente de pessoas que abandonou o recinto ao mesmo tempo”, conta Sara Marques, de 27 anos.

Segundo os relatos ouvidos pela New in Porto, durante pelo menos 20 minutos milhares de pessoas ficaram “encurraladas” entre o espaço do palco principal e a única saída, que estava a cerca de 100 metros, sem que se conseguissem sequer mexer.

“Não havia espaço para meios de pronto-socorro assistirem alguém que se tivesse sentido mal. Se alguém tivesse caído e estamos a falar num terreno lamacento, com paralelos e inclusive um degrau, a situação poderia ter sido trágica”, acrescenta a mesma fonte.

O diretor do North Festival, Jorge Veloso, tem outra visão dos acontecimentos: “As pessoas têm de perceber que a chuva piorou as condições de ontem à noite no festival. Era normal haver mais constrangimentos à saída. Temos à disposição equipas de segurança e meios para garantir o bom funcionamento do festival, mas há coisas, como o tempo, que não conseguimos controlar. As pessoas têm de perceber que estas situações podem causar alguma espécie de atraso e dificuldade na própria mobilização no recinto, além de referirmos que o cartaz de sábado juntou um maior número de festivaleiros, sendo normal este tipo de atrasos”. 

“A chuva foi o pior dos males. Felizmente, as pessoas tentavam sair de forma ordeira e foram cívicas, mas isso não é um dado garantido. Pessoalmente, o pior de tudo foi ter esperado cerca de 30 minutos numa fila parada para conseguir sair do Parque. Depois percebi que a própria polícia estava a parar as pessoas à saída, só não percebi o porque. Estávamos parados na lama, vi pessoas a escorregar, não sei se alguém se magoou, e foi tudo porque tínhamos de ficar ali parados. Se nos tivessem deixado sair normalmente tínhamos tido todos mais condições”, afirma outra jovem que esteve no festival.

Pulseiras cashless (sem dinheiro)

Nesta edição, o North Festival também decidiu introduzir o sistema de “pulseiras cashless”, sem as quais não era possível adquirir bebidas no recinto. No entanto, para as receber, era necessário pagar 2€ no ato da compra. Valor esse que prometiam ser devolvidos. Mas, afinal, isso nunca aconteceu. E, para piorar ainda mais a situação, não era sequer possível carregar estas pulseiras em todas as tendas disponíveis para o efeito. 

“A utilização obrigatória das pulseiras foi completamente ridícula. Inicialmente perdemos 2€ e o facto de nem sempre conseguirmos carregá-las fez com que muita gente ficasse em filas para depois ser informada que teria de ir para outra fila diferente para carregar a pulseira”, revela Sílvia Cunha. 

O que diz a organização?

“O North Festival recebeu, este ano, aproximadamente 65 mil pessoas, um número recorde, que reforça o sucesso desta edição. Apesar de existirem aspetos a melhorar – como em qualquer festival ou evento –, temos que destacar os pontos que foram irrepreensivelmente cumpridos, nomeadamente no caso das pulseiras cashless, a caução foi ampla e antecipadamente divulgada nas redes sociais do festival e reforçada no momento de compra das mesmas”, afirma a organização do festival.

Além disso, destaca que no espaço destinado ao backstage foi disponibilizado um cais de carga e descarga para facilitar a logística do evento e a própria experiência das equipas de produção. A organização reforça assim, a sua “ambição e esforço em melhorar”.

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