Música

Tó Trips: “O ministério da cultura é fachada, não existe. Pode ser que agora mude”

A NiT entrevistou o músico sobre a banda sonora de “Surdina”, o período de confinamento ou as dificuldades do setor da cultura.
Foto de Nuno Carvalho

2020 era um ano especial para Tó Trips. Afinal, era o ano da despedida dos Dead Combo, que estavam a fazer uma última tour de norte a sul do País. Por causa da pandemia, o fim foi adiado para o próximo ano — já que grande parte dos concertos tiveram de ser reagendados.

Além disso, o músico português ia lançar um novo disco com o seu mais recente grupo, os Club Makumba, que estava previsto para maio. A ideia, depois, era arrancar com uma tour de apresentação. Tal também não foi possível.

Num ano de incertezas e de extremas dificuldades para o setor da cultura — algo que Tó Trips já tem abordado publicamente — o músico conseguiu, pelo menos, compor a banda sonora para “Surdina”, filme realizado por Rodrigo Areias, que estreia nos cinemas a 16 de julho. De seguida, vai haver uma mini digressão por cinemas com a música da produção tocada ao vivo por Tó Trips.

A NiT antecipou a estreia do filme para falar com o músico português sobre a banda sonora, sobre este ano tão atípico, o período de confinamento, as transformações em Lisboa, os problemas do setor da cultura e — porque não? — jardinagem. Leia a entrevista.

Como é que se envolveu neste filme inicialmente?
Já conheço o Rodrigo Areias há uns bons anos, somos amigos. E costumo trabalhar com ele para fazer cartazes, fiz para o Edgar Pêra [com quem Rodrigo Areias trabalha como produtor], fiz também posters para bandas sonoras do Tigerman, ele esteve na produção do videoclip do “A Bunch of Meninos” e agora convidou-me para fazer a banda sonora do filme dele, “Surdina”. 

Como foi criar a música para este filme? O primeiro passo é vê-lo, não é?
Vi o filme, tem um lado meio nostálgico e cómico. Fui mais para o lado sobre ser um filme sobre velhice, do tempo, cenas de memórias, fui por aí. Tento fazer uma música para um genérico e a partir daí faço o resto. Nos últimos anos tenho feito muitas bandas sonoras, mais com Dead Combo, é algo de que gosto de fazer e é sempre um desafio — e desta vez fiz sozinho.

É uma responsabilidade maior quando se trata de uma banda sonora, já que se trabalha para um filme, em comparação quando é um disco, que vive por si mesmo?
Não sinto muito a cena da responsabilidade, curto bastante de fazer porque às vezes o pessoal nas bandas sonoras experimenta coisas diferentes, vai por outros caminhos, tem outro tipo de instrumentos. 

Há algum tipo de banda sonora que ainda não tenha feito, mas que adorasse compor?
Gostaria de fazer uma coisa tipo filme negro, mais a ver com crimes e noites. É o tipo de cena que me agradaria. Mas acho que a cena das bandas sonoras tem um lado fixe de ser eclético, de experimentar outras coisas e de sair um bocado do que se costuma fazer. Ambientes sonoros são fixes de se fazer. Basicamente ponho o filme em timeline no Logic Pro e vou experimentando coisas, normalmente componho sempre com guitarra, mas depois posso colocar outros instrumentos.

Houve algum desafio específico neste filme, que tenha sido diferente?
Foi a primeira vez que toquei piano [risos], ainda não tinha feito. Experimentei meter piano porque como é um filme que trata da velhice, o piano seria um bom instrumento para passar esse lado do tempo, algo mais tradicional ou popular. 

Estes últimos tempos, que obviamente foram diferentes para todos nós, foram criativos ou nem por isso?
Sim, sim. Como o pessoal ficou em casa, como toda a gente, tenho feito coisas em guitarra para cenas a solo, fiz músicas com a minha mulher [Raquel Castro] — uma cena de spoken-word —, normalmente toco todos os dias. Tenho outra banda que são os Club Makumba que iam lançar um disco em maio deste ano, já está feito, e íamos começar uma tour no mesmo mês, mas com isto tudo adiámos para o próximo ano. Não valia a pena lançar um disco de uma banda nova no meio desta confusão, era mandar um tiro para o ar.

E a própria digressão de despedida dos Dead Combo também foi afetada, foi um fim adiado. Têm sentido que estes últimos concertos têm sido especiais?
Sim [risos], adiámos para o próximo ano. Os concertos têm esgotado sempre, mas normalmente já esgotam ou estão perto de esgotar, mas como são os últimos as pessoas aderem mais. Agora não sei como é que vamos fazer isto. Uns foram cancelados por serem de festivais, mas os dos auditórios foram adiados para outubro e novembro, não sei o que é que se vai passar nessa altura. E também não sei como é que será. Alguns estão esgotados, não sei se fazemos duas vezes ou se fazemos matiné e à noite [por causa das restrições da lotação], sei lá… Isto é tudo cenas novas para toda a gente.

Também acaba por ser um lado frustrante — mais um — desta altura.
Sim. Agora com a cena do “Surdina” vai ser fixe porque em julho vamos fazer uma tour por cinemas, comigo a tocar ao vivo. É trabalho. Só que é com uma limitação de pessoas na sala.

Vão ser os seus primeiros espetáculos desde que a pandemia começou?
Não, já tive um espetáculo de Dead Combo no castelo, mas foi transmitido pela câmara, na noite de Santo António, sem público. No dia 11 vamos ter também uma noite de Dead Combo em Ílhavo, no centro cultural.

Tó, tem-se dito que os Dead Combo em cada álbum acabam por retratar a Lisboa daquele momento, ou a vossa visão da Lisboa de cada período. Sei que esta é a digressão de despedida, mas que tipo de disco é que os Dead Combo fariam para esta Lisboa pandémica, vazia?
Sei lá [risos]. Por acaso é uma coisa que me deixa bastante triste quando vou a Lisboa. Agora já não vivo em Lisboa, há três anos mudámo-nos aqui para ao pé da praia, perto da Costa da Caparica. Mudámos porque vendemos a casa em Alvalade e não conseguíamos comprar outra. Tínhamos que pedir um balúrdio de empréstimo. Ou seja, somos um bom exemplo de pessoal que sempre viveu em Lisboa e teve que sair de lá. E hoje em dia quando vou a Lisboa tenho bastante pena porque é uma cidade fantasma. Noutra vez estava a uma quinta-feira no Largo Camões e aquilo parecia um domingo à tarde antes daquela invasão dos turistas. Fico triste.

E o facto de isto ter acontecido pode fazer com que Lisboa regresse aos tempos antes dessas tais invasões massivas de turistas?
Eu acho que isto é o mais difícil, porque Lisboa transformou-se para os turistas: os restaurantes, os hotéis, os hostels. Correram com as pessoas, não é? Eu quando era mais novo vivi muitos anos no Bairro Alto, parava ali, tinha a sala de ensaios na ZDB. Sempre houve turismo em Lisboa, mas não daquela maneira. Eu conhecia muita malta nova da altura, toda a gente vivia por ali. E hoje em dia já ninguém vive ali. Ou quem vive é pessoal que tem muito dinheiro e que se calhar não faz parte da vida dali do dia a dia. Estou a falar ali da zona do Chiado, do centro. Já não vive ali ninguém. Então não sei como é que isso vai voltar. Não há turistas, e não há pessoas a viver, é horrível. Há sempre soluções para as crises, mas se calhar vai demorar anos. Eu já tenho 54 anos, mas o que me preocupa é mais a geração da minha filha que vai fazer 19, ou malta mais nova, que vai começar a sair de casa dos pais, ter a sua vida, e nunca consegue viver em Lisboa. Quando acho que é uma idade fixe para se viver em Lisboa. E isso é uma coisa que foi tirada a essa geração de pessoas.

Portanto, a sua geração foi mais afortunada nesse sentido.
Foi, nesse sentido foi. Eu quando vivia ali ou estava na ZDB quando saía, fossem que horas fossem, encontrava sempre malta nova, que vivia por ali. Uns em quartos, outros em casas alugadas, outros com casas próprias. E isso hoje em dia é impossível. Correram com o pessoal todo, as rendas são exorbitantes. Encontrei uns putos numa sala de ensaios, era uma banda de heavy metal, e eles a dizer: não conheces aí uma casa para alugar? Eram cinco miúdos, na casa dos 20 e tal anos, estavam os cinco a alugar um quarto na mesma casa e o senhorio correu com eles. Ele já fazia quase dois mil euros de renda com os miúdos e ia correr com eles porque ia alugar aquilo para Airbnb porque fazia muito mais dinheiro. Pá, é isso, nem eles todos juntos alugando… Eram miúdos novos que mereciam… aliás, a cidade é que merecia que eles vivessem lá. A cidade só é viva com a malta nova.

E também é aquele paradoxo de que a cidade só é interessante, até para os turistas, porque tem a sua cultura e as suas pessoas.
Sim, exatamente, e coisas a acontecer. E isto não foi só Lisboa, foi nas grandes cidades: Londres, Paris, Nova Iorque. A última vez que fui a Nova Iorque também fiquei assim: eish, fogo, é só turismo. São cidades que sempre tiveram turismo, mas de repente é tudo… O centro é uma coisa massificada de turismo, e de repente acontece isto, e a cidade mudou completamente, bares, restaurantes, hotéis, hostels, alojamentos locais, as lojas com galos de Barcelos e aquelas tretas todas… E agora de repente tiraram o chapéu a essa gente. Essa gente nem vai beneficiar dos turistas nem das pessoas que viviam ali, porque já não há ninguém.

E esta pandemia tem exposto também as fragilidades e os problemas do setor da cultura em Portugal, como o Tó já disse publicamente.
Sim, dentro desta calamidade a coisa boa foi trazer à tona uma coisa que já anda há anos assim. 

E pode realmente ser algo positivo, por trazer atenção para o problema?
Eu acho que sim, porque se não… vamos continuar na mesma? Vêm aí tempos muito difíceis, porque vêm, de certeza, como as coisas estão… O facto de termos a cidade vazia, imagino o que é isso economicamente. Pessoas que perdem empregos, que não têm onde trabalhar, isto ainda vem aí. Há pessoas a receber apoios, outros não, mas o pior ainda está para vir. Noutro dia estava uma amiga a dizer que a Zara vai fechar 1200 lojas. Eu estou-me a cagar para a Zara, mas imagina o que é isso ao nível do desemprego. Claro que são 1200 no mundo inteiro, mas cá se calhar também vão fechar. Ou seja, vai fechar muita coisa, há muita gente que não vai aguentar. E a cultura já anda nisto há muitos anos. Pelo menos esta crise trouxe à tona um problema que não é só de agora, não é só deste governo, é de vários para trás.

É algo estrutural.
Basicamente o ministro da cultura é o ministro das finanças. O ministério da cultura é uma fachada, não existe. Mas talvez agora, com isto tudo… Tem que haver um projeto para trabalhadores intermitentes, sejam artistas ou pescadores, trabalhos de freelancers, que é normalmente o que os músicos são. Não só músicos, mas designers, jornalistas. Vem aí dinheiro, mas não vai chegar para tudo, para a desgraça que vai ser. Não gosto de ser pessimista, mas vêm aí tempos muito difíceis. E preocupa-me muito, tenho três filhos — dois ainda são putos, mas a mais velha vai fazer 19 — e toda essa malta nova, que ia lá para fora com Erasmus, com sonhos de ir para fora estudar… ela estava a pensar ir para Berlim. Toda essa geração de malta vai ser sacrificada por causa disto. Quando é que isso vai voltar… são tempos muito estranhos. Tenho pena porque as pessoas mais novas deviam estar a fazer pelos sonhos que têm. Preocupa-me bastante mais essas gerações. Eu, pronto, tenho 54 anos, tenho de me preocupar com ter trabalho para esta malta comer aqui em casa [risos], mas já sei o que é que faço. A malta nova que está a sonhar fazer isto ou aquilo, não sei o que é que vai sair daqui. Que esta merda passe depressa.

Os seus filhos envolvem-se de alguma forma na sua música?
Não, não. Gostam de música, mas gostam mais de cenas de hip hop [risos]. Ainda os metemos na Música, porque achamos que é algo importante na formação das pessoas, mas nem quero que eles sejam músicos. Eles que sejam o que quiserem. Metemo-los na Música mas já não estão, preferem outras coisas. 

Estava a falar de tempos estranhos. Neste período de isolamento, de incerteza, tem visto tudo isto com uma perspetiva mais pessimista ou com esperança?
Tenho que ter esperança, não é? Tenho miúdos. Tenho esperança que isto tenha que mudar. Pela primeira vez no mundo estamos todos juntos, no sentido de que levámos todos com isto. Tenho esperança e quase a certeza de que o pessoal vai dar a volta a isto. Agora, que vai demorar uns anos, vai. Sacríficio. E nós somos um País sempre ligado a esse lado do sacrifício, nunca tivemos… Finalmente, agora nos últimos anos parecia que estava tudo bem à conta do turismo, economicamente, com outro lado mau da moeda. E agora voltámos outra vez. São gerações e gerações de pessoal sempre a trabalhar, a ter pouco dinheiro, é sempre assim.

Acredita que estes tempos se têm refletido na música que tem criado em casa?
Não, só fiz uma coisa com a minha mulher que é “Aos Justiceiros de Sofá”, uma música com ela a dizer um poema, que até pusemos na net, mas não é para levar ao vivo, mais ligada à anormalidade que está a voltar aí outra vez, do racismo. Foi uma maneira de a gente se exprimir, mas foi a única coisa, de resto não. A única coisa que me influenciou foi tentar fazer coisas diferentes aqui em casa. Na música ir por outros caminhos, coisas com dubs, outras que ainda não tinha tido tempo para experimentar. Outros géneros de música, até para variar e descobrir, porque é fácil um gajo cair sempre na mesma coisa. O que eu mais gosto também é de tocar ao vivo.

E já tem saudades disso, imagino.
Sim, tenho bué saudades [risos]. Não é só o tocar ao vivo. O tocar ao vivo para mim não é só… tanto gosto de tocar como de dançar, gosto é de estar nessa celebração, estar com pessoas, esse lado social da música, gosto disso. Seja a ir tocar ou a ver um concerto, estar com amigos. Os momentos em palco são apenas um momento, depois é toda a envolvência que isso tem, com a malta, com os técnicos, com o público, com irmos bebermos um copo depois ou falarmos com pessoas, a viagem também. Sair de casa, estar fora. 

Que é uma vida pouco caseira comparada com aquela que fomos todos obrigados a fazer nos últimos tempos.
Sim, sim. Quando há muitas datas passa-se muito tempo fora. Mas depois quando venho para casa sabe bem. Posso ir levar os miúdos à escola, vê-los, tens esse tempo. É fixe. 

No tempo extra que teve em casa, aproveitou para fazer alguma coisa de diferente, experimentar um hobbie novo?
Descobri, quando vim viver para aqui para ao pé da Fonte da Telha, a malta tem um jardinzinho, uma horta, e vou fazendo jardinagem, faço coisas em madeira. Fiz estacas, fiz uma casota para os cães, uma cerca. Descobri que tenho essa… quando vivia na cidade não sabia que tinha essa cena. Gosto disso. Planto, corto, podo árvores. Há coisas que um gajo não sabe, e depois vai para outro lado e descobre. 

Por isso também tem sido bom viver fora de Lisboa.
É. Por um lado fiquei chateado por sair de Lisboa, mas hoje em dia não estou arrependido. Se nos apetecer ir à praia vamos à praia, estamos a cinco minutos, é uma coisa de que eu gosto, seja no verão ou no inverno, dar uma caminhada. Agora para a malta nova acho que devem viver na cidade. Mas pronto, vamos ver se isto se altera. O pessoal da câmara tem que pensar que se calhar era fixe voltar a ter malta nova na cidade. Não é com estas bolhas imobiliárias que se vai ressuscitar a cidade. E esse tacho das pessoas que estiveram a ganhar muito dinheiro com isto tudo acabou.

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