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Sei por que nos querem odiar: a outra história da geração do Woodstock ’99

Esta crónica é uma defesa da geração de gosto musical duvidoso, que é atacada no documentário "Trainwreck: Woodstock ‘99", da Netflix.
Fred Durst no Woodstock de 1999.

“I know why you wanna hate me”, grita Fred Durst em “Take A Look Around”, tema da banda sonora de “Missão Impossível 2” e single de avanço de um dos discos que, para o bem ou para o mal, marcou a viragem de século – “Chocolate Starfish And The Hot Dog Flavoured Water”. O single foi lançado um ano depois dos Limp Bizkit darem uma infame, caótica e, digo eu, gloriosa performance no Woodstock ‘99, e a lírica parece responder às absurdas acusações que metralham a banda americana desde então, atribuindo-lhes a responsabilidade pelo desastre que sucedeu naquele festival (o próprio nome do disco pode ser interpretado como uma metáfora sobre o estado das casas de banho no recinto, mas mais sobre isso à frente).

23 anos depois, continuamos a bater na mesma estúpida tecla. Primeiro com o documentário da HBO Max no ano passado “Woodstock 99: Peace, Love, and Rage”; e agora, com o novo “Trainwreck: Woodstock’99” na Netflix. Ambos os programas apontam o dedo aos Limp Bizkit, em particular, e no geral, a toda a geração de miúdos que foram ao festival, pagaram uma fortuna pelo bilhete (125 dólares na época) e foram tratados como autênticos animais.

Um pouco de contexto. O Woodstock ‘99 teve lugar em Roma, no estado de New York, de 22 a 25 de julho de 1999. O festival juntou as bandas mais populares da época, desde os Korn, Rage Against The Machine Bush, The Offspring, e Limp Bizkit, bem como os (já então) veteranos Metallica e Red Hot Chili Peppers. Foi o pico do Nu Metal e o início da sua queda. Foi o festival que condensou todos os excessos, todas as fantasias hedonistas e anarquistas estampadas naquele género, mas que nunca ninguém pensou serem exequíveis. Foi um cocktail explosivo de jovens cheios de cio e sede, atirados para uma base militar como gado. Foi um pouco disso tudo que já terão lido sobre o festival, mas acima de tudo, a história do Woodstock 99 é uma história de ganância. Uma história onde os espectadores que viajaram milhares de quilómetros para ver as suas bandas favoritas, e pagaram bem para o fazer, foram vítimas e não culpados. Ou como pintava um graffiti na cerca do festival, foi o Profitstock.

Com certeza já ouviram do Woodstock original, que teve lugar em 1969. Se já entraram num bar qualquer no Bairro Alto que se quer cool, já se cruzaram com o poster “Woodstock: 3 days of peace and music”. O festival foi organizado por Michael Lang, que quis repetir o formato 30 anos depois. Mas se o evento original se destinava a promover a paz e a demover a sociedade americana contra a guerra do Vietname, a edição de 1999 teve um único intento por parte dos seus organizadores: lucro. Astronómico. Sem olhar a meios e sem ter em vista as mais elementares regras de segurança e saúde pública.

Alguns dos exemplos mais chocantes. A licença de comida foi subempreitada a terceiros por números pornográficos, com a nuance de não haver quaisquer regras de preços. Resultado: uma água custava 4 dólares no primeiro dia (estávamos nos anos 90 e uma garrafa de água custava 50 escudos, equivalente a 25 cêntimos) e no último dia chegou a atingir os 12 dólares. A recolha de lixo também foi subcontratada, mas ninguém apareceu para a colecta; o lixo foi-se acumulando e no último dia o recinto mais parecia uma lixeira a céu aberto.

Mas fica pior. Ao segundo dia, as casas de banho já estavam entupidas; de tal forma que os excrementos começaram a espalhar cá fora e alguns transeuntes com álcool a mais e noção a menos, viram naquela massa castanha o cenário perfeito para recriar os homens da lama de Woodstock ‘69. Nem quero pensar nas doenças que saíram daquela Hot Dog Flavoured Water. A cereja no topo foi a segurança risível no recinto, de todo insuficiente para garantir a segurança das 400 mil pessoas que foram ao festival. E isso teve consequências directas e graves nalguns espectadores, especialmente do sexo feminino.

E no entanto, ouvimos neste documentário os organizadores do evento a apontar o dedo à geração de jovens que foi ao festival e lhes encheu os bolsos. E aos Limp Bizkit, claro. Populares na época e rapidamente proscritos como uncool, são o alvo mais fácil.

Vamos lá esclarecer uma coisa. Goste-se ou não da banda, os Limp Bizkit estavam no Woodstock ‘99 para dar um concerto. Para “partir tudo”, como se diz na gíria. E foi exactamente isso que fizeram. Um pouco literalmente demais? Talvez. Mas os Limp Bizkit tinham que tocar “Break Stuff”. Como não? Era o hit da época. Queriam o quê? Fred Durst a convidar a audiência “meus cavalheiros e minhas madames, quando a música disparar, vamos todos fletir as pernas ligeiramente e com segurança para não tocarem nos espectadores à vossa volta”? O argumento de que os Limp Bizkit foram os culpados pela desgraça em que o festival desaguou é o tipo de visão que iliba, uma vez mais, os homens do dinheiro.

Os jovens que estiveram no Woodstock ’99 e lançaram o caos e a destruição no último dia são o outro alvo fácil. Faço parte desta geração maldita, a geração politicamente incorrecta do American Pie e de música de gosto duvidoso, desavergonhadamente obcecada por sexo. Posso falar em nome próprio. Crescemos num mundo diferente, onde o bullying era normal (o nome ainda não existia, era só “levar na tromba”) e até celebrado, como posição de força no pátio da escola. Havia muita raiva acumulada. A música agressiva dos Korn e dos Limp Bizkit não cresceu no vácuo, apareceu porque eles sentiam e ganhou fama porque muitos se identificaram. “I know why you wanna hate me, because hate is all the world has even seen lately”. Bingo.

É óbvio que muita da música que passou naquele festival (a mesma passava no pátio do liceu naquela altura) não envelheceu muito bem. Não me orgulho particularmente quando o meu Pai fala na música “do tempo dele” e se refere aos Pink Floyd e aos Deep Purple e eu tenho para troca os Korn e os Limp Bizkit. Mentiria se dissesse que não me deixo rir quando ouço poesia como “tu vais e falas merda sobre mim e a minha geração” (My Generation”. E nem vou entrar em peças como “Rollin’”, ou “Hot Dog”, onde Durst diz “fuck” 46 vezes. São discos unidimensionais, pueris, plenos de raiva adolescente. Ultrapassando essa barreira temporal, e focando só na música, rapidamente começamos a abanar a cabeça como em 1999. Não é por acaso que os Limp Bizkit venderam milhões de discos na sua época.

Também éramos demasiado inocentes na minha geração. Confiávamos nas instituições e nas organizações. Íamos a festivais organizados por adultos, com a certeza de que eles seriam suficientemente responsáveis para fazer o seu trabalho. Afinal, eram eles os adultos.

É fácil apontar o dedo à minha geração, mas o nosso mau gosto musical não nos torna culpados. Se a panela de pressão existia na minha faixa etária, a culpa foi da geração que nos levou ali. A mesma que era hippie em jovem, mas que tratou os seus descendentes como animais, para transformar miséria em lucro no Woodstock ’99. Ou como disse um dia Frank Zappa: “A música era mais bem gerida quando estava entregue aos homens dos charutos. Eles não percebiam nada de música, nem pretendiam perceber, mas eram homens de negócios e davam todas as condições aos músicos. Quando os hippies tomaram conta, e injetaram as ideias do que a música devia ser, tudo piorou para os músicos”. São generalizações que valem pouco, é certo. Mas se a ideia é começar conflitos intergeracionais, em como os hippies de 69 eram melhores que os American Pies de 99, então temos pano para mangas.

A revista “Rolling Stone” deliberou que os três dias do Woodstock ‘99 foram “os dias em que os anos 90 morreram”. Têm toda a razão. Foram os dias que mataram a inocência dos que lá estiveram e dos que viram na televisão.

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