Música

Phil Spector: a noite em que um dos maiores produtores de sempre se tornou um assassino

Morreu a 16 de janeiro, com 81 anos. Vários meios dizem que estava infetado com Covid-19.
O crime aconteceu quando Phil Spector tinha 63 anos.

A notícia chegou a 17 de janeiro: no dia antes tinha morrido Harvey Phillip Spector, mais conhecido simplesmente como Phil Spector, aos 81 anos. Vários meios de comunicação adiantaram que o antigo produtor musical estava infetado com Covid-19, apesar de não terem confirmado que foi essa a causa da morte.

Sobretudo durante os anos 60 e 70, produziu discos e canções para os Beatles, Tina Turner, Leonard Cohen ou para os Ramones, entre outros ícones da música. Tornou-se parte do Rock and Roll Hall of Fame, do Songwriters Hall of Fame e foi fulcral para o papel dos estúdios nos álbuns. Reformou-se no início dos anos 80.

A sua vida sofreu uma reviravolta inesperada, porém, a 3 de fevereiro de 2003, uma segunda-feira. Foi o dia em que assassinou a atriz Lana Clarkson — crime que levaria Phil Spector à prisão, onde morreu nos últimos dias.

O caso tornou-se amplamente mediático tendo em conta a figura conhecida de Phil Spector e os contornos do homicídio. No primeiro julgamento, foi defendido por uma grande equipa judicial e estava acompanhado por um alargado conjunto de guarda-costas. Esteve em liberdade até 2007, quando começou o julgamento, pois conseguiu pagar a fiança de um milhão de dólares.

Naquela noite fatídica, Phil Spector foi a dois clássicos de Hollywood, os restaurantes e bares Trade Vic’s e Dan Tana’s, onde bebeu grandes quantidades de álcool — nomeadamente tequila. Acabou a noite na House of Blues, sendo que foi sempre levado pelo seu motorista, o estudante brasileiro Adriano de Souza, que foi uma testemunha essencial neste processo.

Foi na House of Blues que Phil Spector conheceu Lana Clarkson — uma atriz de 40 anos sem grande sucesso, com pequenas participações em vários projetos, embora protagonista de um filme de nicho chamado “Barbarian Queen”, de 1985. Naquele espaço, Lana Clarkson estava responsável pela entrada da área VIP.

Segundo o jornal “The Guardian”, inicialmente Lana Clarkson pensou que Phil Spector era uma mulher — até por causa do seu cabelo longo. Depois, foi corrigida pela gerência, e instruída a tratá-lo “como ouro”.

Depois de alguma insistência e persuasão, Lana Clarkson concordou em ir beber um copo com Spector na sua mansão de 33 assoalhadas em Alhambra, nos subúrbios de Los Angeles. Durante a viagem de limusine, assistiram ao telefilme noir “Kiss Tomorrow Goodbye”. Duas horas depois, estava morta.

Lana Clarkson era uma atriz sem grande sucesso que trabalhava no meio em Hollywood.

Adriano de Souza foi quem ligou às autoridades a reportar o que tinha acontecido. O motorista brasileiro estava no exterior da residência quando viu Phil Spector a sair pela porta das traseiras com uma arma na mão. “Acho que matei alguém”, disse o chefe a Souza. Eram as primeiras horas da madrugada e Spector estava relativamente embriagado.

Para trás, tinha deixado o corpo de Lana Clarkson morto, pendurado numa cadeira. A atriz tinha sido alvejada na boca por um único tiro e havia pedaços de dentes partidos espalhados pelo chão. Mais tarde, numa entrevista à “Esquire”, Phil Spector alegaria que se tinha tratado de um suicídio acidental e que Lana Clarkson tinha “beijado a arma”.

Foi esta a alegação em tribunal da defesa do antigo produtor musical de renome. Só que, numa exceção ao que costuma acontecer em julgamentos, o juiz aceitou ouvir os testemunhos de outras mulheres que alegavam ter sido vítimas de algum tipo de coação de Phil Spector. 

Acusavam-no de, muitas vezes embriagado e sob o efeito de drogas farmacêuticas, lhes ter apontado uma arma quando rejeitavam envolver-se com ele, passando de charmoso a ameaçador em poucos segundos. Era um “acidente à espera de acontecer”, como descreveu a acusação, que conseguiu provar em tribunal que o caso de Lana Clarkson não era um incidente isolado, mas antes uma ocasião em que este hábito agressivo (e também criminoso) de Spector tinha corrido especialmente mal.

A defesa ainda alegou que Adriano de Souza, por ser brasileiro, não tinha compreendido exatamente aquilo que o seu patrão lhe dissera quando saíra da mansão depois da morte da Lana Clarkson — até porque Souza alterou ligeiramente a sua versão da frase que tinha ouvido. Mas todas as provas forenses apontavam para que tinha sido Spector a alvejar Lana Clarkson e o antigo produtor musical foi condenado por homicídio num segundo julgamento, em 2009, já com menos apoios do que no primeiro.

“Se este não fosse o Phil Spector, com muito dinheiro para gastar, um julgamento como este nunca levaria tanto tempo”, disse na altura ao “The Guardian” um professor de direito da Universidade do Sul da Califórnia, Jean Rosenbluth. “Os casos normalmente não chegam a tribunal quando existem todas estas provas contra o acusado.”

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