Música

Sónar: o mítico festival ocupa Lisboa pela primeira vez este fim de semana

Vai ser para dançar, mas também para pensar sobre o futuro. Conheça os principais nomes que atuam por cá nos próximos dias.
O festival arranca esta sexta-feira.

O Sónar acontece há 28 anos em Barcelona, Espanha. É um festival muito associado à música eletrónica e de vanguarda — que integra ainda uma visão mais abrangente da sociedade, uma vez que a programação inclui arte contemporânea e conferências sobre tecnologia, ciência e arte.

Ao longo dos anos, o evento tem tido edições em várias metrópoles do planeta. Agora, acontece pela primeira vez em Portugal — o Sónar Lisboa arranca esta sexta-feira, 8 de abril, e prolonga-se até domingo, dia 10. 

O Coliseu dos Recreios, o Centro de Congressos de Lisboa e o Pavilhão Carlos Lopes são os locais que vão receber as atuações musicais. O Hub Criativo do Beato acolhe a programação diurna do Sónar+D (com conferências e exposições de arte).

Floating Points, Richie Hawtin, Thundercat, Arca ou Charlotte de Witte são alguns dos cabeças de cartaz. Mas também vai haver performances de Leon Vynehall, Branko com Gafacci, Shaka Lion, Dengue Dengue Dengue, India Jordan, IAMDDB, The Blaze, Honey Dijon, Nicola Cruz, DJ Marfox, Nídia ou Nina Kraviz. Os bilhetes encontram-se à venda online — e há muitas modalidades e preços.

João Wengorovius Meneses, antigo secretário de estado da Juventude e do Desporto, da área da gestão, é o principal responsável pela realização deste Sónar Lisboa. “Tenho um gosto particular pela área da cultura e música eletrónica. Fiz algumas coisas, muito residuais, quando estava na Câmara de Lisboa. Organizei um festival no Largo do Intendente, um concerto de homenagem ao Lou Reed, fiz algumas colaborações com exposições de arte contemporânea, mas sempre numa lógica tangencial. E tinha há muito tempo o desejo de fazer acontecer, com mais envolvimento, e de desenvolver um projeto na área cultural”, explica à NiT. “Trabalhei também com startups e o Sónar é o encontro feliz entre coisas que já fiz e as que gostava de fazer. Se juntarmos a isso alguma loucura e desvario, temos os ingredientes.”

João Wengorovius Meneses diz que tem uma relação “platónica” com o Sónar. Nunca foi ao festival em Barcelona, apesar de ser um admirador confesso do conceito. E de ter prática enquanto fã de música eletrónica. “Tenho 47 anos, sou da época do Frágil e do Alcântara-Mar, dos Underground Sound of Lisbon, e das primeiras raves em Portugal. E agora, sempre que viajo profissionalmente — vou a Nova Iorque, Londres ou Berlim — faço um bocadinho de clubbing, fico para o fim de semana.”

Certo dia, sem nada a perder, decidiu enviar um email à organização do Sónar. A resposta foi positiva e não demorou muito até chegarem a um acordo para haver uma edição em Lisboa. João Wengorovius Meneses admite que não estava à espera de que a ideia fosse tão bem recebida.

“Não tenho currículo nenhum nesta área, não sou produtor, e sempre achei que iriam olhar com sobranceria, se é que olhavam sequer para o meu email. ‘Quem é esta pessoa de Portugal absolutamente desconhecida e sem nada para nos dar ou para apresentar?’ Já tinham existido havido várias tentativas de outros portugueses para trazer o Sónar. O primeiro email correu suficientemente bem para levar à primeira reunião, a primeira reunião correu suficientemente bem para levar à segunda, foi muito passo a passo”, conta.

Depois, juntou uma equipa de parceiros com mais experiência na área. “O único mérito que tenho foi juntar uma equipa incrível, que tinha as competências para montar um projeto desta envergadura e complexidade.” Aliou-se a Patrícia Craveiro Lopes, fundadora da Casa Independente (que abordou num concerto no Lux); a Gonçalo Félix da Costa, ex-Produções Fictícias; e à promotora Made of You (de Gustavo Pereira, Paulo Amaral e Raul Duro), que organiza o festival Neopop. A autarquia, o Turismo de Lisboa e o Turismo de Portugal também apoiam o projeto.

“Percebemos que Lisboa tem uma conjugação de fatores que a distinguem de Barcelona apesar da proximidade, como as sonoridades e texturas culturais africanas da lusofonia, essa coreografia das ruas e todo esse mosaico cultural único, que é a nossa herança e de que nos orgulhamos. Do kuduro ao afrohouse, tudo isso Barcelona não tem, nós temos e é vivido nas ruas de Lisboa. Isso distingue-nos. E do ponto de vista do digital e do futuro, com a Web Summit e não só, é cada vez mais uma cidade europeia a ter em consideração. Lisboa concentra um conjunto de fenómenos que tornaram esta proposta muito aliciante.” Meneses também argumenta que será uma “montra” para Lisboa e para a arte e música local. Afinal, cerca de 70 por cento dos bilhetes foram vendidos para o público estrangeiro.

João Wengorovius Meneses acrescenta ainda que o Sónar é único por aliar uma vertente mais consciente e outra mais virada para a celebração. “Acredito muito nessa combinação de engage e have fun. Engage é a ideia de estarmos engajados na vida — e não ser só sobre having fun. Mas também não pode ser demasiado sobre essa dimensão de ativação cívica, política e social. A vida também precisa de ser desconstruída e celebrada. Há um lado diurno de olhar para o futuro e de nos preocuparmos com os outros. E depois há um lado de dançarmos e celebrarmos.”

Destaca também que a decisão de optar por um festival em diferentes espaços foi uma “ousadia”, no sentido em que acarreta bastante mais riscos. “Foi uma coisa que quis que acontecesse. Em Barcelona acontece num único espaço, no centro de congressos, na periferia da cidade. O equivalente à nossa FIL, sendo que em Barcelona é mais periférico. A mim parecia-me altamente descaracterizante, e também muito empobrecedor da experiência de cidade, ‘encaixotar’ as pessoas nos armazéns da FIL. Com todo o respeito, mas é o sítio onde vamos desde a feira do chouriço ao salão automóvel e de repente ter lá uma experiência cultural mais sofisticada… não acho que seja o local mais charmoso.”

E acrescenta: “queria uma experiência com mais identidade. E fiz muita pressão para que, ao contrário de Barcelona e da forma como se tem replicado noutras cidades, fosse uma experiência espalhada pela cidade. Isso traz imensos desafios de caráter logístico e orçamental. Gerir o público é muito mais complexo. Ter diversas salas implica introduzir, do ponto de vista comercial, uma lógica mais complexa de segmentação. E temos sete ou oito tipos de bilhetes, a user experience do público na compra do bilhete é muito mais desconfortável, mas espero que depois seja melhor no festival. Do ponto de vista económico-financeiro é muito mais arriscado. E é algo que vamos ter de avaliar no fim, se compensou”. O compromisso estabelecido com a organização de Barcelona prevê que o festival se continue a concretizar em Lisboa durante mais alguns anos.

“Têm sido meses muito intensos, mas estou à espera que seja uma grande festa. Penso que vamos ser a praça de Lisboa durante três dias: vão circular muitas ideias, pessoas e energia. Acho que vai ter uma faísca, espero que funcione como um dínamo para a cidade e que ative uma série de coisas que possam ter consequências boas na comunidade artística e não só. Isto não é só sobre dançar, também pode ser sobre futuro”, conclui.

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