Música

Quem trouxe, quem trouxe? Como nasceu a música sensação do Pingo Doce

Quim Albergaria compôs a canção com Manuel Palha, dos Capitão Fausto. Parte da música estava feita há cinco anos.
É a canção de Natal da marca.

“Quem trouxe? Quem trouxe? Foi o Pingo Doce.” Este ano, a música de Natal mais ouvida em Portugal não terá sido “All I Want For Christmas is You”, de Mariah Carey; ou “Last Christmas”, dos Wham!. Apostamos que foi a música de “O Natal Traz o Melhor de Nós”, o anúncio publicitário dos supermercados Pingo Doce, lançado em meados de novembro e que rapidamente se tornou num fenómeno de popularidade.

Depois de começar a ser transmitida massivamente na televisão, as reações inundaram a Internet. Multiplicaram-se os comentários nas redes sociais, os vídeos paródia, as coreografias, os remixes ou as referências. No YouTube, o anúncio soma mais de 777 mil visualizações. 

Uma campanha publicitária é sempre um trabalho coletivo. Neste caso, a Jerónimo Martins — empresa que detém a marca Pingo Doce — trabalha com a agência criativa BBDO. O diretor Marco Pacheco, Miguel Valente e Pedro Gonçalves foram os copywriters que escreveram a letra (já com ideias de melodias em mente). A música foi cantada por Carolina Milhanas e foi composta por Quim Albergaria (Paus, Bateu Matou, The Vicious Five) e Manuel Palha (Capitão Fausto).

A história remonta a 2016. Quim Albergaria, além de ser um músico profissional com diferentes projetos, trabalha no lado criativo de estratégia de marcas. “A minha ligação à criatividade comercial vem de trás. E a música é uma coisa que fiz sempre ao mesmo tempo com o mesmo nível de importância. Estes mundos andam sempre lado a lado. E poucas vezes se cruzam. Cruzaram-se quando fiz o projeto da Vodafone FM e algumas vezes quando fiz músicas para publicidade”, explica o criativo à NiT.

“Em 2016, a BBDO começa a trabalhar com a Jerónimo Martins e lança-me um desafio para pensar no que poderia ser um seguimento da canção anterior. E foi nessa altura que nasceram as bases deste ‘Quem Trouxe’. Depois foi uma ideia que não foi para a frente, ficou sempre ali na calha, e de vez em quando a gente pensava naquilo. E este ano a campanha e a ideia foi sobre esta lógica d’o Natal traz o melhor de nós e o Pingo Doce traz o resto’”, acrescenta Quim Albergaria.

A equipa acreditou que a maquete que estava na gaveta podia ser transformada para se tornar finalmente o hino de Natal da marca. Albergaria lembrou-se de Manuel Palha, músico dos Capitão Fausto, para o ajudar com a composição e arranjos. Os dois, que nunca haviam trabalhado juntos, tinham recebido a letra da agência e precisavam de construir uma canção que fizesse sentido.

“Foi super orgânico e fácil. Eu trouxe o briefing para nos sentarmos em estúdio: o que era preciso e quais eram as necessidades da canção. E desenhámos a estrutura melódica, a melodia principal da interpretação da letra, o arranjo da voz, a composição e depois produzimos de acordo com os objetivos de ser uma canção pop, ter um bocadinho de portugalidade, ter a essência do Pingo Doce no Natal.”

Depois, precisavam de uma voz que pudesse cantar esta letra. “Era preciso alguém que fizesse a ponte entre aquele timbre tradicional português e que tivesse a capacidade de ter também um discurso pop. Alguém que pudesse entoar as duas coisas ao mesmo tempo. No nosso radar tinha aparecido a Carolina Milhanas e quando surgiu a oportunidade de fazer isto, ‘bora ligar-lhe a ver se ela está afim. Ela disse que sim, o que foi ótimo. É um feat perfeito.”

O tema foi gravado e produzido em outubro com Ivo Costa, músico colega de Quim Albergaria na banda Bateu Matou. “Refizemo-la toda à luz do que é alguma estética pop e publicitária atual, para ser a canção de Natal do Pingo Doce. Agora, o que aconteceu a seguir: impossível de calcular e planear.”

O fenómeno começou aos poucos e de forma orgânica. “É um bocado alienígena. O impacto que ela teve ou como entrou no dia a dia das pessoas é absolutamente surpreendente. Eu estava preparado para ser um daqueles anúncios que têm a sua vida. Mas pouco tempo depois começo a ouvir os primeiros comentários de irritação, a ouvir pessoas na rua a cantar, a ver os primeiros TikToks com coreografias… Pessoas da praça pública a assumir a canção, tipo o Fernando Daniel. Aparecer como recurso de comédia do João Quadros ou do Bruno Nogueira. Ou, mais incrível para mim, o que é mesmo complicado de perceber, a quantidade de tweets apenas só com o texto. As pessoas só a dizerem o texto. Não é ‘gosto’, ‘não gosto’, ‘estou irritado’, a utilizar para uma metáfora qualquer, zero. Isso para mim é muito estranho”, conta Quim Albergaria.

O músico não consegue explicar o porquê de se ter tornado um fenómeno, mas há vários fatores óbvios que contribuíram. “Não consigo explicar porque não há uma receita. Há muitos truques eficazes da pop que foram utilizados na canção. Melodia simples, texto bonito, repetição como recurso estilístico e de memória, está lá tudo. Altos e baixos para funcionar do ponto de vista emocional. Mas tal como esta há outras milhares de canções. Tem a ver com a pressão de media da própria campanha? O facto de o Pingo Doce ter garantido que muita gente a pudesse ouvir? Claro, obviamente que tem. Mas é a mesma pressão que a concorrência aplicou. É mesmo só uma lógica da melodia certa com a repetição certa na altura certa. Mas se fôssemos tentar outra vez, com as mesmas regras, não sei se conseguíamos.”

Um dos momentos de reação que Quim Albergaria mais gostou teve a ver com crianças. “Ao pé de minha casa há um centro de dia para os miúdos das escolas daqui, tipo ATL. E têm um espaço na rua onde brincam, que é muito perto de onde trabalho em casa. Ouço o que os miúdos gritam, os palavrões novos que vão aprendendo, as músicas todas que eles ouvem no TikTok e que vejo nas redes sociais. E a determinada altura começou a aparecer o ‘Quem Trouxe, Quem Trouxe’. Ou seja, duvido que estes miúdos vejam anúncios, mas a vida de social media da canção pôs estes miúdos a cantar. O que é incrível.”

E acrescenta: “Depois há outros fenómenos brutais. O João Quadros a responsabilizar a DGS por não ter identificado o ‘Quem Trouxe’ como uma nova estirpe da Covid-19. A última coisa que me deixou mais feliz foi o do clube Pérola Negra”.

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