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Quero tudo e quero tudo agora: Queen lançam caixa de luxo do álbum “The Miracle”

O cronista da NiT e fanático dos Queen, Nuno Bento, faz o resumo da nova edição de luxo saída dos arquivos da banda britânica.
Os Queen em 1989, ano de "The Miracle"

Quando soube que os Queen iam lançar uma caixa de luxo do álbum “The Miracle”, a minha reação foi de estupefação — “A sério, o ‘The Miracle’? Qual é que vão fazer a seguir, o ‘Flash Gordon’?”. Não é segredo que não morro de amores pelo antepenúltimo disco dos Queen, mas como fã incurável que sou, já tinha a box nas mãos no primeiro dia. O meu veredito final não podia estar mais longe da impressão inicial. Este é o melhor lançamento de arquivo dos Queen desde, pelo menos, 2014, quando saiu “Live At The Rainbow”.

Independentemente da (falta de) inspiração do álbum, “The Miracle” é um disco importante na história dos Queen. Ao mesmo tempo que a banda tentava fazer um comeback portentoso — não foi por acaso que o single de avanço foi o roqueiro “I Want It All” —, por esta altura, circa 1989, os Queen já sabiam da condição de Freddie, por isso o disco começa a ter um feeling de despedida. A colocação de “Was It All Worth It?” no fim do disco não é inocente. Este feeling seria ainda mais acentuado nas sessões subsequentes, que deram origem a “Innuendo” e “Made In Heaven”. O estado de espírito de “The Miracle” é mais otimista, desde a abertura com “Party”, até ao tema-título “The Miracle”.

A escolha deste disco para uma edição de luxo é enigmática, por não ser (de todo) um dos melhores discos dos Queen, mas por outro lado essa é precisamente a razão que torna a reavaliação de “The Miracle” mais premente. Será assim tão mau como a fama que carrega? Esta caixa confirma que não.

Para esta edição de luxo, os Queen foram à master digital restaurar a versão original de “The Miracle”, que tinha “Too Much Love Will Kill You” no Lado A, entre “I Want It All” e “The Invisible Man”. O tema ficou envolto em disputas de royalties que não foram resolvidas antes do lançamento do disco, e como tal, só veria a luz do dia no álbum a solo de Brian May, “Back To The Light”, em 1992. A versão das sessões de “The Miracle” só apareceria mais tarde, no disco póstumo dos Queen, “Made In Heaven”, em 1995. Devido ao facto de ser uma master digital, não podemos esperar grandes melhorias nesta nova tiragem em vinil, mas fica restituída a verdade do disco.

A origem digital do álbum, que foi gravado com uso excessivo de instrumentação eletrónica, é um dos sintomas que explicam a tepidez e a falta de alma em “The Miracle”. Como se explica o abuso da eletrónica, especialmente quando se tem executantes tão virtuosos numa banda como os Queen? O fator humano é providencial na sonoridade dos Queen e isso fica provado no segundo disco da caixa, “The Miracle Sessions” — a jóia da coroa desta edição —, que mostra Freddie, Brian, Roger e John em estúdio, livres e soltos, a tocarem as suas partes nos respetivos instrumentos. Estas foram, em muitos casos, substituídas a posteriori por sintetizadores. À falta de versões ao vivo destas canções (não houve digressão devido à condição de Freddie), “The Miracle Sessions” mostra-nos como soariam estes temas caso os Queen tivessem levado o álbum para a estrada.

“The Miracle Sessions” é dividido em duas partes, começando com uma versão alternativa do álbum, constituída por uma amálgama de demos, takes alternativos e ensaios de estúdio, colados com diálogo para dar uma sensação de continuidade. É uma experiência alternativa ao álbum original que, como referi em cima, é o mais próximo que alguma vez estaremos de ouvir as canções de “The Miracle” ao vivo. E é uma maravilha. Mesmo faixas absolutamente amorfas como “Party” e “Rain Must Fall” ganham nova vida nestas versões com instrumentação humana. É a primeira vez que ouvimos “Breakthru”, de longe o melhor tema de “The Miracle”, com bateria e baixo verdadeiros. Este disco confirma também que “Breakthru” é na verdade uma colagem com outro tema, “When Love Breaks Up”, que ouvimos aqui pela primeira vez.

Como seria de esperar, as melhores músicas da iteração final do álbum são as melhores músicas nos ensaios. “Scandal” soa por isso gloriosa na sua versão despida em estúdio. O ensaio de “I Want It All” bate ainda mais forte que a versão final e é delicioso ouvir Freddie a deixar escapar um “shit!” quando entra cedo demais. Freddie volta a antecipar-se em “Rain Must Fall”, mas desta vez consegue segurar o vernáculo. “The Invisible Man” aparece aqui na demo original de Roger, que já conhecíamos da edição deluxe de 2011, mas agora com um take alternativo e estendido do solo de guitarra de Brian May no fim.

A segunda parte do disco “The Miracle Sessions” desvenda uma antologia de canções, (supostamente) completamente novas, gravadas nas sessões de “The Miracle”. Supostamente porque temas como “Dog With A Bone”, “I Guess We’re Falling Out”, e o mais recente single “Face it Alone” já eram conhecidos dos fãs que frequentavam as convenções dos Queen desde há décadas. Confesso que esperava que a escolha para o tema de promoção a esta box recaísse sobre “I Guess We’re Falling Out”, uma música muito mais radiofónica e representativa do material mais upbeat das sessões de “The Miracle” — em oposição a “Face It Alone”, que captura melhor o tom mais sombrio de “Innuendo”. O facto é que “Falling Out” requeria gravações adicionais devido aos nananas de Freddie, que revelam que a lírica não estava terminada (e que explica por que não foi utilizado em “Made In Heaven”).

Não é certa a extensão da recauchutagem em estúdio de “Face It Alone” (há ali pelo menos uma correção de tom na faixa vocal de Freddie), mas tendo em conta o resultado minimalista, não me parece que Brian e Roger tenham mexido muito nas gravações originais. E este até é um exemplo em que um solo a rasgar de Brian May poderia elevar a canção para outro nível. “Face It Alone” não é o melhor tema “perdido” interpretado por Freddie Mercury (esse continua a ser “It’s In Everyone Of Us” de David Pomeranz, a última performance ao vivo da sua vida), mas em todo o caso, é sempre bom ouvir música “nova” de Freddie. Nem que fosse a cantar o “Malhão”.

“Dog With A Bone” é mais uma sessão de improviso do que uma canção, mas serve para nos relembrar do poder e versatilidade absurdos da voz de Roger Taylor. Só mesmo nos Queen é que alguém com este talento pode ser “só” o baterista. “Water” e “You Know You Belong To Me” são, estas sim, composições completamente novas e desconhecidas de Brian May, e só me pergunto se ele se esqueceu da existência destes temas. Nunca mais apareceram em discos dos Queen, ou sequer a solo.

O terceiro disco da caixa, “Miracumentals” (A sério? Não era melhor, sei lá, “Instrumiracles”? OK, é igualmente mau), é outra revelação — um disco de versões instrumentais que revela pequenos detalhes, como por exemplo as harmonias na introdução de “Breakthru”, as quais parecem retiradas de um tema do álbum “Barcelona”, que Freddie produziu na mesma altura. É um disco óptimo para fazer karaoke.

O set inclui ainda material vídeo em Blu-Ray e DVD, que reúne os clipes de “The Miracle” e os respectivos making-ofs. Mais importante ainda, é possível escutar as misturas surround dos singles, que foram criadas há 20 anos para o DVD “Greatest Video Hits 2”, bem como os respectivos comentários de Brian e Roger, também gravados para esse DVD. É pena que o resto do álbum não tenha sido misturado em surround.

A box de “The Miracle” é, de longe, o melhor produto a sair da esfera dos Queen nos últimos anos. Tem que ser este o novo barómetro para os próximos lançamentos. E se a nova regra do Dr. Brian May for lançar versões expandidas dos álbuns menos bem conotados dos Queen, que venha daí uma caixa de luxo do “Hot Space”. Nenhum outro disco dos Queen precisa tanto de uma reavaliação como esta corajosa e transgressiva incursão pela Gay Disco no início dos anos 80.

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