Música

Sam The Kid: “Não sou patriota, nada contra, respeito isso, mas eu sou é de Chelas”

De Chelas para o mundo, Sam The Kid é um tipo orgulhoso da sua terra e feliz com a sua arte. A NiT falou com ele.
Vem aí novo single, com banda original.

Foi na Chelas natal de Sam The Kid que a arte urbana deu toda uma nova cor a um dos espaços mais icónicos desta zona de Lisboa. A NiT esteve por lá e aproveitou para falar com o rapper numa altura em que há novo single à espreita, um tema que o volta a juntar a Daddy-O-Pop, antigo parceiro dos Official Nasty, o grupo onde a história do rapper e produtor mais influente do País começou.

Há 14 anos que não há um álbum em nome próprio de Sam The Kid, enquanto rapper e produtor. “Inadmissível”, admite o próprio, mas não sem confessar que se sente feliz. Em todo este tempo, nunca parou, entre diferentes projetos e colaborações.

Numa altura em que o nome Chelas é substituído, nalguns casos, por Marvila (o nome da freguesia), o rapper fala de como o nome de uma terra não se apaga. O que se faz é mudar a história. É isso que ele continua a querer fazer por Chelas. Foi por isso que se juntou ao projeto da Hoopers de dar nova vida ao campo de basquetebol que por aqui ficou conhecido como Chicago, em tributo aos Bulls da era de Michael Jordan. Tudo isto é história. Algo que ele nunca deixou de fazer pelo hip hop nacional.

Este é um espaço com muita história?
A maior parte do pessoal da minha geração sempre jogou aqui e sempre teve muito carinho por este sítio. Mesmo quando a tabela estava morta no chão reconstruíam e pintavam. Tenho muito apreço por este sítio. Não sou exatamente daqui, sou da zona I, mas conheço muito bem este lugar, já gravei aqui videoclipes e dou-me muito bem com o pessoal todo. Andámos todos no liceu D. Dinis. Agora mais recentemente, isto da pandemia fez com que esta geração, que já está nos quarenta, se voltasse a reunir aqui.

Jogava basquetebol aqui?
Joguei algumas vezes mas para ser sincero não vivo tanto o desporto como estes meus amigos, não estou tão por dentro do basquetebol. Tenho as minhas camisolas, do Penny Hardaway, dos Orlando Magic, mas estou longe do fanatismo dos meus amigos, tenho de respeitar essa distância.

Quão importante é uma iniciativa destas?
É muito, muito importante este tipo de iniciativas. A meu ver são só positivas, divulgam a zona e numa altura muito importante, até para termos o nome Chelas gravado no chão, que existem poderes que querem alterar isso.

O rapper à conversa na sua Chelas natal.

É uma mudança de imagem?
Há o estigma de certos nomes, de certos bairros, associados a coisas negativas. Depois há poderes que tentam mudar para um nome novo para ver se varrem para debaixo do tapete. A solução não é essa, é fazer coisas boas, com o mesmo nome de sempre, para equilibrar. Porque mesmo que mudes os nomes, os media muitas vezes puxam o nome antigo quando algo for mau. Se alguém for roubado aqui não vão dizer Marvila. Se alguém for roubado na Zona J, que mudou para bairro do Condado há mais de dez anos, vão dizer Zona J. Por isso temos de puxar esses nomes também quando a coisa é boa, por motivo de orgulho, e para passar a mensagem às pessoas de fora. É normal as pessoas terem orgulho no seu bairro. Vemos isso nas Marchas de Lisboa.

Quem é daqui não mudou a forma de falar de Chelas. Como reage a comunidade a esta ideia?
A palavra que se usa nestes momentos é gentrificação. Mas se quisermos ir ao início dessa mudança, é preconceito. É uma tentativa que vem de há muito de diferentes poderes políticos. Vem até do filme “Zona J”, de 1998. Um presidente e a sua respetiva comitiva de moradores de mentalidade retrógrada vieram com soluções que não são eficazes. Era a Zona J, a Zona I, a Zona L, por aí fora, e os bairros passaram a ser bairro da Flamenca, bairro do Armador, do Condado, de Lóios… Mesmo nessa altura o pessoal ficou chateado. Tenho isso em rimas minhas mas isso [dos novos nomes] nunca colou. Nem os nossos filhos usam isso, dizem Zona I, Zona J, à mesma. Foi o próprio presidente que me confirmou que a cena do nome foi pelo filme. Mas isso é uma estupidez. Gosto de fazer a comparação: e se fosse o País? Imaginem: o País está queimado, quem faz turismo em Portugal é raptado. Para limpar [o nome] deixamos de ser portugueses? Mas há uma segunda razão.

Qual é?
A imobiliária. É posterior mas alia-se perfeitamente com o preconceito. Se pesquisares um quarto ou uma casa na mesma rua, mas uma diz Chelas e a outra Marvila, os valores são diferentes. É engraçada a situação imobiliária. Quem olha para isso são pessoas com uma mentalidade que eu não tenho. Olham para o mapa de Lisboa como se fosse o jogo do Monopólio. “Se eu morar aqui pode ser mais valioso, vamos mudar as placas.” Aconteceu com a Musgueira, que passou a ser Alta de Lisboa, que é um nome mais pomposo. O que é que acontece? Se calhar houve quem reparasse só quando olharam para trás. Aqui não. E antes que seja tarde demais, vamos fazer algo sobre isso. Não é teoria da conspiração: há uma agenda e há provas.

É algo deliberado?
Queres a prova de que há uma agenda? Um amigo meu quis abrir uma barbearia aqui em Chelas, que se chamaria Chelas Cuts. Foi a uma associação de moradores do bairro que quer mudar o nome e disseram-lhe não. “Tu podes chamar Cuts de Bruxelas, o que quiseres, mas não Chelas.” É agenda: é em Chelas e não se pode chamar Chelas. É irónico que, mesmo quem faz isso, de puxar o nome de Marvila por ser uma palavra mais valiosa, às vezes fazem o mesmo a Marvila.

Como assim?
Nessa hierarquia a palavra Oriente ainda é mais valiosa. Depois tens gente de Marvila a queixar-se que não é Oriente. “Ah, agora já sabes o que é sentir na pele, é isso que nos fazem.” No aspeto imobiliário Oriente ainda é mais valioso. Mas e se fosse com vocês?

É uma questão de identidade.
Isto é um bairro com 40 e poucos anos. Nós, os desta geração, somos, de facto, os verdadeiros filhos de Chelas. Os nossos pais, os nossos avós, alguns estão a vender as casas, a ir para as suas terras, que é onde querem morrer. A terra é o que às vezes nos identifica. E nós temos Chelas. Nascemos aqui, é a nossa raiz, não nos tirem isso só para venderem uma casa a quem também não é daqui. É cultura. Imagina um bailarico que há todos os anos de santos populares mas precisas de assinaturas. Se calhar és um novo casal que vem para aqui e pensas: “um bailarico aqui? Não contem com a minha assinatura”. Porque não sabem, porque não são filhos mesmo da cena. Isso também é um fator, é gentrificação, é tentar tirar a nossa cena de sermos filhos de Chelas. Não há moral para isso, que vão para a terra deles.

Basquetebol, arte urbana, comunidade, hip hop. São um elo de ligação.
Este sítio, mesmo antes de ter esta obra lindíssima, já era requisitado para filmagens. A luz é ótima, eu próprio já o utilizo há muito tempo. Mas há produções, até de fora, que procuram um espaço urbano, interativo, de desporto, no meio de prédios. É um cenário visual bonito. Isso vai ser sempre bom. Agora quando filmarem de cima vai dizer Chelas, mesmo que seja uma produção da Argentina.

Esta renovação coincide com um regresso às origens com os Official Nasty. Porquê nesta altura?
Isto começou com um convite da Hoopers a mim, para participar de forma musical na obra. E eu tenho todo o gosto nisso. Mas é a tal cena: tu sabes que há quem seja ainda mais indicado para ser a voz, que o coração está lá. E uma dessas pessoas é o meu amigo Paulo, Daddy-O-Pop, que ficava aqui até à noite a jogar. Sugeri fazer com ele. Eu faço o refrão, mas era importante que as palavras, sobre o jogo, sobre o amor a este desporto, fossem de um fanático. Até para contar melhor a história do espaço. Nós éramos quatro elementos nos Offical Nasty. Tivemos que pedir autorização aos nossos colegas, eles já nem moram em Portugal nem são rappers, e eles aceitaram na boa. É um regresso a essas origens porque há pessoas que estão mais dentro da minha obra e sabem que é um orgulho meu ressuscitar esse nome.

Também costuma estar atento ao que se faz de novo e apoia novos nomes.
Sim, sem dúvida. Acho que é uma coisa que faz parte da cultura hip hop. Há essa faceta, da parceria, da colaboração. Nem vejo essa situação como ajudar. Parece que que é estares numa posição superior. Às vezes de uma forma exterior pode ser visto dessa forma. Até uma pessoa mais jovem pode sentir isso, mas para mim não é dar uma ajuda, é uma colaboração entre talentos.

É algo que o enriquece?
É até uma missão que tenho, um legado: “no rap ninguém colaborou mais do que o Samuel”. De preferência com resultados de qualidade. Aquele rapper antigo? Tenho um som com ele. Aquele mais recente? Check. E vou do mais conhecido até àquela pessoa que ninguém conhece. Desde que seja algo com que me identifique. Isso também dá para mostrar a minha amplitude, enquanto produtor e em relação ao meu gosto musical.

A diversidade é uma das suas marcas.
O rap tem tantos géneros, tanta variedade. Posso colaborar com um rapper mais de intervenção, e dou-lhe batidas de certo género. Mas como sou uma pessoa que tem a palete toda do arco-íris, pá, se és um gajo divertido também tenho uma batida aqui para ti. E ao fim do dia, o meu legado vai mostrar essa amplitude toda de emoções, que se calhar nem vão caber no meu trabalho mas porque é que haveria de ficar guardado lá em casa? ‘Bora partilhar, colaborar e recordar mais tarde.

Colaborar sempre com outros artistas é uma missão.

Foi uma evolução que se notou na sua música. Era algo natural ou desde o início já pensava nisso?
O meu percurso é muito ao sabor do vento. Não tenho urgência nas coisas, a urgência pode prejudicar um produto final. As coisas para mim saem quando saem, não sou um artista de indústria, sou pela arte. Podem chamar-me mimado nesse aspeto mas tem resultado, vivo da música tranquilamente e nunca comprometi a minha arte sem sair do meu conforto e sinto orgulho do que fiz. Não o faço por razões financeiras, isso é uma consequência, e ainda bem, que me permite viver esse sonho. Não sou um artista de editoras embora já tenha colaborado. Comecei de forma independente, fiz as minhas parcerias, até algumas coisas em que fui enganado, e agora voltei ao meu controlo total.

Porquê esta aposta?
Porquê? Porque é possível, essa é a resposta mais simples. E agora estou onde sempre quis estar. Agora com mais nome chego à minha base de pessoas, que apreciam o meu trabalho, e sou dono de todos os meus trabalhos. Não tenho que estar a depender de outros, a perguntar quando me podem passar o cheque. Comecei como rapper, depois fui produtor por necessidade, precisava dos meus instrumentais para poder rimar, depois produzi para muita gente.

Já lá vai algum tempo desde o último álbum só como Sam The Kid.
Sim, em relação a álbuns em nome próprio claro que há aqui um espaço muito grande. Não lanço um álbum como rapper desde 2006, é inadmissível, mas a minha presença é sentida de outra forma, não tem de ser sempre igual. Não tenho culpa de ser polivalente e me sentir feliz com outras coisas. Não tem de ser sempre da forma que acho que alguns desejam — e que às vezes eu próprio desejo. Mas às vezes os dias vão ficando curtos. Para mim basta-me que diariamente tenha feito algo criativo que saiba que vá dar frutos no futuro. Fico feliz. E isso pode ser umas três rimas que apontei no telemóvel. Se calhar noutro tempo eram “eish, esta noite fiz sete beats e escrevi uma letra inteira”. Agora fico satisfeito com um pouco menos, mas sei que é um menos que é mais refinado.

Houve alguma momento de dúvida ou fazer de Chelas quartel-general sempre foi algo que sempre soube que ia fazer?
Sim porque eu não conheço outro sítio. Felizmente tenho esse privilégio, de ter uma casa, de ter uma raiz. Há pessoas que não têm porque se calhar devido à família andavam sempre de um lado para o outro. Ou se entrarmos em questões de preconceitos, há pessoas que aqui os mandam “para a tua terra”, e vão para o outro sítio e levam com um “também não és daqui”. Isso é uma tristeza, mas isto serve para dizer que há pessoas que na sua mente até se confundem. “Então mas eu sou de onde?”.

Não é o seu caso.
Ter isso, reconhecer que é um privilégio, é importante, é algo que não vou banalizar. “Então mora em Lisboa?” Não, dá-me uma caixinha mais pequena. É esse o tipo de pessoa que eu sou, prefiro caixinhas mais pequenas, nada contra quem faz o contrário mas a mim dá-me uma identidade mais específica. As camisolas que visto são Chelas e do hip hop. Não visto a camisola da música. E o hip hop é uma caixinha que até é mais do que música, é uma cultura, tem pintura, dança, estás a ver? E no hip hop posso englobar aqui uma série de géneros musicais. Com Chelas é um pouco a mesma coisa, não sou patriota, nada contra quem é, eu respeito isso, mas eu sou de Chelas. É uma identidade mais concreta. Há pessoas que até dizem: “sou um cidadão do mundo, ando por todo o lado, em todo o lado me sinto bem”. E eu respeito. Deixem-me ter também a minha, respeitem também a minha, é uma coisa natural.

É inevitável a pergunta: como têm sido estes tempos de pandemia para si?
A rotina é a mesma, à exceção dos concertos. Isso desapareceu de momento, esperamos regressar em breve. Mas ao nível da produção, e de continuar a ser criativo, não tive quebra nenhuma. Continuo a produzir, a escrever, a editar vídeos, que também tenho a minha plataforma, a TV Chelas, em que sou eu que filmo e edito, e isso deixa-me satisfeito. Por exemplo, daqui a bocado vou acabar de editar outro vídeo. E é uma coisa engraçada, isto de poder levar uma faceta para outra. O facto de produzir ajuda-me a editar vídeos, uma coisa beneficia a outra, traz ritmo. São mesmo várias as coisas que gosto de fazer, vou alternando. E vou-me sentindo bem com isso mesmo, não entro naquela frustração de estar parado.

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