Música

Sam The Kid: “Custa-me cada vez mais escrever uma rima. Porque me quero surpreender”

A NiT falou com o rapper e produtor que este ano vai dar vários concertos especiais. E tem mais do que um disco para lançar.
Foto de Maiur Narendra

Depois de vários anos a atuar ao lado de Mundo Segundo, e enquanto membro da banda Orelha Negra, em 2019 Sam The Kid decidiu voltar a tocar em nome próprio. Vimo-lo acompanhado por uma orquestra, convidados especiais e pelos companheiros de Orelha Negra. O objetivo, assume, era motivar-se a atuar simplesmente enquanto Sam The Kid, algo que já não acontecia há muito tempo.

Os dois concertos que fez, nos coliseus de Lisboa e Porto, foram um enorme sucesso. Os espetáculos esgotaram rapidamente, a energia foi contagiante e Sam The Kid atuou de forma emocionada (e imaculada) através de um alinhamento que atravessou a sua vasta discografia — a NiT assistiu à atuação no Coliseu dos Recreios.

Agora, Sam The Kid prepara-se para fazer uma série de espetáculos idênticos em eventos de outros promotores. Vai atuar a 27 de maio no Campo Pequeno, em Lisboa (os bilhetes estão à venda entre os 20€ e os 26€). A 8 de outubro, toca na Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, concerto para o qual existem ingressos disponíveis entre os 24€ e os 26€. Pelo meio, o rapper e produtor vai apresentar-se no festival Sol da Caparica, no Vodafone Paredes de Coura e, possivelmente, noutros eventos.

Para quem não está tão familiarizado com a cultura hip hop em Portugal, Sam The Kid pode parecer pouco ativo, uma vez que o seu último disco de rimas e instrumentais foi lançado em 2006. Falamos de “Pratica(mente)”, aclamado como um dos álbuns do ano e que com o tempo conquistou um estatuto de clássico. Algo que não podia estar mais longe da verdade.

Desde então, tem deixado os seus versos em dezenas de faixas com outros artistas — e regressou aos temas a solo em 2018, quando apresentou “Sendo Assim”, música que concluiu a sua compilação “Mechelas”, onde produziu canções para outros rappers.

O projeto foi lançado através da sua TV Chelas, plataforma lançada em 2016 onde partilha inúmeras pérolas do seu arquivo pessoal, que tantas vezes se confunde com a própria história do hip hop português. Além de gravações inéditas, cria conteúdos próprios como podcasts, entrevistas e rubricas. Sam The Kid nunca esteve tão ligado ao seu público como nos últimos anos.

Enquanto produtor, mantém-se ultra ativo. Depois de em 2019 ter lançado o disco homónimo de Classe Crua — dupla que forma com o rapper Beware Jack —; em 2020 lançou o disco instrumental “Caixa de Ritmos”; e em 2021 o álbum de remisturas “Um Café e a Conta”, de tributo a Valete.

Há um mês, lançou outro disco, desta vez em colaboração com os GROGNation, intitulado “Anatomia de GROG”. Também há uma versão instrumental. E vêm aí muitos mais: estão previstos projetos com o rapper Blasph e o DJ Nel’Assassin, além de outras remisturas e compilações construídas a partir do seu espólio e arquivo. Ao longo dos últimos anos, tem também construído — música a música — um disco conjunto com o parceiro Mundo Segundo. “Linguagem Marginal”, apresentado em fevereiro, é o mais recente single desse projeto.

Entre isto tudo, Sam The Kid arranjou tempo para ser um dos fundadores da associação Chelas é o Sítio — que trabalha no bairro lisboeta para promover iniciativas culturais, dinamizar ações sociais e manter o nome de Chelas no mapa. Este ano assumem a curadoria do Palco Yorn do Rock in Rio Lisboa, depois de já promoverem sessões “Prata da Casa” na Casa de Pedra do Parque da Bela Vista.

Leia a entrevista da NiT com Sam The Kid, que parte do regresso aos concertos para abordar muitos outros temas. Afinal, Samuel Mira é um artista de múltiplas facetas e vertentes, e é inegável o entusiasmo com que abre cada uma das muitas gavetas da sua carreira e legado.

Este é o formato de concerto que apresentou em 2019, ou terá ligeiras alterações?
O formato raiz de ser Sam The Kid, Orelha Negra e orquestra. Mantêm-se. Haverá algumas diferenças a nível do alinhamento, de convidados, momentos que serão inseridos nos ensaios para ver como é que resulta, novos arranjos. Essas são algumas das novidades. Mesmo que fosse igual estaria com a mesma motivação, porque só foram duas vezes muito especiais. 

Pode revelar alguma novidade sobre os espectáculos?
Poderei dizer que quero — ainda não está posto em prática — que o meu pai tenha uma participação um pouco mais presente. E haverão convidados surpresa — que ainda não quero revelar, porque até ao dia nunca se sabe. A nível visual, de vídeo, também estamos a preparar uma coisa diferente, embora algumas se mantenham iguais.

Já o ouvi dizer que se emocionou nos concertos de 2019. Teve a ver com a reação do público? Surpreendeu-o?
Sim, é a reação do público juntamente com a emoção da música. Porque, quando tocamos com banda — e ainda por cima com uma orquestra —, as emoções amplificam-se. O que é triste fica mais triste, o que tem power fica com mais power, e com o feedback do público uma pessoa fica desarmada. E não estava preparado para estar tão desarmado dessa forma. Ou seja: de quase não me conseguir conter. Principalmente quando as coisas estão a correr bem. Quando correm bem deixamo-nos levar pela emoção da cena, que ajuda a tornar a experiência incrível. Porque se acontecer um grande prego ou uma branca, de repente tens que pôr os pés na terra e a emoção tem que desaparecer um bocado e pode até cortar um pouco o feeling para o artista. Como correu bem, isso fez com que minhas emoções tenham estado num nível no qual nunca tinham estado em palco… na minha vida, sinceramente. Uma emoção constante. Já chorei em palco, no Musicbox, há uns anos — tinha feito anos, também foi um misto de emoções.

Foi um concerto que deu com o seu pai?
Não, curiosamente foi um concerto do Bob da Rage Sense e era com banda. Era uma música que tenho com ele que se chama “O Show Acabou”, que é meio triste e naquele dia eu fazia anos — e quando uma pessoa faz anos tem as emoções à flor da pele. Foi no ano em que o Snake faleceu e ele estaria comigo naquele momento. Não consegui, e fui-me abaixo. Mas passado uns momentos já estava melhor. Nos coliseus, principalmente no primeiro, o de Lisboa, mal entrei em palco estava assim e fiquei assim durante praticamente o concerto inteiro. Ao mesmo tempo, também me propus a isso. Nos ensaios também me emocionava bastante — mas conseguia conter-me mais, de forma a que as pessoas não reparassem muito. No concerto aconteceu mesmo durante muito tempo. É uma grande sensação, é uma coisa bonita, não estamos ali a chorar tristezas.

Teve a ver com o facto de não atuar em nome próprio há muito tempo?
Teve a ver com isso, com nunca ter atuado numa produção própria… Já atuei como Sam The Kid muitas vezes sozinho — sem ser com o Mundo Segundo como nos últimos anos [risos] — mas quase sempre inserido num cartaz com mais artistas. Essa foi a primeira vez que posso dizer que foi de produção própria e, sem primeira parte, em que posso dizer que todas as pessoas estão ali para me ouvir. Isso dá-te uma sensação boa, porque as pessoas gostam do teu trabalho, já não tens de as conquistar porque estão ali para celebrar contigo, então ficas mimado.

E também foi isso que o motivou a querer fazer estes espetáculos e outros que poderão vir? Ou já estavam planeados e foi a pandemia que os interrompeu?
Sim, já estavam planeados, neste sentido: ‘fizemos a produção própria, agora vamos vender a outras companhias e festivais que queiram comprar o espetáculo’. O que resultou em que algumas datas esteja inserido naquilo que sempre estive habituado, que é um cartaz variado. E aí também se está bem — se calhar metade está ali para mim, outros estão para serem conquistados porque nunca estariam à espera e gostaram. Também vivo bem com isso, sei para onde vou. É uma versão diferente de levar a intimidade que foi vivida com as pessoas que gostam de mim, mas agora vamos misturá-las com outras que podem não estar tão por dentro. Mas noutros casos, como no Campo Pequeno — foi a Everything is New que promoveu o concerto —, só eu é que estou no cartaz. 

Esses concertos de 2019 também serviram de motivação para se apresentar em nome próprio? Era algo que já não fazia há muito tempo e obviamente que o poderia ter feito, se quisesse.
Sim, é isso mesmo. O objetivo seria esse, para ver se me sentia confortável para dar concertos em nome próprio — apesar de ter convidados, obviamente.

E muita gente em palco.
O objetivo era eventualmente abandonar a orquestra e seguir só com a banda de Orelha Negra. Mas por acaso as ideias que estou agora a ter para um futuro próximo ainda não serão de abandonar a orquestra. Serão uma espécie de nome próprio mas que ainda não posso divulgar porque é muito precoce falar disso. Não quero abandonar a orquestra tão cedo. Já que vivi esse momento das minhas músicas, dos álbuns de Sam The Kid, também gostaria de fazer esse espetáculo baseado na minha vertente de produtor, com imensos convidados. Mas claro que as pessoas têm que saber para o que vão — isso às vezes é que é a parte difícil, quando toca às outras coisas que faço.

Como Sam The Kid DJ set.
Eh pá, esse tipo de cenas é sempre complicado [risos]. “Ah, pensava que ias cantar, pensava que ias fazer isto ou aquilo”. Mas o meu objetivo é mesmo educar, se tu não sabias, agora passas a saber. Isso acontecia com tudo. Ia tocar com Orelha Negra e dizerem-me que pensavam que ia tocar o “Solteiro”… Mas em geral acho que está melhor, tenho sentido isso. A última vez que senti foi no Sumol Summer Fest na apresentação do “Mechelas”. Acho que as pessoas não perceberam bem o que se ia passar. Estavam mais à espera que fosse um concerto meu normal, com alguns convidados. Tenho a noção de que nem toda a gente faz parte do movimento ou está a par da compilação, também compreendo — mas a coisa foi comunicada.

A próxima edição do Rock in Rio Lisboa que vai ter um Palco Yorn com curadoria da associação Chelas é o Sítio. É uma ligação importante para si?
Claro que sim. Até foi uma aliança que deu frutos ainda mais rápido do que estaria à espera. Enquanto associação fazemos um ano a 5 de maio e já demos muitos passos importantes que, como acredito na meritocracia, é mostrar trabalho e seguir para o próximo passo. Enquanto não fizermos isto, não merecemos aquilo. E, por acaso, na altura recebi um convite do Ricardo Comprido do Rock in Rio que me pediu durante a pandemia para fazer uma curadoria na Casa de Pedra no Parque da Bela Vista e achei que, como estava a coincidir com a abertura da associação, achei que seria importante, mais do que ser em meu nome, ser em nome da associação. E não ser especificamente o meu gosto pessoal ou o meu co-sign. É algo mais importante do que isso. Fizemos algumas datas lá e o sonho seria levar esse conceito ”Prata da Casa” para um palco no Rock in Rio. E aconteceu logo muito rápido. A curadoria não se baseia só em artistas da zona: é misturar com artistas que estão agora a viver o sonho. É bom pormos as pessoas lado a lado, porque elas sentem-se gratas e próximas do sonho, e sabemos como é que às vezes funciona o network no backstage, uma coisa leva à outra, participações… É uma parceria que tem estado a correr muito bem e que ainda irá dar mais frutos depois do evento, é uma coisa contínua que também tem uma parte social.

O alinhamento do palco Yorn é escolhido por si e por outras pessoas da associação?
Sim, é escolhido pelo pessoal da associação. Claro que há pessoas mais inclinadas para a música como eu e o [Nuno] Varela, e deixamos o resto do pessoal sugerir nomes e depois também vamos premiando as pessoas que já estiveram connosco noutros eventos, mais propriamente na Casa de Pedra.

Em relação ao projeto “Anatomia de GROG”, feito em colaboração com os GROGNation, a ideia inicial era lançar tema a tema e depois culminar desta forma num disco?
A ideia arrancou há muitos anos. Se calhar, inicialmente era mesmo para ser um álbum maior, mas com o tempo percebemos que as faixas são estas e mais nada. Mas, por acaso, até existem pelo menos duas músicas que ficaram de fora. 

Terminadas?
Quase, com as rimas… Alguma coisa ali estava a falhar, insisto e insisto, mas se aquilo não está a resultar, olha… Às vezes, algumas músicas são uma dor de cabeça: agora vamos testar outro refrão, agora vou mudar o beat porque são cinco pessoas e já está a enjoar um pouco. E aí até sinto que é falha minha, a parte deles do trabalho foi feita. Mas enquanto produtor houve ali uma música ou outra com as quais não consegui ficar satisfeito.

Também deve ter sido mais desafiante por serem cinco.
É muito desafiante e diferente. São muitas pessoas, tens de tentar que uma música aguente tanto tempo. E, às vezes, também é preciso dizer: nem todos vão entrar em todas as músicas. Mesmo naquela que entro [“Body”], sabendo que ia ter um verso muito longo, até sugeri, para não ser desigual, “se quiserem que entre só um de vocês para rimar o mesmo tempo que eu…” Porque já sabia que iam dizer “o Sam matou” porque estou a rimar durante bué tempo e estou no fim. Na realidade, estes dois últimos vídeos que saíram já estão na gaveta há muito tempo. É um trabalho que estava pronto há algum tempo, eu sempre a apertar com eles, e como eles também estão a ter caminhos de carreira a solo, que os leva de forma natural para uma outra cena… Se calhar, o foco e, principalmente, a prioridade não passa tanto por ali. Mas isso é natural. Por exemplo, posso falar de Orelha Negra e nós estamos há anos a tentar a conta gotas que saiam sons da mixtape, que antigamente saía no ano seguinte. E continuamos a ser todos amigos do coração e falamos diariamente. Não tem a ver com bad vibes nem nada disso, é a vida, é normal. Mas estou feliz, foi uma cena que lhes propus já há muitos anos. Aos poucos eles iam a minha casa para trabalhar naquilo e depois, às vezes, ia um beat para este álbum e outro para aquele. Mas para mim é muito importante esse desafio. Por exemplo, produzir Classe Crua é com uma pessoa. Aqui é um grupo. Também me dá essa experiência de vida enquanto produtor. Mesmo a nível criativo. Lembro-me quando saiu o primeiro som, “Pescoço”, o Slow J deu-me uma dica de props de ele saber o que é estar nessa posição e respeitar as minhas decisões de dinâmica da estrutura da música para aquilo se manter interessante.

Tem-lhe dado mais gozo produzir a canção toda, em vez de fazer só o beatmaking?
Exatamente. E, às vezes, mais do que isso. Neste caso o conceito veio deles — o nome das músicas e o alinhamento. Mas, por exemplo, em Classe Crua já interferi mais: estamos a ir por um caminho marítimo, deixa-me acabar isto aqui ou ir por aqui. Ou o trabalho que estou a fazer com o Blasph, que tem uma temática específica.

O Blasph partilhou umas fotografias com o nome “Veludo”. É o título do projeto?
Sim, é o nome do projeto. 

Drumless beats, estilo Roc Marciano?
Não só. Há pessoal que vai estar mais à espera disso do que realmente irá encontrar. Isto é uma cena que está para sair em breve, e será uma obra de duas partes — e cada uma é relativamente curta, ou seja, não são álbuns muito longos. Vai sair em dois atos.

Também já disse que gostava muito de produzir um disco para a cantora Amaura. É algo que ainda se vai proporcionar?
A Maura levou alguns instrumentais meus, mas sinceramente, como ela está tão bem direcionada e focada no trabalho dela, por alguma razão as coisas não se têm estado a encaminhar. Mas não quer dizer que não aconteçam no futuro. Em comparação com outros artistas, por exemplo, mando um beat ao Beware Jack, ele grava uma demo e o entusiasmo vai-se gerando. Tenho outro trabalho que vai sair em breve, com o DJ Nel’Assassin, que também não foi muito pensado. Saiu de uma jam em que deixei lá bué beats. Vão ser instrumentais meus e cuts dele. Vai ser beat e scratch — mas com scratch muito presente. Se calhar não me lembrar-me-ia de isso acontecer, mas como deixei lá aquilo, e ele foi-me mandando “olha eu em cima deste beat”, isso faz com que o entusiasmo… E é assim que as cenas andam. E tenho mais projetos na gaveta que estão a meio.

Tem muitos projetos que nunca chegou a concretizar?
Sim, com a Marta Ren, o Nerve, o Xeg, imensas pessoas.

Coisas que, naquele momento, não foi possível concretizar?
Exatamente. 

Também falou no ano passado, numa entrevista à Mega Hits, sobre uma faixa com o Gabriel O Pensador. 
Tenho andado a dormir porque a bola está do meu lado, eu é que tenho de lhe enviar uma coisa. É uma coisa que quero fazer, tenho a demo da cena, é um tema com o qual fiquei muito feliz, mas seria para o trabalho dele. E há a hipótese mesmo de fazermos uma cena em conjunto, mas isso é muito precoce. Ainda tenho tanta gente em stand-by.

No meio disto tudo, tem receio de se deixar as suas criações para trás?
Na realidade, acaba por ser a minha sina. Mas uma sina agradável. Como a maneira como crio não pode ter esse tipo de pressão, a minha cena fica sempre para segundo plano, vou acrescentando uma vírgula aqui e ali, é mesmo um longo e longo prazo. Às vezes não é bom, mas tento recolher a parte boa desses frutos do longo prazo. Para me pôr à frente teria que dizer a alguém: olha, agora não posso porque estou a trabalhar na minha cena. Estou a dizer atualmente, porque no passado resultou sem grandes problemas. Atualmente, por alguma razão, isso não resulta. E também estava a produzir imensa gente e a fazer o ”Pratica(mente)”, a banda sonora de ”O Crime do Padre Amaro”, Madvision, imensas cenas.

Tem a ver com a vida também.
Tem a ver com a vida. Sinto que se deixasse alguém para trás, dizendo que estava a trabalhar no meu álbum, iria estar a criar pressão sobre mim. ”Samuel, aperta contigo, força, acaba isto para o ano”. E não consigo fazer isso assim. Tenho tantas coisas que ainda quero fazer, mesmo a nível musical. Claro que essa saga já merecia mais do que um disco, mas custa-me cada vez mais escrever uma rima… Não é que esteja enferrujado, é mais pela minha exigência e por não me querer repetir. Quero-me surpreender. A fasquia está muito alta.

E é diferente de escrever rimas para uma participação com outro músico.
Exatamente. Quando uma pessoa faz uma música sozinha vai ter mais tendência para ser introspetiva, existem coisas sobre as quais não faz sentido falar com outras pessoas. Embora tenho mudado de ideias em relação a isso. Introspetivo sozinho é sempre aquela viagem em que ganhas mais pontos, tipo um “Sendo Assim”. Se fosse um feat com outra pessoa, não era a mesma coisa. Se entrasse o Mundo Segundo no segundo verso, ele está a interromper a minha viagem [risos], não tem o mesmo statement. Mas não quer dizer que não resulte. Tive um bocado esse medo com o “3,14”. Eh pá, estamos aqui a ser introspectivos. A música resultou bem mas e, se fosse o Slow J numa música, e eu sozinho noutra? Será que não teria ainda mais power? Nós, juntos, é outro tipo de power e statement. É uma questão de escolheres qual é o power que queres transmitir.

Falando do disco com o Mundo Segundo, lançaram a faixa “Linguagem Marginal” recentemente. Já têm um número de faixas definido?
Temos umas quantas na gaveta, já feitas, é só decidir.

O álbum, se vocês quiserem, até pode só ser lançado em 2050.
Sim, e não tem problema. Isso até está um pouco em voga. Ao mesmo tempo, sinto que anualmente temos cumprido, temos picado o ponto todos os anos [risos]. 

O público também já se habituou ao ritmo desse projeto e não está propriamente ansioso por um álbum.
Sim, é mesmo isso, nem tem que estar do género “que músicas é que lá estarão?” Quando  o álbum sair, tu já as conheces todas, como foi no caso de GROGNation. É como se faz atualmente, mas é como já fazíamos antes de se ter tornado tão atual como é agora [risos]. O Valete também anunciou o álbum “Em Movimento”, o Holly Hood a lançar som a som… Mas atenção que, enquanto produtor, vou conseguindo usufruir das duas coisas. Consigo lançar o “Anatomia de GROG”, que foi som a som, mas lanço Classe Crua e as pessoas conseguem ter a experiência completa — e com o Blasph vai ser a mesma coisa. Também acho isso muito importante, com tudo o que ganhas e perdes. É uma decisão.

Sobre o ”Beats Vol. 2”, já disse várias vezes que o disco está praticamente pronto. Tem a ver com aquele espírito de “ainda pode ficar melhor, ainda vamos a tempo”?
Sim. É e não é. Ou seja, acho que neste momento está só à espera que me foque para o terminar. Porque entretanto apareceram umas três ou quatro batidas que gostaria de substituir. Há outras que o tempo vai passando e para mim são intocáveis, estão lá.

Resistiram ao teste do tempo.
Para mim resistiram e adoro aquilo que me transmitem. Acho que é mesmo só isso, uma questão de me decidir: olha, estou pronto para isto. Sei que é inadmissível o tempo que já passou [risos], mas ele existe e vai sair, tenho a certeza absoluta. As cenas que digo muito raramente não acontecem. E quando acontecer quero que esteja mesmo uma coisa boa, que diga: é mesmo isto, estou a sentir que esta é a altura.

Tem a ver com a necessidade de entusiasmo, que referia há bocado?
Exatamente. Se tiver que acabar porque tenho que acabar, não é a mesma cena. Por isso é que é o “faz porque queres e sentes, não porque deves e tens” [risos]. Porque, se não, estamos ali a cumprir calendário. Só fiz isso mais com Orelha Negra, quando tínhamos um álbum, e para criar repertório, é importante criar um deadline. No meu caso, como não meto deadlines, as coisas saem quando têm que sair. Mas quando acontecem… A própria TV Chelas foi uma cena que se foi adiando e adiando. Depois decidi: esta é a hora. E ficas focado naquilo, vais dormir a pensar naquilo. Isso é muito importante e tens que esperar que esse foco e entusiasmo chegue. E sei que ele vai chegar ao ”Beats Vol. 2”.

Já que mencionou a TV Chelas, a sua vertente de arquivismo tem a ver com a necessidade humana de deixar legado e permanecer na história?
Sim, é um sítio onde podes recorrer a algo que está registado, onde podes aprender alguma coisa, tirar uma dúvida. Mas ao mesmo tempo a cena de ficar na história… é ficar na história enquanto estiver, porque nunca sabemos o dia de amanhã. Às vezes pensamos que as pessoas ficam imortalizadas com uma estátua, o nome de uma rua… Mas nós não conhecemos a obra dessas pessoas. E o mais importante é isso, mais do que um nome. Está bem que, pronto, é o máximo que eles podem fazer. Mas por acaso achei que já podíamos estar num nível digital em que andamos na rua, carregava na rua e via algo dessa pessoa [risos]… Claro que posso sempre ir ao Google. Há aqui uma rua perto que é Atriz Palmira Bastos. Nunca vi um filme dela… Conheço o nome por ser da rua. Mas o que me vai inspirar será sempre a obra.

O que faz na TV Chelas é registar a obra.
Sim, mas mesmo assim nunca sabemos o dia de amanhã, se há alguma coisa que faz com que o arquivo desapareça todo [risos]. É complicado. Mas, pelo menos, que seja perpétuo enquanto possa. A tentativa é essa e que de alguma forma tente inspirar.

Quando gravava vídeos nos anos 90, concertos ou simples momentos no seu quarto, já era com esse intuito de registar?
Não sei bem responder a isso, não tenho essa memória. Porque mais do que legado público, é mais pessoal, família e amigos [risos]. Sempre vi a cena dessa forma. Aliás, a capa do ”Pratica(mente)”… para mim o slogan daquilo é ”para mais tarde recordar”. As pessoas não conhecem algumas das pessoas que ali estão, mas como eu conheço, é para mim e aquelas pessoas recordarmos aquele momento no tempo.

Como um álbum de fotografias ou uma cassete VHS gravada por familiares.
Exatamente. Com o público não tinha essa noção de que seria uma coisa de que as pessoas teriam interesse. Apesar de confiar nas minhas cenas e de ter sonhos, não me lembro de pensar nisso. São hábitos que se foram criando. Eu era aquele bacano que as pessoas iam ao meu quarto e punha uma VHS com o programa que deu ontem, porque deu o videoclipe do não sei quem. Sempre fui esse bacano, o gajo que tem as coisas e que partilha e que pesquisa e que tem tempo a mais para essas coisas. Atualmente isso ainda se mantém, com a “Flawless Radio”, por exemplo. Sinto que a minha pesquisa — que é natural — aprofunda um pouco as coisas que sei que algumas pessoas não conhecem.

Já falámos de várias facetas criativas e o Sam referiu agora outra, o programa “Flawless Radio” na Antena 3. Tem alguma que ainda não tenha explorado e queira muito explorar?
Sim, também tenho um projeto em stand-by que é fazer um filme. Não será uma longa-metragem, é uma média, com a respetiva banda sonora. 

Será o Sam a realizar?
Exatamente, enquanto obra de ficção metafórica. Como se fosse “O Recado”, que é uma metáfora, e este aqui também é. Está em stand-by porque precisa do meu foco. O ponto de partida foi: quero fazer a banda sonora de um filme que não precisa de existir. 

Instrumental?
Sim, mas por acaso com o tempo tenho andado a ponderar se poderá vir a ter uma música ou outra — porque pode ser um híbrido. Mas depois pensei: e porque não fazer mesmo o filme? Tem a ver com Chelas e preconceito, também terá essa parceria com a Chelas é o Sítio. É uma coisa que quero pôr em prática. É juntar as pessoas certas para fazerem aquilo que não consigo e que nem vale a pena ser eu a fazer. No “Primeira Vez” é onde tenho essa experiência mais próxima da realização, de ter uma equipa e dizer “ação” e “corta”. Tens de estar consciente de tudo o que se está a passar.

Os projetos na mira de Sam The Kid

Além dos projetos já mencionados, Sam The Kid falou com a NiT sobre outras iniciativas que tem em mente. Na TV Chelas, depois de desvendar como construiu a compilação “Mechelas”, agora vai fazer a rubrica “Vamos por Partes” dedicada ao seu álbum “Pratica(mente)”, editado em 2006. Uma vantagem é que tem muitas gravações da altura.

Quanto a discos, planeia lançar uma compilação com os melhores instrumentais que, ao longo dos anos, cedeu a outros artistas. Será apenas um beat por rapper e a ideia é que seja a versão original do instrumental — que nem sempre corresponde àquela que ficou para a história, registada em disco. Isto terá uma ligação direta com o tal espetáculo que pretende fazer focado na sua vertente enquanto produtor. Além disso, deseja lançar um disco de instrumentais de remisturas que assinou ao longo do seu percurso, como as que fez para os Xutos & Pontapés, Capicua, Beware Jack com Bling Projekt ou Mundo Complexo.

Depois de no ano passado ter homenageado Valete com “Um Café e a Conta”, disco de remisturas livres onde recriou várias músicas do rapper com novos instrumentais, agora pretende fazer o mesmo mas com um género musical: soul e R&B português.

“Para mim era um grande desafio, adoro. No caso do Valete tinha que estar à espera dos acapellas. Mas agora já tenho ferramentas em que consigo ter as capelas de qualquer música que quiser. Abro um novo universo. Então tenho estado já a fazer algumas experiências. E tentar ouvir artistas que se calhar nem consumi os álbuns deles — mas sabes que têm soul neles. Se calhar o beat está meio pop, ou tentares ir a uma cantora tipo Dora, uma cena dos anos 80 em que não está propriamente a cantar uma cena de R&B, mas transformares aquilo em R&B”, explica Sam The Kid.

E mantém-se, claro, a ambição de produzir na íntegra um disco para um cantor de soul ou R&B — Marta Ren e Amaura foram as pessoas de quem esteve mais próximo de cumprir essa meta. “Estou quase a fazer um casting, porque é uma cena que curtia mesmo bué [risos], produzir um cantor ou uma cantora, é uma cena que me falta.”

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