Música

Titica: “O kuduro é um estilo muito estigmatizado”

A NiT entrevistou a artista angolana pouco depois do concerto no Rock in Rio Lisboa.
Titica atuou na Rock Street neste domingo.

“Chão Chão”, “Olha o Boneco” ou “Motema Nangay”. São estas algumas das músicas mais célebres de Titica, astro angolano do kuduro — mas também de outras sonoridades — que deu um concerto enérgico na Rock Street do Rock in Rio Lisboa neste domingo, 26 de junho.

Titica tornou-se uma estrela do kuduro em Angola, tendo também já atuado por diversos outros países, e além disso afirmou-se como uma ativista na defesa da comunidade LGBTQIA+, com uma voz ativa sobre o tema, visto que também é uma mulher transgénero. Leia a entrevista da NiT com a artista, pouco depois de abandonar o palco da Rock Street.

Como foi preparar este concerto?
Foi muito difícil, muito stress, poucos ensaios porque nunca tive um concerto tão grande com três dias de ensaios de voz e uma semana de ensaios de dança. Porque tenho bailarinos que vivem em Angola, outros que vivem cá, alguns vivem na Suécia e outros em Paris. Encontrar salas aqui em Portugal para ensaiar, muita preocupação, muita responsabilidade de entregar um show bonito. Foi muito difícil, sou sincera, chorei e tudo. Porque não estava a correr como queria: sou muito exigente comigo mesma e gosto de fazer bem. Já tive uma perda de voz porque fui fazer um show em Leiria, então era tudo uma preocupação. 

E pensou nesta atuação como algo especial?
Muito especial porque é um festival em que sempre almejei cantar — se bem que é a minha segunda vez no Rock in Rio. A primeira foi no Brasil, no Palco Sunset, aqui é na Rock Street. E é muito satisfatório para mim cantar num dos maiores festivais do mundo. 

As músicas que interpretou aqui são aquelas que costuma tocar em Angola, por exemplo?
Algumas são, mas como foi uma hora de espetáculo, foi um repertório de músicas antigas e novas. Normalmente em Angola toco em ambientes noturnos. Neste horário, só assim numa festa de famílias. E tive até algumas dificuldades com os looks por ser de dia. 

Correspondeu às expetativas?
Graças a Deus, sim. Mas nós queremos sempre mais de nós. E, no entanto, foi uma satisfação enorme para mim. Sinto que podia agradar mais, mas foi satisfatório.

Está neste momento a trabalhar em música nova? O seu mais recente álbum é de 2018.
Sim, estou a trabalhar num álbum novo, já estou na quarta obra discográfica. Eu trabalho como produtora independente, sozinha, praticamente há 12 anos. Devido ao Covid parei um bocado, mas agora que está tudo aberto vou retomar a gravação do meu álbum. Dei prioridade ao festival e aos ensaios…

Mas agora vai focar-se mais no novo disco, é isso?
No álbum e na minha internacionalização também. 

Que passos é que está a tomar nesse sentido?
Estando aqui em Portugal, para ser mais fácil haver convites e para ser aceite. Porque há muita dificuldade em convidar de Angola para aqui. Quem não é visto não é lembrado, então decidi dar um tempo fora de Angola e ficar aqui para ver se consigo crescer mais musicalmente. Estou habituada a tocar em vários festivais, mas mesmo assim sinto que deveria fazer muito mais. Por isso é que estou cá uma temporada, um ou dois anos, Deus é que sabe.

Há quanto tempo é que cá está?
Há praticamente sete meses. Não está a ser fácil a minha adaptação aqui, porque a minha rotina diária em Angola é diferente. Estou-me a reafirmar, a reinventar-me, a fazer estilos de música que casam com o povo português — e não só.

Em termos práticos, como é que isso se vai refletir na sua música?
Tenho que ver, porque o kuduro é um estilo de música que retrata a nossa realidade. Então, se eu não como sushi, não vou retratar o sushi — é só um exemplo básico. Mas, além do kuduro, faço outros estilos de música, fusões com R&B, trap funk… Não vou deixar o meu estilo, mas quero adaptá-lo ao estilo português. 

Este novo disco já tem um conceito pensado?
Está a ser trabalhado. Nós fazemos inúmeras músicas e depois escolhemos o perfil do disco. Ainda é muito cedo, mas já tenho algumas músicas gravadas, fotos feitas e um título. Vai chamar-se “Edição Limitada” — sou única, inigualável, diferente. 

Estava a referir-se à adaptação a Portugal. Desde que começou a viver cá, o que é que a surpreendeu mais?
Nada me surpreende, porque frequento Portugal há mais de 10 anos. Então já conheço bem e fiz vários tipos de concertos aqui. Mas nunca fiz um tão grande como este. Mas da vida aqui já estou habituada, lido com portugueses, cabo-verdianos, guineenses… Sou do mundo. Mas agora quero estar aqui para estar mais próxima dos meus fãs na Europa.

A sua internacionalização é a sua maior ambição musical?
É a minha maior ambição musical. Tendo em conta que o kuduro é um estilo muito estigmatizado em Angola, como o funk no Brasil, e músicas urbanas geralmente são muito estigmatizadas… Então a minha ambição é também posicionar o kuduro, quero ser uma grande representante internacional do kuduro. Temos outros estilos de música, mas é o estilo que melhor representa… é o mais internacional do nosso país. 

Estava a falar do estigma do kuduro, e aquilo que também tem muito feito enquanto artista e ativista é representar a comunidade LGBTQIA+.
Exatamente, representar a comunidade e combater a homofobia ou transfobia, mais elevar o estilo de música [kuduro], é muita batalha para uma só pessoa [risos]. É muita responsabilidade, por isso é que não gosto de fazer mal o meu trabalho. Gosto de fazer mesmo bem e representar bem, orgulhar. 

Sente que esse lado mais ativista tem contribuído para mudar mentalidades em Angola?
Ajuda muito, é uma inspiração. Antigamente era uma cantora só, cantava por cantar, mas desde que descobri que inspiro pessoas… Não pela minha orientação sexual, mas toda a gente acompanhou a minha trajetória. Vim da dança, acompanhei cantoras conceituadas de kuduro, e tornei-me uma inspiração para os que vêm do gueto e da periferia, da comunidade LGBT. Já recebi mensagens de pessoas que se tentaram matar porque são gays e nasceram diferentes, dou conselhos e também os deixo nalgumas músicas. A minha missão é posicionar-me. Mas sou aquela militante que não faz frente com ninguém. Sou daquelas que conquistam pelo lado positivo: não tens de me aceitar, não tens de ouvir a minha música, não. Devagarinho vou conquistando e, graças a Deus, o meu carisma e a minha música têm falado mais alto do que a minha sexualidade.

O que é que ainda não fez em Portugal, mas quer mesmo concretizar?
Muitos shows [risos]. Há muitos festivais que ainda não conheço e há muitos em que poderia estar como cantora. Vamos trabalhar para chegarmos lá. Se já chegámos ao Rock in Rio, então falta pouco para chegarmos aí também.

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