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Opinião: Ryan Adams, o culpado de todos os pecados de décadas de “má conduta sexual”

O cantor foi o mártir do #metoo no mundo da música, mas todos sabemos o que aconteceu com nomes bem mais sonantes do que ele.
Ryan Adams quando podia tocar ao vivo

Ryan Adams caiu em desgraça em 2019 quando, em pleno auge do movimento #metoo, o jornal “The New York Times” publicou um artigo com testemunhos de ex-namoradas que não tinham grandes coisas a dizer sobre ele. A reportagem dava também conta de trocas de mensagens com raparigas menores, que o FBI prontamente se encarregou de investigar. Esta última acusação, gravíssima, acabaria por não dar em nada, uma vez que ficou provado que a rapariga mentiu sucessivamente sobre a sua idade. Já os relatos das ex-namoradas, aparentemente mais prosaicos, ditaram o fim da carreira de Ryan Adams; não porque ele tenha cometido algum crime, mas sim porque terá sido prevaricador de, cito, “má conduta sexual”. O tribunal? A imprensa musical.

Ryan tentou retratar-se, mas o artigo do jornal causou um terramoto nas redes sociais tao grande que obrigou o artista americano a cancelar a tourné que tinha planeada para a Europa (eu tinha bilhete para o Royal Albert Hall), bem como o lançamento da trilogia de álbuns que estava prevista para esse ano e que à data começava com “Big Colors”, seguido de “Wednesdays” e por fim, “Chris”. Nenhum deles viu a luz do dia em 2019.

Desde então, Ryan Adams tentou reatar a sua carreira, sem sucesso. No ano passado, o leak do álbum “Wednesdays” precipitou o lançamento online do segundo disco da trilogia que tinha programado. Porém, nenhum órgão da imprensa mainstream arriscou sequer fazer uma review do álbum. O disco foi completamente ignorado pela mesma imprensa que o queimou e tornou o réu de todos os crimes alguma vez cometidos no mundo da música. Mesmo que aparentemente ele não tenha cometido nenhum.

Ryan Adams foi o mártir perfeito. Um músico suficientemente conhecido e criticamente laureado para que a imprensa musical o pudesse dizimar e com isso hastear a bandeira do #metoo contra os homens brancos e poderosos; mas não tão conhecido e influente que colocasse em risco a própria imprensa, que não quer ter uma horde de milhões de fãs dos Beatles, dos Stones, ou dos Red Hot furiosos à sua porta. Ajudou também que a maioria dos fãs do Ryan Adams fossem hipsters com demasiada self-awareness social, com medo de sequer questionar os quês e porquês do linchamento que se estava a fazer ao músico. Ai de alguém que arriscasse sair em defesa da música de Ryan Adams. Sim, porque no fim do dia, é de música que estamos a falar.

Atentem, depois de ler a história do “The New York Times” e fazendo fé que é verdade (o que não sabemos ao certo), eu também não iria aconselhar uma amiga minha a sair com o Ryan Adams. Nem teria grande interesse em incluir alguém tao insuportavelmente queixinhas e miserável no meu grupo de amigos (e o mesmo diria da Phoebe Bridgers, mas nem vou entrar por aí). Mas não é de avaliações pessoais que se trata, pois não? Estamos a falar de música. Se é boa (e “Wednesdays” é pelo menos metade excelente) ou má. Podemos julgar para um lado ou para o outro, não podemos é fingir que não existe.

Notem que também não estou a dizer que os órgãos de comunicação social devem ter a obrigação de escrever sobre a música de Ryan Adams. Se querem ignorar por princípios morais, OK, eu aceito. Mas essa é uma espada muito pesada que mais cedo do que tarde se vai virar contra os próprios. É que se Ryan Adams está fora para estes guerreiros sociais, então não é aceitável escrever sobre nomes como: John Lennon (por bater na mulher), Lou Reed (idem), George Harrison (por ser mulherengo), Eric Clapton (idem), David Bowie (mais um réu de má conduta sexual), Iggy Pop (idem), Keith Richards (idem), Mick Jagger, Marvin Gaye, Elvis PresleyAnthony KiedisSteven TylerJimmy Page (todos por se envolverem com raparigas menores). Se não escreverem sobre nenhum destes, nem sobre todos os músicos que alguma vez foram acusados por alguma mulher de “má conduta sexual” (#believeher, nunca esquecer), vão ter a vida muitíssimo dificultada, mas respeito. De outra forma, estão a incorrer numa terrível hipocrisia.

Ou então façam uso da vossa liberdade para falar na música do Ryan Adams, dizendo tudo o que vos vai na alma, chamando-o de porco se quiserem, mas reconhecendo a sua existência, como fazem com os outros. Passado o turbilhão do #metoo, Ryan Adams foi praticamente o único que no mundo da música pagou por todos os pecados de décadas de, citando, “más condutas sexuais”. Todos sabemos o que aconteceu com nomes bem mais sonantes do que ele. 

Voltando ao que interessa, à música, Ryan Adams prepara-se para lançar aquele que supostamente seria o primeiro volume da sua trilogia programa para 2019 – “Big Colors”. Esta semana já pudemos ouvir uma amostra – “Do Not Disturb” -, um slow burner que é muito mais entusiasmante que o primeiro tema deste disco que conhecemos em 2019 – “Fuck The Rain” (que entretanto desapareceu de todas as plataformas online). Fico ansiosamente à espera de mais novidades de “Big Colors”, especialmente depois de ter ficado rendido a “Wednesdays” no ano passado. Se estão hesitantes em ouvir a música de Ryan Adams por causa do que ele terá ou não terá feito há dez anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt – “Confiem na arte, nunca no artista”. Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo

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