Música

Pet Shop Boys trouxeram o seu mundo dos sonhos a um palco de pesadelo no Primavera

A dupla britânica trouxe clássicos para dar e vender, mas foi atraiçoada pelas circunstâncias. É um pecado o que lhes fizeram.
40 anos de êxitos ©Hugo Lima

Deixemos uma coisa bem clara: nem todos os concertos precisam de um nível de decibéis apocalíptico, a rivalizar as frequências de 1755 (ou mais uma sexta-feira dos saudosos Motorhead). O que a música pede, a infraestrutura e a equipa de palco devem dar, seja a uma atuação acústica ou a uma big band de 20 elementos.

A synth-pop dos Pet Shop Boys precisa, pelo menos, de uma certa gravidade para resultar ao vivo. Música sintética, composta maioritariamente de teclados e percussão eletrónica, o que se perde do toque humano deve ser compensado pela mão dos técnicos de som. O grande problema é que o volume do palco principal na noite de 9 de junho no Primavera Sound Porto estava baixo, demasiado baixo.

Quem tem prestado atenção às novidades que vêm do festival portuense já deve saber que a nova disposição do recinto tem sido tudo menos consensual. E quase tudo recai no novo palco Porto, onde tocam a maioria dos principais nomes confirmados. Aos problemas descritos nos anteriores dias — da lama à falta de visibilidade — juntaram-se na atuação dos Pet Shop Boys outros dois.

Na tentativa de reduzir o lamaçal gerado pela chuva dos dois dias anteriores, terraplanou-se o solo, o que tornou a experiência bastante mais confortável, mas também parece ter libertado do chão um pungente cheiro a peixe que se instalou ao longo de todo o dia. Além disso, admitindo-se desde já que esta é apenas uma suposição, o facto do palco estar a menos de 100 metros de prédios de habitação parece explicar porque é que o som esteve tão baixo. O que a conjugação destes dois fatores deixou bem claro é porque é que, apesar de bem composto, o público encontrava-se relativamente esparso, com clareiras mesmo em zonas mais próximas da banda.

Nada disso é culpa do vocalista Neil Tennant e do teclista Chris Lowe, a força motriz que tem carregado os Pet Shop Boys desde o início dos anos 80. Sim, a idade pode ter tirado pujança à voz de Tennant, mas o seu estilo nunca foi vociferante nem histriónico, antes suave e deliberado. Salvo raros exemplos, cada “banger” de pop alquímica chegou-nos com frouxidão, mesmo depois de serem revelados os restantes elementos da banda em “Left to My Own Devices”, adicionando profundidade com mais percussão.

Da apresentação da bandeira da Ucrânia no ecrã de fundo antes do início do espetáculo até aos sumptuosos efeitos visuais durante as músicas, a cenografia dos Pet Shop Boys foi pensada ao milímetro para toda a atuação. Máscaras, várias mudanças de vestuário, presença de candeeiros de rua em palco que foram sendo movidos por uma “equipa de construção”. Não surpreende a atenção ao detalhe de quem anda nisto há tanto tempo.

Quando se começou a ouvir a batida de “Suburbia”, sentiu-se tanto a honra de presenciar história musical quanto o temor pelo que se seguiria. Não, não foi pela denúncia certeira dos subúrbios como espaços de esterilidade onde o entusiasmo vai morrer. Foi porque queríamos balanço, baixos a ecoar no peito e a transferir a sua força para as ancas, forçadas a mexer.

Sendo esta uma digressão pelos êxitos de quatro décadas de atividade, o que faltou no departamento sónico foi sendo compensado pelas melodias certeiras e o entusiasmo de ouvir temas como “Domino Dancing”, “Rent” ou uma “Paninaro” sacada do baú. A genial medley de covers “Where the Streets Have No Name (I Can’t Take My Eyes Off You)”, a versão de “You Were Always on My Mind” e o hino ao escapismo que é “Dreamland” foram outros momentos altos. Pesa sempre, no entanto, que tenham aterrado com a força de um edredom ou invés do relâmpago que se exigia.

Não sabendo como correu o último concerto da dupla em Portugal (há 13 anos, num Super Bock Super Rock no Meco), apenas podemos imaginar como teria sido a reta final desta atuação com outra potência. “Esta é para todos os ravers”, disse Tennant antes de “It’s Alright”, seguindo-se “Vocal” com a mesma energia e arrancando mais passitos de dança. A sua versão épica de “Go West” fez a cama para o clássico absoluto que é “It’s a Sin” terminar as festividades numa apoteose de libertação apenas contida pela baixa intensidade.

É uma pena, de facto, que tal fim tenha sido destinado a um conjunto que tanto fez pela pop que ouvimos ainda hoje. O encore de “West Side Girls” e “Being Boring” pode ter coroado a noite de glória aos fãs do conjunto, mas chegou com a mesma flacidez. “Bem vindos ao Dreamworld, onde ser aborrecido é um pecado”, disse Tennant a meio do concerto. Quem desenhou o Palco Porto já devia estar à procura de um confessionário.

Leia ainda as crónicas do concerto de Kendrick Lamar, de dia 7 de junho, e de Bad Religion, a 8 de junho, no mesmo festival. E carregue na galeria para ver mais imagens do terceiro dia do Primavera Sound Porto.

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