Música

Roberta Medina: “Estamos a criar um projeto cultural permanente para o verão”

Leia a entrevista com a vice-presidente do Rock in Rio sobre o adiamento do festival, o momento do setor e os planos que tem.
O Rock in Rio também vai abrir um restaurante.

2020 foi um ano perdido para os festivais de música e 2021 está a tornar-se cada vez mais complicado para o setor da cultura no geral. Apesar de haver esperança com a campanha de vacinação que já começou, os grandes eventos exigem muitos meses de preparação e envolvem equipas internacionais.

Depois do NOS Primavera Sound, o Rock in Rio Lisboa adiou nos últimos dias a sua edição deste ano para 2022. No Brasil, onde o festival — de escala maior — estava marcado para setembro, também foi reagendado para o próximo ano.

A vice-presidente do Rock in Rio, Roberta Medina, explica à NiT que o Rock in Rio Lisboa talvez tenha tido o azar de ser um dos primeiros festivais do ano — e que talvez outros eventos já possam acontecer, mesmo que em moldes diferentes. O seu foco, assegura, é o de fazer o que for possível durante este ano, para colocar a indústria a mexer.

Além de ir abrir um restaurante com programação cultural no Parque da Bela Vista, Roberta Medina revela que estão a preparar uma “agenda cultural permanente” que possa ocupar grande parte do verão no Parque da Bela Vista, que inclua música, literatura ou outro tipo de artes. Leia a entrevista da NiT com a promotora do Rock in Rio Lisboa.

Adiar o Rock in Rio Lisboa terá sido uma decisão inevitável. Custou especialmente, agora que existe alguma esperança no horizonte, com a campanha de vacinação?
Custou, acho que custou mais do que no ano passado. Foram dificuldades diferentes. Há 11 meses, quando fizemos o adiamento, o susto era tão grande que me lembro de haver pessoas a dizer que achavam que as Olimpíadas iam ser adiadas, e se fossem adiadas não era o Rock in Rio que ia ser o problema. E rapidamente vimos, naquelas semanas de março, com o problema a escalar e nós enquanto sociedade a tentar entender o que estava a acontecer, não tínhamos grandes caminhos… Estudámos o cenário de passar para setembro, de passar para 2021 e foi para 2021. O que vivemos agora é um cenário diferente. 

Em que sentido?
Passámos 11 meses a criar projetos. A partir do segundo semestre de 2020 pensávamos que as coisas iam passar mais rápido, tínhamos uma série de ideias para que quando as coisas voltassem nós estivéssemos prontos para voltar de alguma forma. Lembro-me de toda a gente achar que as coisas se iam resolver no verão e afinal não era bem assim. Estava toda a gente muito desgastada da incerteza e da criação de cenários em cima de cenários que não se concretizavam. Depois houve um otimismo diferente, e até dezembro esteve tudo muito entusiasmado, talvez equivocadamente, e muitas pessoas já diziam que janeiro seria um mês muito complicado. Mas a maior parte de nós só queria acreditar que ia dar certo. Com a realidade de janeiro e fevereiro, o nosso otimismo tradicional tornou-se mais cauteloso, e começámos a perceber que até março… Quando o presidente Marcelo [Rebelo de Sousa] começa a colocar março em questão, foi o primeiro posicionamento de “ótimo, dê a perspetiva real”. Se é até março, que a gente saiba que é até ao final de março. É muito difícil reajustar o planeamento, enquanto seres humanos, em prazos curtos, sempre a mudar de metas. Naquele momento pensámos: vamos conversar com o governo, para perceber se eles estão a ver alguma coisa de diferente em relação àquilo que a gente sabe. E há duas semanas houve um parecer que disse: “não há nada hoje que nos garanta que em junho um evento da dimensão do Rock in Rio possa acontecer”. E essa notícia vem ao mesmo tempo que estamos a discutir, no setor, eventos-teste, a reabertura. Então foi muito frustrante. E talvez o Rock in Rio estivesse no limiar do que vai ser possível.

Como estava marcado para o início do verão.
Exatamente. Nesta altura já devíamos ter começado a montar a Cidade do Rock, normalmente começamos em fevereiro as montagens, já tínhamos empurrado o cronograma para a frente. Mas independentemente disso o foco é que possamos, enquanto setor e indústria, retomar o quanto antes. Seja do formato que for possível. As energias têm que estar concentradas nisso, porque há muitas empresas a ficar pelo caminho e um setor forte e maduro como o do entretenimento, da música e da cultura em Portugal vinha a estar na última década, isso pode-se perder muito rapidamente. O foco tem de ser voltar a trabalhar o mais rápido possível.

O cão é a mascote da Casa de Pedra.

E por vezes o público pode não ter essa noção, mas um festival da dimensão do Rock in Rio exige muitos meses de preparação. Num ano normal, caso viesse a acontecer em junho, em que fase estaria agora a preparação do festival?
Num ano normal estaríamos aqui a ver as estruturas a subir, da tenda VIP, do Palco Mundo, que são as mais pesadas. Já estariam a entrar os vários contentores para montar a Rock Street, as várias estruturas. É um parque muito desafiante e a quantidade de material que entra para fazer um Rock in Rio é gigantesca. Normalmente, a equipa fica aqui a trabalhar no Parque da Bela Vista durante cinco meses, para garantir que quando abrimos portas está tudo impecável e a funcionar.

As associações que representam o setor dos festivais de música têm-se reunido com o ministério da Cultura para apresentar propostas e discutir possíveis medidas para quando os grandes eventos regressarem. A Roberta vê com bons olhos um festival que aconteça em que o público tenha de usar máscara, que seja necessário ter uma lotação reduzida, com esse tipo de medidas de segurança?
Acho que isso depende muito de cada promotor. No nosso caso, não vejo um Rock in Rio com capacidade limitada de lotação, porque as pessoas procuram a energia da multidão. Um festival com lugares marcados e distanciamento social para mim não é um festival. Pode ser outra coisa, e pode ser maravilhoso — nós, inclusive, vamos tentar fazer projetos assim ainda este ano, porque o mais importante é pôr a indústria a mexer e a força da música é maior do que isto tudo. Mas um festival tem um comportamento específico, as pessoas querem liberdade. Quando no ano passado foram as mobilizações a Fátima, lembro-me de ver uma entrevista em que um jornalista perguntava a uma senhora: quantas pessoas tem ali? A senhora dizia: não sei. Se vocês vieram ao Rock in Rio e eu disser “não sei”, sou presa no momento seguinte. O nível de responsabilização de um promotor é muito alto. Por isso se me disserem que tem de ser com máscara e que a responsabilidade é do promotor, nunca vou fazer um evento assim. Como é que eu faço? Ponho um segurança para cada duas pessoas? Não é viável. Ou é responsabilidade do próprio consumidor, e duvido que isso seja feito dessa forma, porque nunca nada foi assim dentro de um festival, ou é muito difícil encontrarem um promotor que vá correr esse risco. Não estou a ver ninguém que se vá expor a essa legislação que o responsabiliza a ele pelo ato do consumidor final. Acho muito difícil, mas não posso falar por todos. Mas acho que há é muitos promotores que estão dispostos a fazer coisas, a fazer a indústria vibrar da forma que for possível. E vamos torcer para que os festivais que estão marcados para julho, agosto, setembro, o que seja, que possam acontecer um pouco mais próximos da normalidade. A nossa posição hoje é de ajudar quem puder fazer, estamos juntos, queremos ajudar para as coisas começarem a rolar.

Portanto, só se vê a realizar um Rock in Rio quando for possível fazê-lo de forma normal, sem haver limitações por causa da pandemia?
Acho que algumas coisas não vão mudar tão cedo. O copo reutilizável, que adotámos e que deu super certo, tenho dúvidas de que possa voltar tão rápido. Acho que vamos ter mais pontos de lavagem de mãos, acho que os critérios de higiene e saúde vão aumentar. O que é super bem-vindo, não podemos desaprender as coisas positivas. Agora, se me estiveres a perguntar sobre máscaras… Se uma pessoa quiser usar máscara está à vontade, mas se for uma obrigação acho pouco provável. Mas se Deus quiser em 2022 tudo já estará equilibrado, estamos muito confiantes e com uma responsabilidade brutal. Porque a próxima edição vai acontecer quatro anos depois da última edição do Rock in Rio em Portugal. Isso traz uma grande responsabilidade. A sensação que temos é que tudo o que criámos para o ano de 2020 ficou velho e nem aconteceu. Então estamos aqui com uma vibração gigante de criar coisas novas, de surpreender o consumidor. Vai ser absolutamente uma edição épica. E com aquilo que estamos a ouvir sobre o ano que vem, a quantidade de artistas que vão estar na rua, acho que vai ser um ano muito farto de oferta cultural, com muita vibração, um consumidor ávido para voltar a viver estes momentos bons.

E suponho que uma das dificuldades, pelo menos para este ano, caso fosse acontecer o Rock in Rio, é que muitos artistas de diferentes países poderiam estar em dúvida, tendo em conta as diferentes fases da pandemia que cada país atravessa.
Completamente. Não tínhamos ainda nenhum artista que dissesse “não posso ir”, porque como eles trabalham a tour europeia e dependem de muitos países, é quase um quebra-cabeças. Eles estão à espera de ter volume suficiente para fazerem uma tour e isso depende da situação da pandemia em cada país. E vamos tendo conversas, é natural que outros festivais possam não acontecer se as tours tiverem de ser reprogramadas. Vamos ver, esperemos que não seja de forma tão agressiva. Mas, por exemplo, no Brasil, em que o Rock in Rio ia acontecer em setembro, já tínhamos artistas a pedir para não tocar e ficarem para 2022. Depende muito da situação de conforto de cada um dos artistas. E alguns no ano passado disseram logo que só tocavam em 2022. E isso tem muito impacto, porque ficam com as agendas flutuantes e ficam à espera das decisões de 30 promotores para poderem decidir para que lado vão [quando voltarem a atuar].

Pegando no exemplo que mencionou das peregrinações a Fátima, sente que falta haver uma valorização justa do setor da cultura e dos festivais em particular? Que não tem a devida valorização enquanto setor económico, a quem é exigido uma grande responsabilidade, que é visto de forma menos importante?
Nunca entraria nessa discussão de importância da religião, porque toca num espaço muito particular e estabelecido, como a cultura, mas é uma conversa de muito respeito. Acho é que o nível de exigência tem de ser coerente para qualquer setor de atividade. Uma das coisas que mais me faz confusão é porque é que posso estar num avião, dez horas seguidas, perto de pessoas, com a máscara, e porque é que não posso estar num evento cultural com um teste feito? Isso ninguém me consegue explicar, é incoerente na minha cabeça. Eu achava que a pandemia ia mostrar o quão importante a cultura é, porque efetivamente estou convencida, e infelizmente não aconteceu, que a cultura e o entretenimento não são valorizados como bem essencial da sociedade. Muita gente da própria população acha que é um luxo. Se sobrar um dinheirinho é lá que eu vou. E esse raciocínio existe quando tens de comprar um ingresso. Agora, para as pessoas ouvirem música gratuitamente em casa, aí já está tudo bem. Mas está errado: as pessoas têm de entender que aquilo custou a fazer. O consumidor quando tem as coisas gratuitas não dá valor, por isso é um problema de valorização da cadeia comum, o consumidor não reconhece o trabalho que está por trás daquilo. A cultura é essencial e é um trabalho que precisa de ser feito, o entendimento do real papel que a cultura tem na vida das pessoas, para que isso seja valorizado. Porque é claríssimo que não está a ser valorizado.

E enquanto setor económico, são milhares de famílias a depender dos eventos e desta indústria.
Economicamente o impacto é enorme. E quando vais a um espetáculo e pagas imposto, esse imposto pode ser transformado numa escola, em cuidados de saúde, traz movimentação económica. Quando olhas para o Rock in Rio, são 17 mil pessoas diretamente envolvidas na construção do evento. São 370 empresas que trabalham para fazer o Rock in Rio acontecer. É claro que não sobrevivem só por causa de um evento, mas é muito importante. Uma cidade com a sua agenda faz com que haja movimentação, com que o restaurante tenha clientes, que o hotel tenha as suas dormidas, e há outro ponto importante: o turismo. Esse, sim, toda a gente já entendeu que é tão importante para o nosso País. Um dos pilares para o turismo, além da beleza natural, da recetividade das pessoas e das infraestruturas, é a programação. Se a cultura estiver fragilizada, qual é a programação que vai ser oferecida para fazermos uma retoma rápida do turismo? O impacto económico é muito maior do que os empregos diretamente relacionados com a cultura. 

Posto isso, sente que têm faltado apoios do estado ao setor da cultura e dos festivais em particular?
Não tenho conhecimento suficiente para discutir apoios do estado. Eu acho que há tantos desafios, são tantos setores, tantas pessoas que precisam de apoio… Se tem sido feito algo com mais musculatura? Não, não tem sido feito. Se deveria ser feito? Se há condições para ser feito? Não me sinto capaz de fazer essa discussão. Acho que uma grande vantagem na cultura é que ela é feita de empreendedores. E os empreendedores querem trabalhar, não estão a pedir esmolas do estado. Querem que se abram as condições para as pessoas trabalharem. Os apoios são muito importantes, mas não sou eu que vou dizer qual é o setor mais importante nem que dinheiro tem que ir para aquele lado. Mas que é preciso esse olhar sobre a cultura como um setor fundamental para manter a programação das cidades, os estímulos e o olhar para o futuro… Precisa de ser feito mais, mas certamente há especialistas que podem dar mais detalhes do que eu.

A Roberta já disse que gostaria de fazer este ano alguma programação cultural aqui no Parque da Bela Vista, numa escala menor em relação ao festival. Que tipo de coisas é que gostaria de fazer?
Estamos a desenhar um projeto para o Parque da Bela Vista com distanciamento social. A nossa intenção é criar pelo menos durante uma parte importante do verão uma agenda cultural permanente, para pôr a indústria a mexer. Para ter um espaço onde as pessoas possam vir com segurança, que seja uma referência de todos os critérios de higiene e saúde. Com uma programação tão diversa que inclua música, literatura, artes, o que seja. A nossa intenção é que o Parque da Bela Vista possa virar um pólo de alimentar a alma, de vibrar, onde a indústria se possa mobilizar e relacionar-se com o público enquanto esperamos que as condições se normalizem.

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