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Quem é Joe Rogan, o podcaster polémico que criou uma guerra no Spotify?

Afirmações falsas relacionadas com a pandemia provocaram uma onda de críticas contra este humorista fanático por artes marciais.
O podcaster tem 54 anos.

É uma das maiores controvérsias dos últimos dias. No mês de janeiro, 270 cientistas e profissionais de saúde escreveram uma carta aberta ao Spotify. Expressaram as suas preocupações com as “afirmações falsas e perigosas para a sociedade” incluídas no podcast mais ouvido nos Estados Unidos, que é um exclusivo do Spotify, “The Joe Rogan Experience”.

Os signatários da carta alertaram para a desinformação relacionada com a pandemia da Covid-19. E mencionaram especificamente um episódio do podcast em que o convidado foi Robert Malone, físico que tem feito declarações cientificamente erradas sobre a pandemia.

O episódio foi criticado por divulgar teorias da conspiração sem qualquer fundamento, incluindo um discurso que alega que os líderes da sociedade hipnotizaram o povo. “O Dr. Malone é um de dois convidados recentes que compararam as restrições da pandemia com o Holocausto. Isto não é só ofensivo, é perigoso”, pode ler-se na carta. A conta de Malone no Twitter já tinha sido suspensa pela divulgação de informação falsa.

Poucos dias depois, a 24 de janeiro, o icónico músico Neil Young fez um ultimato ao Spotify. Ou deixavam de publicar o podcast de Joe Rogan ou deixavam de contar com a sua música na plataforma. Dois dias depois, o Spotify removeu a música de Young do catálogo. Outros músicos amigos juntaram-se à causa: é o caso de Joni Mitchell e Graham Nash.

A decisão do Spotify não foi propriamente uma surpresa, visto que havia pago — em maio de 2020 — cerca de 100 milhões de dólares (o equivalente a 87 milhões de euros) a Joe Rogan, para poder transmitir em exclusivo o seu podcast. Enquanto Neil Young tinha seis milhões de ouvintes mensais na plataforma, Joe Rogan tem cerca de 11 milhões de ouvintes por episódio. 

Para se ter uma ideia da dimensão da aposta do Spotify, os 100 milhões de dólares é um valor que a plataforma nunca pagou a qualquer músico. Um artista teria de gerar 23 mil milhões de streams no Spotify para poder ganhar esse valor, o que nunca aconteceu.

Joe Rogan não é jornalista nem tem um programa de comunicação social. É um comediante e apresentador que grava episódios longos — que podem chegar às duas ou três horas — com convidados das mais diversas áreas. Não faz comentários contraditórios, pelo que acaba por dar uma plataforma gigante para os convidados divulgarem as suas ideias — que por vezes são fundamentadas com informações falsas. 

Legalmente, Rogan não pode ser responsabilizado, ainda que o próprio já tenha feito alguns comentários baseados em dados falsos. “Isto não é uma vacina, é basicamente uma terapia genética”, disse em relação às vacinas que combatem a Covid-19, o que não é verdade. E defendeu que o risco de os jovens sofrerem danos colaterais (como miocardite) com as vacinas era maior do que o risco caso fossem infetados com Covid-19, o que também não corresponde à verdade.

Face a todas as críticas, o Spotify reagiu para dizer que estava a estudar a hipótese de colocar avisos relativos ao conteúdo dos podcasts. Joe Rogan pareceu aceitar essa possibilidade e assegurou que iria manter-se mais neutral nos seus programas. O seu público é sobretudo composto por ouvintes homens.

Mas quem é, afinal, Joe Rogan?

Aos 54 anos, Joe Rogan é provavelmente o podcaster mais conhecido do mundo. Nasceu em Newark, estado americano de Nova Jérsia, de origens italianas e irlandesas. O pai era polícia e deixou de estar presente na vida do pequeno Joe quando este tinha apenas sete anos. Os pais tinham-se divorciado dois anos antes.

“Tudo o que me recordo do meu pai são uns flashes violentos e curtos de violência doméstica… Mas não me quero queixar da minha infância. Nada de realmente mau me aconteceu… Eu não o odeio”, disse numa entrevista à “Rolling Stone”.

Durante a infância e adolescência viveu em São Francisco, na Califórnia, mas também na Flórida, até a família se fixar em Boston. Desde o início da adolescência que desenvolveu um grande interesse por artes marciais. Davam-lhe confiança. “Foi a primeira coisa que me deu esperança que eu não seria um perdedor na vida”, disse noutra entrevista.

Tinha 14 anos quando começou a praticar karaté e, depois, taekwondo e kickboxing. Participou em competições importantes e conseguiu algumas vitórias. Mas retirou-se das artes marciais aos 21 anos. Sofria cada vez mais de dores de cabeça intensas e receava que desenvolvesse mais danos se continuasse a competir.

Desde sempre que é um fã de comédia. Nas artes marciais, costumava contar anedotas aos colegas — foram eles que o convenceram a estrear-se no stand-up. Aconteceu num pequeno bar em 1988, em Boston, e desde aí que continuou a seguir essa carreira. Contudo, os primeiros tempos não foram fáceis. Tinha de equilibrar a comédia com outro tipo de trabalhos para conseguir pagar as contas. 

Deu aulas de artes marciais, entregou jornais, foi motorista de limusine, trabalhou no setor da construção e até num gabinete de detetives privados. Em 1990, mudou-se para Nova Iorque para se dedicar 100 por cento à comédia. Foi viver com o avô em Newark, durante alguns meses, até se conseguir tornar independente com o seu trabalho.

Em meados dos anos 90 mudou-se para Los Angeles e começou a fazer trabalhos na área da televisão. Fez alguns papéis cómicos enquanto ator, inclusive na sitcom “NewsRadio”, onde desenvolveu — com os argumentistas — a própria personagem.

Joe Rogan tornou-se amigo do colega ator Phil Hartman, que lhe confidenciava os seus problemas no casamento. Rogan tentou convencer Hartman a deixar a mulher, em inúmeras ocasiões, mas sem sucesso. Em 1998, Phil Hartman foi assassinado pela mulher. Este incidente impactou Rogan, que cancelou diversos espetáculos de stand-up comedy durante algum tempo.

Por volta da mesma altura, tinha começado a colaborar no “Ultimate Fighting Championship” (UFC) como um dos apresentadores. Foi lá que trabalhou durante vários anos, tendo em conta a sua especialidade e gosto por artes marciais, onde consolidou o seu nome. 

Em 2001, começou a apresentar o programa “Fear Factor”, que foi um sucesso — daí que tenha durado até 2006. Ao longo dos anos foi apresentando outros programas, participou em filmes e gravou especiais de comédia, enquanto mantinha os espetáculos de stand-up.

Apesar de a ascensão dos podcasts só se ter verificado nos últimos anos, “The Joe Rogan Experience” nasceu em 2009. Começou o projeto com o amigo e colega comediante Brian Redban. Um ano depois já estava na lista dos 100 mais ouvidos do iTunes. Ao longo dos anos foi afirmando a sua força e conquistando um público cada vez maior, tornando este no projeto mais reconhecido de Joe Rogan.

Foi também em 2009 que se casou com Jessica Ditzel, antiga empregada de bar, com quem tem dois filhos. A família passou por vários locais e desde 2020 que vive numa mansão milionária no Texas.

Política e ideologicamente, Joe Rogan descreve-se como um libertário. Assume-se como a favor do casamento homossexual, dos direitos das mulheres, da legalização das drogas, e até de um estado social. Mas também é a favor do uso de armas e foi acusado por diversas vezes de descriminar os transgénero.

Tem sido um grande crítico daquilo que chama de “cultura do cancelamento” e apoiou Bernie Sanders na corrida à liderança do Partido Democrático — sendo que Sanders é da ala mais esquerdista do partido. É um grande crítico do presidente americano Joe Biden e apresenta-se como um desafiador do status quo.

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