“Eu sou Robbie fucking Williams.” Bastaram estas palavras e uma das primeiras músicas da noite para o Parque da Bela Vista perceber quem ia comandar a hora e meia seguinte. O cantor britânico subiu ao Palco MEO à 1h20 da madrugada deste sábado, 29 de agosto, com uma pontualidade britânica que agradou aos festivaleiros (principalmente a quem se queixou da hora escolhida para o concerto).
Arrancou com “Let Me Entretain You” e a promessa cumpriu-se de forma certeira: entreteve o público do início ao fim, cheio de energia, apesar de confessar estar doente. E mesmo os mais céticos, acabaram a noite rendidos à boa disposição e humor do músico que fechou em grande o primeiro dia da quinta edição do MEO Kalorama numa grande festa pop. Houve espaço para os seus grandes hits a solo, para canções dos Take That, boy band onde começou a carreira, e até para êxitos de artistas que admira como Frank Sinatra e Dolly Parton, que faleceu a 25 de agosto e a quem fez uma sentida homenagem.
Aos 52 anos, Robbie não precisava de grandes apresentações, mas fez questão de as dar na mesma, assumindo o papel de anfitrião que não deixou ninguém sentir o avançar da horas. Abraçou fãs e até cantou os parabéns (juntamente com milhares de pessoas) a uma fã que estava na primeira fila. Durante todo o concerto, fez o público sentir que o espetáculo era uma grande festa de amigos, entre muita dança, brincadeiras e algumas piadas que fogem ao politicamente correto.
“Let Love Be Your Energy” baixou um pouco o ritmo, mas não a intensidade da relação entre cantor e público. Robbie falou, perguntou, provocou e contou histórias. A certa altura, apontou um senhor no público e garantiu ter reconhecido um antigo affair dos anos 90. “Era um amante bastante gentil”, brincou, arrancando gargalhadas.
Depois quis saber se todos concordavam que era um entertainer. A resposta surgiu de forma sonora. Começou então a cantarolar pequenas melodias para que a multidão as repetisse. “Adoro isto porque sou um narcisista”, atirou.
Foi esta a dinâmica que atravessou grande parte da atuação. Robbie não se limitava a passar de música em música. Queria conversar com quem tinha ficado acordado até àquela hora e testava a resposta do recinto a cada oportunidade. Contou que, em algumas manhãs, ainda acorda e se pergunta: “I still got it?”. A resposta no MEO Kalorama não deixou margem para dúvidas.
Pouco depois, explicou que todos estavam numa viagem para descobrir o verdadeiro significado de entretenimento. “Rock DJ” tratou de fornecer uma resposta. O clássico transformou o Palco MEO numa pista de dança e trouxe uma das primeiras grandes explosões coletivas da noite.
O concerto avançou depois para “All My Life”, do mais recente disco, antes de “Love My Life” manter a festa. Foi então que Robbie revelou que a atuação esteve perto de não acontecer. “Podíamos ter cancelado o espetáculo. Esta semana estive mal, sentia-me doente. Não me sinto muito bem esta noite, mas vocês vão ajudar-me, certo?”, perguntou.
Se havia algum problema físico, tornou-se difícil percebê-lo quando começou “Supreme”. Robbie continuava a percorrer o palco, a pedir braços no ar e a puxar por uma plateia que respondia a cada gesto. Seguiram-se “Relight My Fire” e “Something Beautiful”, esta última num dos momentos mais emotivos da primeira metade do espetáculo.
“Millennium” voltou a aumentar a intensidade. O êxito, de 1998, foi recebido com nostalgia. Milhares de pessoas a cantar e um Robbie Williams que parecia alimentar-se da resposta que vinha do outro lado das grades.
“Nunca disseram que eu era misterioso”, brincou a certa altura. “Nunca fui o tipo que fica no canto. Sou o tipo que está no meio da sala a fazer os movimentos de dança mais brancos de sempre”. É difícil encontrar uma descrição mais eficaz para aquilo que Robbie Williams faz em palco. Não é uma figura distante. O exagero, a autoironia e a capacidade de se transformar na própria piada fazem parte da personagem há décadas.
A seguir, interpretou “Theme From New York, New York”, popularizada por Frank Sinatra, e abriu espaço para uma longa sequência de covers. Houve “Personal Jesus”, dos Depeche Mode, “We Will Rock You”, dos Queen, e “Jolene”, numa homenagem a Dolly Parton. “Adoramos-te, Dolly Parton”, disse, apontando para o céu antes de arrancar uma salva de palmas.
O medley continuou com “Y.M.C.A.”, dos Village People, “Just Can’t Get Enough”, dos Depeche Mode, e “Hey Jude”, dos Beatles. Em poucos minutos, Robbie passou por vários capítulos da música popular sem transformar o concerto numa simples sessão de karaoke. Tudo servia o mesmo objetivo: manter dezenas de milhares de pessoas envolvidas.
“Kids”, o dueto que gravou originalmente com Kylie Minogue, devolveu a noite ao repertório próprio. Depois da música, Robbie desceu do palco e aproximou-se das primeiras filas. Foi quando, além de parabenizar a fã, Isabel, que fazia anos, decidiu oferecer-lhe um presente, dedicando-lhe “She’s the One”. No final, comentou “Happy Birthday, darling”.
Mas o momento mais pessoal ainda estava por chegar. Antes dos primeiros acordes de “My Way”, de Sinatra, começarem a tocar, contou que o seu grande herói sempre foi o pai, que vive atualmente com Parkinson. Explicou que pai já saiu de casa duas vezes para assistir aos seus concertos e que fica orgulhoso, mesmo na cadeira de rodas, ao ver o filho atuar, dizendo-lhe: “Deus fez-me bom, mas a ti, filho, fez-te o melhor de todos”.
Robbie dedicou-lhe então o clássico de Frank Sinatra. O Parque da Bela Vista respondeu com um coro e a primeira despedida da noite ganhou um peso emocional que contrastava com as piadas, danças e provocações dos minutos anteriores.
Após uma pequena pausa, Robbie regressou para o encore ao som de “Feel”, acompanhado pelo público que sabia a canção de cor. Antes de “Angels”, pediu que fossem acesas as lanternas dos telemóveis. Em segundos, o Parque da Bela Vista transformou-se num enorme mar de pequenos pontos de luz. Robbie começou a cantar e deixou parte do tema entregue às milhares de vozes à sua frente.
O refrão tornou-se a catarse coletiva da madrugada. Até o próprio cantor ficou parado durante alguns momentos a ouvir a plateia cantar uma música que lançou em 1997 e que, quase três décadas depois, continua a encerrar os seus concertos como se tivesse acabado de chegar às rádios. Durante a canção foi falando dos filhos, com uma emoção sentida por todos que assistiram ao momento.
Durante 1h40 de espetáculo, houve hits, versões, histórias, piadas e confissões. Robbie Williams chegou a Lisboa a dizer que estava doente e saiu depois de dominar o primeiro dia do MEO Kalorama. Aos 52 anos, continua a haver poucos artistas que compreendam tão bem que um grande concerto pop não se faz apenas de boas músicas. Faz-se também de alguém capaz de agarrar uma multidão e não a largar até à última nota.
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