Música

Por que é importante que um dos maiores festivais LGBT do mundo aconteça em Portugal?

A NiT falou com um dos organizadores. O cartaz inclui nomes como Melanie C, Iggy Azalea, Peaches, Blaya ou Bebe Rexha.
Vai acontecer no início de julho.

Em janeiro foi anunciado que uma cidade portuguesa iria receber um grande festival de música LGBT+. Pouco tempo depois, o evento foi confirmado no Porto: vai acontecer entre 1 e 3 de julho na Alfândega. Promete ser um festival histórico para Portugal e para a comunidade LGBT+.

O projeto nasceu a partir de uma reunião entre Marco Azevedo e Pedro Abelha, com experiência na área dos festivais, e o diretor da associação Variações, Diogo Vieira da Silva, que promove o turismo e o comércio LGBTI em Portugal e organizou o evento Porto Pride. O encontro aconteceu em 2019.

“Num almoço informal onde discutimos várias questões surgiu a ideia, houve uma proposta em cima da mesa: e se fizermos um festival direcionado para este segmento? Faz sentido? Existe público? Esgrimimos argumentos e chegámos à conclusão de que seria algo interessante”, explica à NiT Diogo Vieira da Silva.

A ideia era que o evento acontecesse em 2020, mas a pandemia de Covid-19 obrigou a que fosse adiado. Os organizadores reuniram-se novamente em outubro do ano passado e puseram mãos à obra. Segundo Diogo Vieira da Silva, vai ser “provavelmente” o maior evento LGBT+ de sempre em Portugal. Mais: “é, sem dúvida, dos maiores do mundo”. “Pelo menos ao nível do cartaz e da projeção que estamos a ter, vai ser um dos mais relevantes.”

Para definir o alinhamento, escolheram artistas LGBT+ ou músicos que simpatizam ativamente com a causa. “Que não têm receio de, no momento certo, na hora certa, dizer: não. É preciso defender os direitos humanos.” 

Estão confirmados nomes como Iggy Azalea, Peaches, Bebe Rexha, Melanie C, Todrick Hall, Little Boots, Jodie Harsh, The Illustrious Blacks, Gloria Groove, Blaya, Favela Lacroix, Bilal Hassani, Sammy Jo, Tiga, Snap!, Ludmilla e Bimini. O cartaz ainda não está fechado. Falta “pelo menos” mais um grande artista internacional, que promete ter “muito impacto”.

O LGBT+ Music Festival vai receber entre 20 e 25 mil pessoas por dia. Os bilhetes estão quase a esgotar, mas ainda existem entradas diárias disponíveis a 62,92€ — e passes gerais à venda por 135€. Mais de metade dos bilhetes foram adquiridos por público estrangeiro. A ideia sempre foi organizar um evento internacional a partir do Porto.

Aliás, como adianta Diogo Vieira da Silva, o festival também terá edições fora de Portugal, “noutras partes do mundo e noutros hemisférios”. “É um conceito global que estamos a experimentar no Porto, mas que não vai só acontecer nesta cidade. Nós vamos fazer este festival noutras partes do mundo. Portugal é o mentor da ideia e isso deve deixar-nos orgulhosos.”

Além dos concertos, o evento terá uma programação paralela importante. “Estamos a desenvolver todo um outro lado, que também é muito importante — daí o meu papel enquanto community impact manager — que é envolver a comunidade e não é só a LGBT+, mas a da cidade do Porto. Ou seja, queremos outros eventos a decorrer simultanemente. After-parties, eventos nos barcos, algumas talks sobre as várias temáticas que ainda é preciso abordar sobre a população LGBT+ — e até refletir sobre porque é que ainda é importante haver um festival LGBT+.”

Um festival para mudar mentalidades — onde o dinheiro é um aliado da causa

É precisamente essa a questão a que propomos que Diogo Vieira da Silva responda quando falamos com o diretor da associação Variações no dia 22 de fevereiro. “Acho que, simbolicamente, o dia de hoje é muito importante para demonstrar a relevância de haver um festival LGBT+.”

A 22 de fevereiro de 2006, Gisberta Salce Júnior, uma mulher transgénero brasileira, prostituta e seropositiva que trabalhava nas ruas do Porto foi assassinada por um grupo de adolescentes, que a torturou durante três dias antes de deixar o seu corpo abandonado num poço.

“Tinha 15 anos e lembro-me perfeitamente da história — foi quando me envolvi no ativismo. Tudo o que era perverso e que podia acontecer aconteceu. A sociedade portuguesa falhou. Os media falharam porque tratavam a Gisberta como um homem, diziam que era um ‘ele’. Tudo falhou. Deixou a cru e a nu a ignorância e a desinformação que existia. Isso fez com que as pessoas se organizassem, criassem a primeira marcha, que surgissem organizações. Passaram 16 anos e estas histórias não podem ser esquecidas. Também queremos lembrar o que foi conquistado. O facto de existir uma lei igualitária no casamento, legislação anti-discriminação ede identidade de género, uma lei da adoção. Tudo isto foi um processo de construção muito importante, mas falta o próximo passo — e é esse um bocadinho o papel do festival: demonstrar que não basta mudar leis, é preciso alterar mentalidades. É preciso modificar as vivências das pessoas LGBT+.”

Diogo Vieira da Silva acredita que uma das melhores formas para mudar mentalidades e combater o preconceito é recorrendo ao dinheiro. “Digo sempre uma coisa, meio a brincar, meio a sério: se é difícil discriminar alguém que conhecemos, garanto que é muito mais difícil discriminar alguém que nos faz ganhar dinheiro.”

O organizador do festival está convicto de que existe um enorme potencial económico por explorar no segmento LGBT+ internacional e que pode ser um fator determinante no combate à discriminação. “Sabemos que o festival irá ter uma componente de atração de pessoas e uma dinâmica de criação de valor, nomeadamente para a cidade do Porto, como nunca a cidade assistiu.”

Ou seja, “vai ser um evento em que a cidade vai poder festejar e ganhar dinheiro ao mesmo tempo”. “É o melhor dos dois mundos. Celebração dos direitos humanos ganhando dinheiro. É um bocadinho isso que queríamos fazer, e, no fim, devolver uma parte à comunidade. Fazer com que projetos ainda pouco conhecidos, mas que têm um papel muito meritório na sociedade, ganhem formas de financiamento e apoio contínuo. Esse é o nosso propósito enquanto festival.”

Diogo Vieira da Silva admite que muitas pessoas perguntaram porque não organizaram o festival na capital do País. “Lisboa já tem muitos eventos, inclusive o Arraial Pride que é nosso parceiro, e pensamos que a equidade LGBT não pode ser regional. Tem de ser nacional. A região norte tem um potencial gigantesco e tem de perceber que tem de começar a trabalhar estas questões. Não só socialmente, como economicamente. Queremos abanar cabeças e mostrar que isto tem impacto no turismo e na economia. Então porque é que não temos uma estratégia de turismo regional para a população LGBT+? Já temos a nível nacional. Pela primeira vez, existe o projeto de promover Portugal como destino turístico LGBT+.”

E acrescenta: “Mas as entidades regionais de turismo ainda não têm equipas especializadas para este segmento. Ainda não existe uma estratégia planeada, algo que queremos que aconteça. É preciso que Portugal trabalhe este segmento, como o faz para os outros — do turismo rural, dos vinhos, da terceira idade ou do desporto. Os relatórios da Organização Mundial de Turismo dizem que em média 65 por cento da população LGBT+ que viaja procura locais que sejam assumidamente LGBT+ friendly. Falta assumir esse posicionamento e, às vezes, basta um pequeno statement. Claro, que depois surge a questão: qual a necessidade, se isso não se faz isso para o público heterossexual? Porque infelizmente ainda temos mais de 40 países onde ser LGBT+ é ilegal. E, nalguns, ser LGBT+ dá direito a pena de morte. Isso faz com que as pessoas desta comunidade tenham o triplo da atenção em relação aos destinos para onde viajam. O facto de Portugal ser um dos países mais seguros do mundo, com uma  gastronomia e culturas fantásticas, e que me melhor sabe acolher sem discriminar. Parece que temos medo de o afirmar. Falta-nos isso.”

Outro exemplo que Diogo Vieira da Silva aponta tem a ver com as marcas nacionais. O LGBT+ Music Festival tem parceiros internacionais como a MTV ou a revista “Attitude”, entre outras multinacionais. “É caricato que poucas etiquetas portuguesas tenham decidido apoiar o festival. Mais uma vez, demonstra o quão importante é existir um festival destes em Portugal. Para pelo menos, para ver se o tecido empresarial percebe, finalmente, a relevância de se posicionar e defender as pessoas LGBT”.

Outro preconceito que o evento pretende quebrar é a “barreira invisível” que habitualmente existe associada a espaços ou iniciativas desta comunidade. “Pensa-se que são só para a população LGBT+. Não. Isso é uma falácia. A realidade é que este festival é para todos e para todas. Nós temos que quebrar essa barreira, de que isto é só para a população LGBT+ e os aliados são muito importantes: pessoas que não são LGBT+, mas que percebem a importância de as apoiar. Porque têm irmãos, filhos ou amigos LGBT+ e sabem quão difícil é superar a discriminação e a opressão. É como a causa animal, ou a causa racial, ou a igualdade de género: a igualdade de género não diz só respeito às mulheres. Também tem que dizer respeito aos homens. A questão racial não tem só que dizer respeito às minorias étnicas.”

Além da falta de posicionamento, o diretor da Variações aponta um problema que deveria ser urgentemente resolvido com legislação. “Penso que o mais premente neste momento, e que nos faz um bocadinho ter vergonha, é o facto de as terapias de conversão ainda não serem ilegais em Portugal. Como é que é possível? É algo que a Ordem dos Psicólogos recrimina. O que tem de ter tratamento e intervenção psicológica são as consequências da discriminação. É o facto de alguém se sentir tão oprimido que acha que não pode ser ele (ou ela) mesmo. Isso é que necessita de apoio e acompanhamento.”

Carregue na galeria para conhecer outros novos festivais que se estreiam este ano em Portugal.

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