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Pink FLoydGBTQIA+, Money Madonna, U2 sem gás e outros assuntos da semana na música

O cronista de música da NiT analisa a febre Madonna e os outros casos polémicos.
Roger Waters já era LGBT, vinte anos antes do acrónimo ser utilizado

Ainda estamos em janeiro e o ano já nos presenteou com muitas polémicas no mundo da música. Há muito assunto para tratar, por isso vamos pôr a escrita em dia. Começamos pelo caso “Pink FloydGBT” que levou a letra de “Money” demasiado à letra.

O álbum mais consagrado dos Pink Floyd, “The Dark Side Of The Moon”, faz 50 anos em março, e como tal, a banda britânica decidiu comemorar a efeméride com uma reedição de luxo (já lá vamos) e uma campanha nas redes sociais, que apresentou um logotipo com o número 50 sob o icónico prisma e o espectro cromático, tal como no álbum original. O resto da história, já devem ter lido, mas deixo a crítica aos Comfortably Dumb para a malta mais acordada das redes sociais como o Nuno Markl. Eu, honestamente, não tenho paciência. Escusado será dizer que quem ouve Pink Floyd, e faz este tipo de comentários, não percebe nada do que está a ouvir.

Como fã dos Pink Floyd, prefiro comentar a absolutamente obscena reedição “de luxo” que a banda preparou, que não é mais que uma versão light da caixa Immersion de 2011, com um terço do conteúdo (mais a mistura Atmos), mas pelo triplo do preço. Irónico que este seja o disco que há 50 anos nos avisou das armadilhas do mundo moderno. Agora são os Pink Floyd a levar à letra — “Grab that cash with both hands and make a stash”. Este é um produto tabelado a um preço absolutamente ofensivo, que nos leva a reflectir sobre o valor da música, em plena era do Youtube e Spotify, em que tudo se pode ouvir de borla, e em que as editoras se queixam da falta de vendas físicas, mas depois apresentam produtos obscenos deste calibre. Em que ficamos? Querem atrair mais clientes ou espantar os poucos que, como eu, ainda insistem em comprar tudo e ter a música nas mãos?

O meu nível de fanatismo pelos Pink Floyd é alto, e não arrisco muito se disser que tenho tudo que a banda já lançou em (quase) todas as iterações possíveis. E no entanto, por princípio, vou bloquear este lançamento projectado para cobrar o máximo dos fãs, oferecendo o mínimo possível. Que é como quem diz, já encomendei tudo… Não, estou a brincar. Encomendei apenas o vinil do “Live At Wembley 1974”, que ainda por cima é editado. A caixa de luxo, pela primeira vez, não vou comprar. E não sou o único. Conheço muitos fãs que estão cansados de ser explorados e vão atingir os Pink Floyd onde lhes dói mais. No bolso. E são eles socialistas, olhem se não fossem.

Quem desdenha a Madonna, quer comprar

E por falar em “Money”, a Madonna vai fazer uma digressão para celebrar os 40 anos anos de carreira, que é como quem diz, a Madge quer o vosso dinheiro. Todo o vosso dinheiro. Os preços para os bilhetes para o concerto no Atlântico (ou aqui em Londres, no o2) são, de facto, de levar as lágrimas aos olhos, e a polémica instalou-se em Portugal, com o próprio promotor do concerto, Nuno Braamcamp, a questionar: “Como é possível o público português ter dinheiro para estas coisas?”. Já eu tinha poucas dúvidas que ia esgotar, e não só esgotou, como já há segunda data. O mercado é que dita os preços, e se há público para comprar os bilhetes a este valor, então é jogo limpo. Não é que a Madonna tenha passado a carreira a representar o papel de herói da classe trabalhadora, como o Boss. Já eu, que ainda tinha esperança de um dia ver a Madonna ao vivo, desisti em definitivo da ideia.

Noel Gallagher sai de casa e regressa às origens com novo disco… E a velha banda?

Noel Gallagher é um dos meus heróis e foi por isso com enorme expectativa que recebi a notícia (ou vá, a confirmação – link) do novo disco “Council Skies”, a ser lançado em Junho. Noel tem também música nova, “Easy Now”, single de avanço do álbum que é, não vou esconder, uma valente desilusão. Noel apela ao denominador mais comum da sua fanbase e deixa para trás as experimentações electrónicas dos últimos anos. É pena. Dispenso este regresso às origens. Que é como quem diz, já encomendei o álbum nos formatos de triplo vinil, duplo CD e cassete. Enfim, sou fã doente, e com esta idade, temo que esta doença já seja incurável. Mas atenção, em minha defesa isto é música nova, não é uma reedição de material reciclado a preços obscenos… Bem, pelo menos não é reciclado.

Noel também esteve em destaque nos tablóides do UK nas últimas semanas, devido ao seu divórcio com Sara McDonald. O que é que isto tem a ver com música? Pode ter muito. É que Sara foi quem, alegadamente, convenceu Noel a deixar os Oasis há 15 anos, e desde então que está para o mano Liam como o diabo para a cruz. Com o regresso de Noel a Londres, literalmente a solo, a aproximação com o mano mais novo parece inevitável. Será que vamos ter os Oasis de volta em 2024? Graham Coxon, guitarrista dos Blur, já incentivou Liam no Twitter a ligar ao Noel. E assim fecha-se o ciclo da guerra da Britpop, com os Blur a servirem o cachimbo da paz aos Oasis. Quem diria?

U2 têm disco “novo”. As canções é que são velhas

Os U2 anunciaram um novo disco, mas em vez de música nova, o álbum será composto por regravações acústicas de temas antigos. Tem sido penosa, esta última década dos U2. Nada grita mais alto “banda em declínio” que um álbum acústico. Regravar ou, como sugerem os U2, “re-imaginar” êxitos antigos só nos prova que o depósito dos U2 está vazio. Isto se ainda houvesse dúvidas depois do sofrível “Songs Of Experience”. Fui ver o espectáculo do Bono a solo e adorei as interpretações intimistas e minimalistas naquele contexto. Um filme e álbum ao vivo deste show podem resultar como projecto a solo, mas uma recauchutagem de 40 temas com o selo dos U2? Quem é que vai ouvir isto, em detrimento dos originais? Os U2 precisam urgentemente de afinar o azimute e voltar a ser aquela banda que pensa fora da caixa e nos trouxe “Achtung Baby”, “Zooropa”, e “Pop”. Neste momento mais parecem ligados à máquina e em risco de tornarem num pastiche de si mesmos, qual Elvis na sua fase balofa.

 

“The Last Of Us” a ser o “Stranger Things” dos Depeche Mode

O primeiro episódio da série “The Last Of Us”, que adapta o popular videojogo ao pequeno ecrã, termina com o bombástico “Never Let Me Down”, dos Depeche Mode. Consta que, devido ao sucesso da série, esta aparição já está a fazer pelos Depeche Mode o que “Stranger Things” fez pela Kate Bush, quando usou “Running Up That Hill (A Deal With God)”. Ainda bem. “Never Let Me Down” é uma malha catedrática e os Depeche Mode já estão a ficar demasiado obscuros para as gerações mais novas, que assim podem ficar a conhecer a banda, principalmente naquela fase imperial entre 1987 e 1990.

Adeus a Jeff Beck e David Crosby

O ano começou mal para os velhotes da música e ainda vamos em Janeiro. Primeiro foi Jeff Beck, que partiu no dia 10, e depois foi a voz divina de David Crosby, que nos deixou dia 18. Sobre Jeff Beck, já falei no podcast do London Calling na NiTfm — era “o guitarrista dos guitarristas” e só não obteve o reconhecimento que merecia por entre o grande público, uma vez que não era tão dotado como compositor de canções, como era com as cordas da guitarra. Por outro lado, também não teve a sorte de integrar uma banda que tivesse um compositor de excelência, com quem ele pudesse colaborar a tempo inteiro, qual Slash para um Axl,  ou qual Gilmour para um Waters.

Por falar em compositores de excelência, David Crosby foi um cantor, escritor e ativista, cuja influência não é suficientemente reconhecida. Vou falar sobre ele no London Calling desta semana; até lá fiquem com uma playlist que reúne alguns dos pontos altos da sua carreira, desde os Byrds, passando pelas várias iterações dos CSNY, com, e sem, S e Y, e desaguando na sua intermitente carreira a solo, que foi sempre mais brilhante, quando acompanhada. É o caso das colaborações com alguns dos meus artistas favoritos, Phil Collins e David Gilmour, ou todas as vezes que se reunia com o seu amigo (e às vezes arqui-inimigo) de sempre, Graham Nash. A ouvir aqui.

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