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De seminarista a músico viral: Fernando é o mais conhecido violinista de Alvalade

O angolano trocou a religião pelo instrumento e dá música aos lisboetas nas estações de metro.

Com apenas nove anos, Fernando Arsénio deixou a casa da família em Benguela, Angola, e entrou para o seminário. “O meu tio era padre, a minha irmã entrou num convento. Eu olhava para eles e sentia-me inspirado. Achava que o meu caminho também era esse”, conta à NiT. A infância foi, por isso, bastante diferente da maioria dos rapazes da sua idade. Em vez de passar os dias na rua, dedicava-se à missa e à religião.

Durante quase dez anos, viveu entre orações, estudos e silêncio. Esteve em duas congregações. A primeira fechou e a segunda foi a Ordem dos Capuchinhos, onde permaneceu três anos. Foi aí que a música entrou na vida do jovem de 21 anos. Hoje, é essa paixão que partilha com quem passa pelas ruas e estações de metro, nos intervalos do trabalho.

O primeiro contacto surgiu através do coro do seminário. Quando ensaiava para atuações nas igrejas, tinha à sua volta vários instrumentos: cinco pianos e oito guitarras. Os professores, ao perceberem o entusiasmo, acabaram por incluir a música como disciplina.

A guitarra foi o primeiro instrumento que aprendeu a tocar, com a ajuda de um colega que lhe dava aulas nos tempos livres. “Quando ele foi para o Brasil, fiquei sozinho, mas não quis parar. Comecei a tocar flauta e piano. Aprendi sozinho, a ver e a experimentar.” Nessa altura, em 2022, o YouTube passou a ser o seu principal professor.

A sua vida deu uma volta inesperada quando teve de interromper o percurso religioso. A congregação pediu-lhe que parasse durante um ano para refletir sobre a vocação. “Foi durante esse tempo que percebi que o horizonte da vida era maior do que aquilo que eu via inicialmente”, confessa.

Aos 18 anos, a música tornou-se o centro da sua vida. Integrou uma orquestra com o objetivo de melhorar a técnica ao piano. O violino era a estrela principal e acabou por se deixar seduzir. “Um dia, estavam a ensaiar para um concerto e decidi que queria aprender também.”

O desejo concretizou-se no final de 2023, quando a mãe lhe ofereceu o primeiro violino. “Foi o meu maior presente”, confessa. Como as aulas na orquestra eram apenas ao sábado, contou com o apoio de um amigo violinista. “Ia duas vezes por semana à casa dele. Ele ensinou-me as bases, como ler as pautas. Mas a maior parte aprendi sozinho, a ver vídeos na Internet.”

Sem dar por isso, o violino passou a ser uma espécie de escape emocional. Quando está triste, opta por melodias mais melancólicas; quando se sente bem, prefere músicas mais animadas. “A música é a minha forma de comunicar. Como não me expresso muito por palavras, toco para as pessoas saberem o que sinto.”

Em janeiro de 2025, Fernando decidiu arriscar numa mudança radical e mudou-se para Portugal. Consigo trazia apenas uma mala de roupa e o violino oferecido pela mãe. A decisão não foi motivada pela música, mas sim pelos estudos. “O curso que queria tirar em Angola foi cancelado. Escolhi vir para Portugal por causa da língua e porque sabia que era um lugar de oportunidades.”

Antes de chegar, inscreveu-se em Psicologia e foi aceite. No entanto, a adaptação revelou-se difícil. Veio sozinho, sem qualquer apoio, e os custos com renda, alimentação e universidade rapidamente ultrapassaram as suas possibilidades. Apesar de ter um part-time, não chegava. Acabou por congelar a matrícula para estabilizar a vida antes de retomar os estudos.

 
 
 
 
 
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Durante três meses trabalhou num restaurante, mas o ambiente e os horários não ajudaram. Saiu e conseguiu lugar num supermercado. Atualmente trabalha a tempo inteiro numa loja em Alvalade, mas nunca deixou a música para trás-

Foi num dos seus intervalos que os vizinhos o começaram a conhecer. “Decidi tocar um pouco à porta da loja e alguém filmou-me sem saber. Uns dias depois, o vídeo estava viral”, recorda.

A popularidade inesperada abriu-lhe portas. Hoje, é convidado para tocar em festas de aniversário, casamentos e outros eventos. Ainda assim, o caminho nem sempre foi fácil.

Em setembro, ao sair da estação de Metro do Oriente, um encontrão involuntário provocou uma queda e o precioso instrumentou partiu-se. “Quando cheguei à Praça do Comércio abri o estojo e vi o estrago. Fechei-o e fui para casa.” Analisou os danos e percebeu que não havia reparação possível sem danificar ainda mais o instrumento.

Não baixou os braços. Fernando decidiu continuar a tocar com o violino antigo e começou a juntar dinheiro para comprar outro. Tocou em várias estações, de São Sebastião à Alameda. “Muitas vezes não tocava para fazer dinheiro, mas para conectar pessoas. O dinheiro era um extra bem-vindo, claro, mas o que eu mais gosto é de ver as pessoas sorrirem ou pararem para ouvir.”

As atuações improvisadas no bairro de Alvalade também continuaram. Foi numa delas que recebeu a maior surpresa até hoje. Gabriel Coutinho, músico português, viu o vídeo viral e quis ajudar. “Disse-me que ia comprar um violino para mim. Achei que fosse brincadeira, mas afinal era verdade.” A 15 de outubro, pelas 17 horas, apareceu no supermercado com um novo violino, avaliado em 790 euros. “Agora é o meu bem mais precioso”, brinca.

Entre os artistas que mais o inspiram estão Ed Sheeran, Justin Bieber e Rihanna. “Gosto de tocar músicas mais mexidas e atuais, mas também toco clássicos. O violino é muito versátil. Dá-me liberdade para experimentar estilos diferentes.”

Continua a trabalhar no supermercado para atingir a tão desejada estabilidade, mas o seu objetivo é claro: viver da música. “Quero dar um concerto em que o meu nome esteja no cartaz em letras grandes e em que eu seja o músico principal, nem que seja num sítio pequeno. Quero ver o meu nome lá.”

Antes disso, tem outro plano em mente: agradecer ao bairro que o acolheu. “Quero fazer um concerto em Alvalade para agradecer a todos os vizinhos. Foram eles que me apoiaram desde o início.”

Antes disso, porém, Fernando quer recompensar o bairro que o acolheu. “Quero fazer um concerto em Alvalade para agradecer a todos os vizinhos. Foram eles que me apoiaram desde o início.”

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