opinião

“The Beatles: Get Back” é o documentário musical mais épico de sempre

O cronista da NiT, Nuno Bento, devorou as oito horas deste filme realizado Peter Jackson sobre o mês que arrasou com a banda de Liverpool em 1969.
Os Beatles no terraço da Apple em Londres
Desde quinta-feira passada, 25 de novembro, data do lançamento do primeiro episódio do épico documentário “The Beatles: Get Back”, na plataforma Disney+, que tenho vivido imerso no mês de Janeiro de 1969 da vida dos Beatles, absolutamente obcecado pela banda de Liverpool. Outra vez. Sim, porque a minha relação com os Beatles é antiga, tão antiga como o meu sentido auditivo, ou pelo menos tão longa quanto a minha memória consegue alcançar. E eis que aos 36 anos, o mais recente épico de Peter Jackson conseguiu a proeza de injetar ainda mais combustível nesta minha paixão perpétua pelos reis do ié-ié-ié. Se há um mérito irrevogável de Get Back, é precisamente este — rejuvenesce o interesse pelos Beatles a um mundo que por vezes parece que os esqueceu. Renova os votos de paixão dos fãs antigos, e dá-os a conhecer à geração mais nova. Na era do binge e dos serviços de streaming, Get Back vem formatado para consumo num fim de semana debaixo do cobertor no sofá.
 
Get Back é uma série de três episódios, oito horas no total, que documenta as sessões de gravação dos Beatles para o álbum abortado “Get Back”, e de todo o projeto que a jusante culminou no póstumo “Let It Be”, lançado após a separação dos Beatles. A restauração das fitas das filmagens foi de tal forma meticulosa, que parecem ter sido gravadas no mês passado. Este documentário coloca-nos em janeiro de 1969, como uma mosca na companhia dos Beatles e, qual Big Brother, novela da vida real, acompanha de perto os dramas e as tensões que a banda vivia naquela altura. E tal como em qualquer novela, põe-nos a torcer por um final feliz para os nossos heróis, apesar de já sabermos o desfecho trágico da história.
 
Agora que estou em processo de reavaliação da minha opinião acerca deste período dos fab four, permitam-me fazer uma pequena analepse da minha própria história com os Beatles, desde o momento em que entraram na minha vida, e de como a impactaram em vários estádios da minha evolução. Como sempre, tudo começou com o meu Pai e uma cassete (lembram-se?) com a compilação “Rock ‘n’ Roll Music”, não tinha eu mais do que 3 anos. As minhas primeiras memórias dos Beatles são o riff de “Dizzy Miss Lizzy” e a batida de Ringo na introdução de “Any Time At All”. Mais tarde, na escola primária, a turma ouvia obsessivamente o Red Album e o Blue Album nos intervalos. Inspirados pelos Beatles, eu e mais dois amigos tivemos a ideia de formar uma banda, baptizando-a com a primeira sílaba das bandas favoritas de cada um — Queen (a minha), Beatles e Nirvana. Os Quibini nasceram envoltos em polémica na sala de aula, devido às nossas músicas de intervenção anti-sistema (ou vá, anti-escola) e conheceram o seu fim inevitável poucos meses mais tarde. Mas durante esse período (o segundo), não se falava de outra coisa na escola. Ainda gravámos uma cassete. Durante a adolescência, descobri os álbuns e já adulto redescobri tudo de novo com as misturas em Mono — a maneira como é suposto ouvir os Beatles. E assim os Beatles foram aparecendo, sempre presentes de alguma forma, a coser o tecido da minha vida.
 
Neste tempo todo, sempre considerei “Let It Be” como o nadir da discografia dos Beatles, o disco que arrasou com a banda. Até agora. Depois de submetido a oito horas de visionamento das sessões de gravação, ganhei um novo respeito pelo álbum e cheguei à conclusão que o seu grande problema (para além do nome) é que os Beatles perderam o interesse e o não levaram o conceito até ao fim. E a culpa é só deles, que se auto infligiram com um projecto megalómano e irrealista. Recuemos ao fim de 1968 para contextualizar.
 
Depois de abandonarem os palcos em 1966, os Beatles têm a oportunidade de fazer uma série de álbuns mais laboriosos em estúdio. Desde “Rubber Soul”, até ao White Album, os fab four rasgam as convenções das técnicas de gravação e desbravam um sem número de territórios sónicos que iriam ser trilhados nas décadas seguintes. A filmagem do clipe de “Hey Jude” em Setembro de 1968, é a primeira vez em 2 anos que a banda toca para uma audiência e a experiência é tão bem sucedida, que é decidido expandir o conceito e gravar o novo disco inteiramente ao vivo, num especial para a televisão. Mas o tempo é curto e as agendas preenchidas dos rapazes ditam que os Beatles têm menos de 3 semanas para preparar esse especial. 
 
O que foi então proposto aos Beatles foi uma tarefa de todo hercúlea — entrar em estúdio no dia 2 de Janeiro para compor e ensaiar 14 (!) temas completamente novos, com um ensaio geral marcado para o dia 18 e a gravação do especial e correspondente álbum ao vivo para os dias 19 e 20, num local a determinar. Todo este processo de composição e ensaios aconteceria num ambiente inóspito de um estúdio de televisão, sem qualquer privacidade (e não estou a falar na Yoko) e em frente a um exército de câmaras e microfones que acompanhavam os Beatles para todo o lado. O projeto era um desastre à espera de acontecer.
 
E acham que os Beatles vacilaram perante este cenário dantesco? Não senhor. Entre composições novas e ideias em gestação, os Beatles tocam neste documentário 123 músicas diferentes. Cento e vinte e três! A proactividade dos rapazes de Liverpool nesta altura era absolutamente insana. Pensem no que é que a vossa banda favorita lançou nos últimos 7 anos. E agora pensem que entre 1962 e 1969, os Beatles compuseram e gravaram todo o seu reportório de 213 músicas, mais todas aquelas que ficaram a meio, e que mais tarde popularam discos a solo como “McCartney”, “Ram”, “Plastic Ono Band”, “Imagine” e, claro, o triplo tour de force “All Things Must Pass”. Chegados a Twickenham de mãos a abanar e com as câmaras em cima, os músicos viram-se pressionados a sacar coelhos da cartola num prazo desumano. Alguns temas escritos nos primórdios da banda foram reciclados, incluindo “One After 909”, que chegou à versão final do álbum. Outros nasceram ali, mesmo em frente às câmaras. Foi o caso de “Get Back”, que nós vemos a surgir do nada, num momento bíblico de Paul McCartney, que Ringo Starr e George Harrison testemunham tão boquiabertos como nós em casa; isto enquanto esperavam que John Lennon chegasse do pequeno-almoço. Quando John se junta à banda, minutos depois, já Ringo está na bateria a marcar o tempo e George a tentar apanhar os acordes na guitarra. E assim nasceu “Get Back”, o tema que condensava o propósito e o conceito back-to-basics do projeto e que, como tal, daria nome ao álbum que nunca saiu e em última instância ao documentário de Peter Jackson. Magia em frente aos nossos olhos.
 
A edição de Peter Jackson é simplesmente brilhante. Para contar a história, o realizador mostra-nos um calendário com as datas relevantes e somos levados a cada dia como um acto diferente, o qual tem a sua própria resolução. A genialidade da montagem é bem ilustrada na cena em que o George chega a Twickenham pela manhã muito entusiasmado com um filme que vira na BBC na noite anterior. Enquanto está a descrever aos outros Beatles o que viu na televisão, são-nos mostrados recortes do jornal da altura com a programação da BBC e as cenas do próprio filme que o George está a descrever. É este o nível obsessivo de detalhe a que “Get Back” chega”. Só nos falta ver os Beatles a ir à casa de banho.
 
As duas horas e meia do primeiro episódio fazem-nos sentir o purgatório que os rapazes passaram em Twickenham. O ambiente é pesado, forçado e cortante. Apesar de ser apenas um terço do documentário, Twickenham parece uma eternidade. Sentimos que estamos a ver o breakup dos Beatles e naquela altura estamos mesmo. Se há uma coisa que o primeiro episódio deixa evidente, é que nesta altura a maior (ou única) força de locomoção dos Beatles é Paul McCartney. Não raras vezes, vemos o Paul a remar sozinho contra a letargia geral e isso resulta em inevitáveis choques. A famosa discussão entre George e Paul, que já tinha sido mostrada no filme original de Michael Lindsay-Hogg, é aqui apresentada com o devido contexto (ficamos a saber qual a noite em que George foi para casa escrever “Wah Wah”). Percebe-se que o George já não queria estar ali. Foi de longe o mais afetado pela visita à Índia, experiência que cavou uma trincheira entre ele e os outros. Quando vemos o Paul e o Ringo a desdenhar a sua estadia no Oriente, o George mostra-se visivelmente incomodado. Farto de obedecer a ordens e trabalhar nas músicas dos outros e com uma pilha de grandes temas da sua autoria, sucessivamente rejeitados (como é que os Beatles não usam o “All Things Must Pass”?!), George cansa-se e acaba por sair da banda.
 
Como seria de esperar, a saída de Harrison abanou as fundações dos Beatles. Mas não imediatamente. John Lennon, que se andava a arrastar desde o início das sessões, continuamente pedrado e inusitadamente fora das discussões, descarta a importância do George quando recebe a notícia, e atira: “Se ele não voltar, vamos buscar o Clapton”. Felizmente tal não aconteceu. O primeiro episódio termina com os Beatles reduzidos a dois — Paul e Ringo — a comentar a surrealidade da reunião da banda no dia anterior, onde John permaneceu em silêncio e a Yoko falou por ele. Paul confessa que vai ter muita piada quando daí a 50 anos se comentar que os Beatles se separaram por causa da Yoko. E não é que acertou?
 
Falemos então do elefante na sala, perdão, da Yoko na sala. Houve uma preocupação óbvia de Peter Jackson em não mostrar a Yoko como a vilã da história. Embora saibamos que era uma figura forte e opinativa, ela raramente aparece a falar. Sempre colada ao John, está invariavelmente a ocupar o ecrã, mas a boa notícia é que ao fim de algum tempo acabamos por ignorá-la, como se fosse o papel de parede. Só notamos verdadeiramente a sua presença quando lhe dão o microfone e somos submetidos aos seus grunhidos (até a filha da Linda se assusta) durante alguns segundos, altura em que normalmente Ringo abandona a sala e podemos ver o Paul saltar para a bateria. Valha-nos isso.
 
Alguns dias depois da fatídica reunião que quase terminou com os Beatles, o John finalmente acorda, e é aqui que somos brindados com mais um momento mágico. Paul e John isolam-se na cantina para uma conversa privada sobre o que fazer com a banda, sem saberem que estava um microfone escondido num vaso, a gravar a conversa toda. E aí já temos “o” John Lennon a puxar dos galões. Paul admite que foi um pouco mandão (eu até acho que ele tinha razão — alguém tinha que puxar a carroça) e promete que vai rever a sua conduta para ter George de volta. Os Beatles voltam a reunir-se e o encontro desta vez é frutífero: a ideia do especial televisivo em direto é abandonada e substituída por um filme, produzido a posteriori; o prazo das sessões é estendido uma semana; e os Beatles vão sair de Twickenham e mudar-se para um estúdio ad-hoc no edifício da Apple em Savile Row, no centro de Londres. Esse mesmo edifício que estão a pensar.
 
O segundo episódio traz-nos uns Beatles renascidos. Lennon chega visivelmente mais fresco ao estúdio montado em Savile Row e rapidamente começa a brilhar. Uma presença fantasma até aqui, sombra de si mesmo, vemos agora o John a desabrochar nos ensaios. Mas é a chegada de Billy Preston a Saville Row que muda a maré. Billy conhecera os Beatles durante a sua estadia em Hamburgo, quando tocava na banda Little Richard e calhou estar em Londres naquela altura. Qual enviado do destino, aparece no estúdio numa altura em que os Beatles discutiam a necessidade de arranjar um teclista para cumprir o conceito de gravar os temas novos ao vivo. Fã dos Beatles (quem não?), Billy junta-se aos nossos heróis e injeta uma dose de energia fundamental no grupo. Também George parece ter recuperado a fé nos Beatles em Savile Row. Um dos momentos mais adoráveis do documentário acontece quando Ringo lhe mostra a sua ideia para a “Octopus’s Song” (retrabalhada para “Abbey Road” como “Octopus’s Garden”) e George se levanta e vai ajudá-lo a elaborar a sua música. A magia acontece nos Beatles e não é só com John e Paul.
 
O terceiro episódio relata os ensaios finais e a preparação para o famoso concerto no terraço do edifício da Apple. A filmagem do rooftop é intercalada com imagens da rua (Londres nos 60’s, que maravilha) e entrevistas aos transeuntes. As imagens são nada menos que deliciosas, um clímax perfeito para as oito horas de documentário. Muitas ideias foram atiradas durante aquele mês para o local do concerto (o realizador Lindsay-Hogg estava obcecado em levar os Beatles para o deserto do norte de África), mas Paul percebeu que a resposta era o terraço. As câmaras capturam o momento exato em que lhe transmitem a ideia e os seus olhos brilham num instante eureka. O concerto é-nos mostrado na íntegra e é impossível não passar o tempo todo a sorrir. Depois do purgatório de Twickenham e de uma semana de ensaios intensos, os nossos heróis conseguiram completar a missão impossível a que se propuseram. Foi o (possível) final feliz.
 
Dividindo o ecrã entre as imagens lá em cima e cá em baixo, Peter Jackson mostra os avanços da polícia londrina, britanicamente pacientes, apesar das dezenas de chamadas para a esquadra a reclamar do barulho. Enquanto o staff da Apple vai empatando os oficiais, os Beatles vão rasgando os temas novos lá em cima e a multidão cresce na rua. Os agentes acabam por perder a paciência e exigem ser levados ao último piso. Estava completo o cenário. Paul nota a sua chegada e não esconde o seu entusiasmo, gritando um WHOO! ao microfone. Os Beatles arrancam para “Don’t Let Me Down” e Ringo sorri, enquanto toca a sua bateria a olhar para trás. A situação torna-se mais séria quando chega o Sargento David Kendrick com cara de poucos amigos e obriga o roadie Mal Evans a desligar os amplificadores. Alheio às autoridades, George, conhecido como o quiet Beatle (e o maior oposicionista a ir para o rooftop), não está pelos ajustes e volta a ligar o seu amp. Temos homem! Mais delicioso ainda é ver o nosso copito de leite preferido, Paul McCartney, indefectível no seu baixo, mesmo depois do John lhe fazer sinal para parar de tocar com a chegada do Sargento, como quem diz “a Bófia chegou!” e o nosso Paul segue como se nada fosse, a gritar GET BAAACK ainda com mais tesão. E ainda goza: “Get back Loretta, you’ve been playing on the roofs again! Your mama doesn’t like that, she’s gonna get you arrested!”. Fantástico. Como não amar o Paul? O epítome do conceito de cool é Paul McCartney em 1969, a cantar no terraço da Apple (temo que me apaixonei pelo Paul neste fim-de-semana). John remata o último concerto dos Beatles com a lendária tirada: “I’d like to say thank you on behalf of the group. I hope we’ve passed the audition.” Claro que sim, John. Até a polícia gostou.
 
Os Beatles voltam ao estúdio no dia seguinte para gravar a maioria dos takes que iriam figurar na versão final de Phil Spector do álbum “Let It Be”. Glyn Johns foi o produtor original das sessões de gravação e compilou duas versões do álbum em 1969, ainda com o seu nome original “Get Back”, ambas rejeitadas pela banda. O projeto foi então completamente abandonado e os Beatles voltariam a gravar poucas semanas mais tarde, desta vez de regresso a Abbey Road, naquele que seria efetivamente o seu último álbum, baptizado com o nome da rua onde fotografaram a capa. Só em 1970, já com os Beatles definitivamente separados, é que John e George convidaram Spector para revisitar as fitas de Janeiro de 1969, resultando na versão que conhecemos de “Let It Be” — Spector deveria ter sido fiel ao conceito inicial do disco de regresso às raízes e levar o nome “Get Back” até ao fim. O disco está longe de ser perfeito, mas também não é o desastre que muitos acusam, eu incluído. Este novo documentário oferece um novo contexto e permite-nos apreciar melhor o álbum maldito dos Beatles. E perceber que devido ao conceito sem filtro e sem rede destas sessões, nunca haverá uma versão definitiva de “Get Back” / “Let It Be”. O mais que podemos fazer é, com a mais recente edição super deluxe, construir a nossa versão favorita.
 
O que é que falta ao documentário Get Back? Mostrar mais takes finais e mais versões completas de músicas. “Let It Be” é um dos poucos álbuns em que temos acompanhamento visual para todas as gravações que ouvimos no disco e seria muitíssimo interessante ter esse emparelhamento. Espero que quando o documentário for lançado em BluRay, seja disponibilizada essa versão visual do álbum “Let It Be”, juntamente com uma restauração do filme original. E já agora, uma versão “limpa” do concerto to rooftop, sem o diálogo com a polícia e as entrevistas de rua. Peter Jackson revelou que a sua versão inicial de Get Back tinha 18 horas e eu espero poder ver essa edição em breve. Pode ser que aí mostrem os Beatles na casa de banho. Até lá, estamos limitados a estas oito horas. É tão bom falar de barriga cheia.

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