Música

Quem são os Kalush Orchestra, os ucranianos que venceram a Eurovisão?

Antes de darem a conhecer o tema “Stefania” a toda a Europa, o grupo já era um sucesso no país de origem. Conheça o seu percurso.
Deixaram a Europa fascinada.

Surgiram em palco com uma sonoridade distinta, visuais arrojados e, sobretudo, muito carisma. Os Kalush Orchestra tornaram-se os vencedores do Festival Eurovisão da Canção esta sábado, dia 14 de maio, e levaram o troféu do certame para a Ucrânia com o tema “Stefania”. Foi a terceira vez que o país venceu a competição, desta vez num período de fragilidade — o país foi invadido pela Rússia a 24 de fevereiro.

No momento em que as luzes da arena Pala Alpitour, em Turim (Itália), se acenderam, para dar início ao festival, a Ucrânia já se destacava no 1.º lugar nas previsões das casas de apostas. Contava com uma probabilidade de vitória de 61 por cento, um valor esmagador e invulgar, que reflete não só o entusiasmo em torno do tema, mas a mobilização europeia face ao conflito que se desenrola no território ucraniano. Quando a guerra eclodiu, dos 40 candidatos à vitória no festival, o país estava a meio da tabela dos prováveis vencedores.

“Sempre encontrarei uma maneira de voltar para casa, mesmo que todas as estradas sejam destruídas”, cantou o grupo em palco. No entanto, apesar das questões geopolíticas, a Eurovisão continua a ser um momento musical e, desde o início, que os ucranianos se destacaram com uma proposta musical singular. Trata-se de uma fusão do estilo rap com a música folclórica da Ucrânia que se diferenciou dos demais artistas a concurso, pela sonoridade etnicamente ucraniana.

Em palco, usaram trajes tradicionais do país que, à primeira vista, e para quem os desconhecia, se relevaram intrigantes. Os figurinos que os membros da banda usaram em palco têm mais de 100 anos e funcionaram como uma ponte simbólica para o passado histórico do país que, neste momento, está a ser devastado.

As origens da Kalush

Curiosamente, a Kalush Orchestra não é a banda principal dos elementos que se apresentaram em Turim, mas um projeto paralelo. Criado em 2019, Kalush — o nome escolhido para o grupo original — é constituído pelo fundador e vocalista Oleh Psiuk, o bailarino Vlad Kurocha e o multinstrumentalista Ihor Didenchuk, que também integra a banda Go_A, representante ucraniana na edição do ano passado.

Dois anos mais tarde, em 2021, os membros originais juntaram-se a Tymofii Muzychuk, Vitalii Duzhyk, and Dzhonni Dyvnyy e ficou formado o conjunto de seis artistas (que antes tinham carreiras a solo) que toda a Europa ficou a conhecer. Trocaram as músicas apenas no registo rap, que costumam compor e apresentar, para a melodia cheia de nuances e referências culturais que fazem parte de “Stefania” — uma ode à mãe do vocalista que se tornou um símbolo da pátria enquanto figura materna.

O carismático Oleh Psiuk é o líder dos Kalush Orchestra, fiel ao chapéu cor-de-rosa que também usou em Turim, e é o responsável por fundar as duas bandas. Desde cedo que se viu envolvido pelo rap americano, nomeadamente por Eminem, imaginando-se a desenvolver trabalhos como o artista conhecido como “Rap God”. A sua forma de o conseguir foi com a Kalush, cujo sucesso foi imediato, com o apoio de outros artistas ucranianos.

Em fevereiro do ano passado, a banda lançou “Hotin”, o primeiro álbum, que logo despertou curiosidade. Cinco meses depois, já estavam a lançar o seu segundo trabalho, “Yo-Yo”, em colaboração com o rapper Skofka.

Ao lançarem a canção “Dodomu”, juntamente com Skofka, somaram milhões de visualizações no YouTube e chamaram à atenção da editora Def Jam, que trabalha com nomes como Jay-Z, e fecharam um contrato que os catapultou, definitivamente, para as luzes da ribalta. O lançamento deste projeto secundário consolidou o sucesso e popularidade do grupo.

A Ucrânia tinha outra representante

Na seleção nacional ucraniana, o festival Didbir, foi a cantora e também rapper Alina Pash que se apurou como vencedora, com os atuais representantes a conquistarem o segundo lugar. Quando começaram a surgir informações sobre uma viagem da artista de 29 anos à península da Crimeia, com origem na Rússia, em 2015, foi desqualificada e substituída.

Uma semana depois, a 24 de fevereiro, quando se instaurou a guerra contra o país, as oportunidades para ensaiar tornaram-se escassas para a Kalush Orchestra. Muitas vezes, os vários membros comunicavam online, mas existiam complicações: “O MC KylymMen [Vlad Kurochka] participou na defesa territorial de Kiev. Eu fundei a minha própria organização de voluntários e ajudámos com o alojamento e transporte de refugiados, cuidados médicos e muitas outras coisas”, contou Psiuk à revista alemã “Der Spiegel”.

Contra todas as adversidades, nada impediu que o staging, os figurinos e toda a composição musical estivesse dentro das expetativas depositadas na prestação do grupo na final da Eurovisão. O próprio presidente Volodymyr Zelensky os designou como embaixadores do país, atribuindo-lhes uma licencia especial para triunfarem na ‘missão’ designada por “vitória na Eurovisão”.

Com este selo de aprovação do líder do país, os membros magnéticos da Kalush Orchestra continuam a abraçar as suas raízes, visando não só ao gravar partes ancestrais da cultura ucraniana no coração das gerações futuras, mas partilhando-as com os todos os países que param para apreciar a heterogeneidade do festival.

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