Música

Satanismo, supremacia branca e chatrooms: a relação de amor-ódio dos fãs com Doja Cat

A cantora é a cabeça de cartaz do Rock in Rio Lisboa este domingo, 23 de junho. É uma das artistas mais controversas da atualidade.
Não faltam dramas.

“Não vos amo porque não vos conheço.” Em julho do ano passado, Doja Cat viu-se envolvida numa das maiores controvérsias da sua carreira, após criticar a sua própria legião de fãs. Os seus seguidores são também conhecidos por kittenz (literalmente gatinhos, que remete para o apelido do seu nome artístico, Cat, ou seja, gato) — algo que a rapper não aprecia. “Se tens este nome na tua conta, elimina-o e reflete sobre a tua vida”, reforçou durante um direto no Instagram.

Alguns daqueles que a seguiam rapidamente se viraram contra ela. Outros saíram imediatamente em seu defesa, afirmando que se tratava apenas de uma demonstração de Scarlet, o alter-ego da artista. Esta é apenas uma das muitas polémicas que assombram a carreira da cantora, que atingiu o estrelato com o single “Say So”, em 2019 — e é a cabeça de cartaz deste domingo, 23 de junho, do Rock in Rio Lisboa.

Em dezembro de 2023, durante uma entrevista com a Apple Music, voltou-se a falar da relação conturbada com os fãs. Assegurou que não odeia aqueles que a seguem e que todas essas especulações eram apenas isso: especulações.

“Quero esclarecer que nunca me ouvirão a dizer que detesto os meus fãs. Nunca o disse e nunca o direi. No entanto, gosto de brincar com essa situação e sei que quem me compreende vai perceber que é apenas uma piada. Se não entenderem, também não me importo. Não tenho de explicar o meu sentido de humor a ninguém. Não é essa a minha função.”

A sua tendência para as piadas mais cáusticas e muitas vezes negras já foram tema de notícias inúmeras vezes. Em novembro de 2023, por exemplo, partilhou uma fotografia com uma T-shirt que tinha estampada a cara de Sam Hyder, um youtuber que assume ser de extrema-direita.

O homem de 39 anos fez uma contribuição de 4,6 mil euros ao site neo-nazi Daily Stormer em 2017, após a plataforma ter sido processada pelo Southern Poverty Law Center no contexto de uma campanha organizada para humilhar uma mulher judia, afirmou o “Los Angeles Times”. Quando o jornal lhe perguntou o motivo de ter feito esta doação, disse apenas que queria que os jornalistas soubessem que ganha “muito mais dinheiro do que todos eles”.

A peça de roupa usada pela artista — cujo nome real é Amala Ratna Zandile Dlamini — com a imagem da controversa personagem tinha outra conotação. Na fotografia, Sam estava com uma pistola nas mãos, o que se tornou uma anedota dentro da extrema-direita norte-americana. Sempre que ocorria um tiroteio numa escola, faziam piadas com a situação e insinuavam que ele tinha sido o responsável. Doja nunca respondeu às críticas. No entanto, eliminou a fotografia e partilhou uma foto com a T-shirt cortada. Na legenda, incluiu apenas emojis a revirar os olhos.

A proximidade da rapper de 28 anos com a extrema-direita não se ficam por aqui. Já afirmou diversas vezes que passa muito tempo dentro em chats de sites cujo público é principalmente constituído por supremacistas brancos.

Em maio de 2020, foram partilhadas nas redes sociais mensagens da cantora em que se ria de piadas racistas, apesar de ela ser negra. No X (antigo Twitter) tornou-se viral a hashtag #DojaCatIsOverParty. Os fãs não ficaram contentes, mas não a abandonaram.

Em 2019, a norte-americana afirmou que tinha uma “obsessão religiosa” com chatrooms ofensivos quando era adolescente. “Gozavam comigo e usavam uma linguagem horrível. Não percebia porque é que eram tão loucos”, disse à “Paper Magazine”. Acrescenta que apenas estava lá para também fazer piadas e “coisas fora da caixa”.

Quando este comportamento foi criticado, pediu desculpa a todos os seguidores num post, entretanto foi apagado. Garantiu que nunca tinha dito nada racista nas mensagens quando era mais nova.

A fotografia com a T-shirt de Sam Hyde.

“Eu usei salas de chat públicas para socializar desde que era miúda e sei que não devia estar lá. Pessoalmente, nunca me envolvi em conversas com racistas. Peço desculpa a todos aqueles que ofendi”, escreveu, acrescentando que tinha orgulho nas suas origem sul-africanas e negras.

As polémicas sempre a perseguiram. Quando não era ela o alvo, eram os namorados. Exemplo disso é Jeffrey Cyrus, um streamer da Twitch e músico, conhecido com J. Cyrus, que foi acusado de abusar emocionalmente uma das suas moderadoras do canal. A alegada vítima também o apelidou “manipulador”.

Ora, quando foi divulgada uma fotografia de Doja a beijar o influencer, as redes sociais foram, mais uma vez, atrás da artista. Num comentário apagado, defendeu-se e disse que não queria saber da opinião das outras pessoas. Além disso, não acreditava no que o agora ex-namorado tinha feito.

No entanto, as atitudes tóxicas foram confirmadas pelo mesmo numa publicação de 2020 que, tal como muitos posts de Doja, já foi apagado. “Não há desculpas ou justificações para as minhas ações. Fui ganancioso, ignorante e desrespeitoso. Estava numa posição de poder e cedi às tentações e aproveitei-me de quem me admirava”, escreveu.

As acusações de satanismo

A 4 de maio do ano passado, a cantora voltou a ser tema de conversas após partilhar uma nova tatuagem no seu perfil de Instagram. Nas costas, desenhou uma figura semelhante a um morcego, mas com um aspeto ligeiramente demoníaco, o que levou a acusações de satanismo. Porém, não era esse o seu objetivo, como explicou depois. “Morcegos representam morte, mas no sentido de deixar o passado para trás e olhar para o futuro”, explicou. “O vosso medo não é um problema meu.”

Esta justificação não pegou com muitos dos seus seguidores, que continuaram a achar que “louvava o Diabo”. Este continua a ser um tópico recorrente e Doja sabe que não há nada a fazer e, devido a isso, deu poucas entrevistas em que tocou neste assunto.

Uma delas foi com a Apple Music. Durante uma conversa em dezembro do ano passado, disse que apenas dá a entender que é satânica para “causar uma reação nas pessoas”. “Mas também gosto da arte e da tatuagem que fiz”, reforça.

“Peguei nesse visual e apliquei-o às minhas canções. Depois, as pessoas começaram a dizer aquilo que achavam e as teorias que tinham. É isso que nós artistas queremos. Podem interpretar como quiserem e estão no seu direito de o fazer.”

Afirmarem, contudo, que é satânica já é ir longe demais, aponta. “Quando é que eu disse isso? Alguma vez marchei fora de uma igreja? Eu nunca disse merda nenhuma sobre isso. É irritante porque tira mérito ao meu trabalho”, lamenta.

 

 

 

 

 

 

 

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