opinião

Tudo é possível quando espalhas sementes do amor: uma carta a “The Seeds Of Love”

Sentem-se e leiam a (longa) carta de amor que o crítico da NiT escreveu ao terceiro álbum dos Tears For Fears
Roland Orzabal e Curt Smith

O álbum mais ambicioso dos anos 80 acaba de ganhar uma edição de luxo, que finalmente faz jus ao espectro maior que a vida que os 50 minutos originais apenas conseguiram arranhar. Se os anos 60 tiveram “Smile” dos The Beach Boys e os anos 00 tiveram “Chinese Democracy”, dos Guns N’ Roses, os anos 80 tiveram “The Seeds Of Love” e, nesta categoria dos álbuns impossíveis de resolver, “Seeds” foi o único novelo que se desatou.

Depois de quatro anos em gestação, um rodopio de produtores a entrar e sair do estúdio e mais de um milhão de libras gastos (um recorde à data), “The Seeds Of Love” viu finalmente a luz do dia em Setembro de 1989, revelando uma sonoridade orgânica, completamente nova, para desilusão de alguns e espanto de todos. “Onde é que estão os sintetizadores?”, perguntaram os ouvintes mais belenenses, ávidos de sucessores de “Shout”, “Everybody Wants To Rule The World” e “Head Over Heels”. Os sintetizadores desapareceram, para dar lugar a instrumentos reais e pinturas sónicas sistinas. “Para criar algo de novo, é preciso destruir primeiro”, disse Roland Orzabal acerca de Seeds. “É um processo doloroso e moroso, mas ultimamente necessário”. 

A criação de “The Seeds Of Love” foi de tal forma dolorosa, que minou a relação do duo Curt Smith / Roland Orzabal e, em última instância, acabou por destruir os Tears For Fears. Curt foi posto de lado no processo criativo e até no disco foi substituído no baixo por Pino Palladino e na voz por Oleta Adams. Curiosamente, tinha sido Oleta a luz que iluminara o caminho da mudança para os Tears For Fears.

Foi num fim de noite em Kansas City, a meio de uma extenuante digressão americana que parecia nunca ter fim, que os Tears For Fears viram a luz. Estávamos em Junho de 1985, em pleno auge do sucesso de “Songs From the Big Chair”, mas para Roland e Curt, a cada concerto as músicas soavam cada vez mais estáticas e monótonas. Ninguém se divertia em palco. Quando viram Oleta Adams a ferver ao piano de um bar, no hotel onde estavam hospedados, Roland e Curt ficaram vidrados. Como é que ela imprimia tanta paixão e intensidade na sua música, só com um piano e perante um dúzia de pessoas, ao passo que eles sentiam que os seus concertos eram apenas mais uma noite no escritório, perante salas esgotadas de 12 mil pessoas? “Porque é que não nos conseguimos divertir assim?”, indagou Roland. Foi o ponto de partida para a revolução de “The Seeds Of Love”.

A direcção estava escolhida, mas o caminho foi tortuoso. Foram quatro anos de trabalho árduo de estúdio, de fazer e desfazer, baralhar e voltar a dar, que produziram uma miriade de visões e versões alternativas, que agora podemos ouvir, neste espreitar por trás da cortina das lendárias sessões de Seeds, que é esta edição de luxo. 

A Bíblia dos sonhos

Em 2020, chega finalmente a tão esperada edição de luxo de “The Seeds Of Love”. Depois de cinco anos a ser empurrado em sucessivos adiamentos, o terceiro álbum dos Tears For Fears vai finalmente receber o tratamento expansivo que tanto merecia, numa caixa com quatro CD e um Blu-Ray, lançada esta semana.

A caixa traz a habitual remasterização do álbum no primeiro disco e a colectânea completa dos lados B no segundo. Mas a jóia da coroa são dois discos carregados de faixas de improviso em estúdio, num pequeno olhar sobre estas lendárias sessões, das quais, segundo consta, resultaram mais de 24 horas de fitas guardadas na cave de Roland Orzabal. Infelizmente, “só” (!) vamos ter acesso a três horas destas cassetes. Digo isto porque passei os últimos dias completamente imerso nas sessões de Seeds e, ao fim das 3 horas, estou como o miúdo incauto a quem ofereceram um gelado — “o que é que se diz?” Quero mais!

“The Seeds Of Love” é talvez o disco mais imaculadamente produzido que eu já ouvi, onde todos os detalhes da paisagem sónica foram obsessivamente analisados. É absolutamente fascinante perceber como é que estas peças de fino recorte evoluíram, desde a fase embrionária das primeiras gravações caseiras, passando pelo improviso orgânico do estúdio, até à versão polida que ouvimos no álbum. Pelo meio, somos brindados com algumas pérolas instrumentais, como a Early Mix do hit “Sowing The Seeds Of Love”, que põe a nu todas as texturas com se coseram este disco. As versões instrumentais são, aliás, uma das delícias que povoa esta caixa e que nos permite apreciar o magnífico trabalho de estúdio dos Tears For Fears.

Por entre a inúmeras preciosidades que aqui encontramos, tenho que ressaltar as tão antecipadas versões dos TFF de “Rhythm Of Life” — tema que acabou por ficar fora dos álbum e como tal foi oferecido a Oleta Adams, que o lançou como single de avanço do seu álbum de estreia “Circle Of One” (que também vale a pena ouvir). Ouvimos primeiro a demo caseira de Roland Orzabal e depois a deliciosa versão de improviso nos Townhouse Studios. Uma pena que “Rhythm Of Life” não tenha chegado à versão final. Mas honra seja feita aos Tears For Fears, se há uma conclusão que se pode tirar deste mergulho nas sessões de Seeds, é que as decisões tomadas na produção da versão final do álbum foram quase todas acertadas. Mesmo tendo em conta alguns lados B superlativos, casos do inquieto “Always In The Past”, do atmosférico “Music For Tables”, ou das infusões de World Music em “Tears Roll Down” e de Hip Hop (!) em “Johnny Panic And The Bible Of Dreams” — todos eles reunidos no segundo disco desta caixa.

As jam sessions e as sessões abortadas com os produtores rotativos (temos até uma versão Hip Hop do Rocker “Year Of The Knife”!) surgem no terceiro e quarto discos e são, sem dúvida, o ponto alto desta caixa. É como escreve em cima – chegamos ao fim e ficamos com vontade de mais. Ou então sou eu, que sou gajo para mamar as 24 horas dos Tears For Fears a improvisar sobre temas como “Badman’s Song”, ou “Standing On The Corner Of The Third World”. Não esquecer ainda a nova remistura do álbum em surround pelo mestre sónico do Prog, Steven Wilson, sobre a qual eu ainda não me posso pronunciar, uma vez que o meu sistema de som só está preparado para o stereo. Mas os especialistas já ouviram e aprovaram.

The sun and the moon, the wind and the rain

Esta reedição dá-me também a oportunidade de dizer tudo aquilo que eu sinto por este álbum. E ó, meu Deus, há tantos sentimentos para falar. Amo “The Seeds Of Love” como umas meias quentinhas num dia de inverno. Nem de propósito, como o dia londrino em que vos escrevo. Porque é exactamente isso que este álbum representa — aconchego, conforto e segurança —, um disco tão quentinho que só apetece abraçar. E tudo isto veiculado numa expressão artística visceral, de perfeita comunhão com o universo, por via de uma lírica preenchida com simbologia dos astros e dos elementos — “O sol e a lua, o vento e a chuva” (“The sun and the moon, the wind and the rain”) — uma expressão repetida em nada menos que três dos oito temas do álbum e que visa transcender a complexa condição humana, ao infinito que nos rodeia.

“The Seeds Of Love” é um dos álbuns da minha vida, mas ao contrário da maioria dos restantes desse panteão, importantes numa determinada fase e depois desvanecidos no tempo e na memória, Seeds tem a particularidade de ver o meu apreço crescer com o passar dos anos. Como um bom vinho. Demorei anos a aquecer para o caos jazzista de “Badman’s Song” no Lado A, mas hoje, aqueles 9 minutos passam a correr. A inocência deliciosa de “Advice For The Young At Heart” ainda me derrete o coração. E sequência etérea do Lado B, desde “Standing On The Corner Of The Third World”, até “Famous Last Words” toca como a banda sonora do meu porto seguro, longe no espaço e no tempo de tudo que é stress, problemas e desamores. “Dreaming I was safe in life, like mussels in a shell”, canta Roland em “Standing On The Corner Of The Third World”, numa linha que resume toda a atmosfera do álbum “The Seeds Of Love”.

Deixemo-nos de falsas modéstias — o arco discográfico dos Tears For Fears nos anos 80 é nada menos que perfeito. Começando na sonoridade urbana e contraída (agora tão em voga) da Synthpop de “The Hurting” (1983), passando para o big sound TrevorHorniano de “Songs From The Big Chair” (1985), e terminando na cataplana de fusão de Jazz, Sould, Rock, Psicadelismo, Hip Hop e World Music que foi “The Seeds Of Love”, todas as disciplinas dos anos 80 foram dominadas pelos Tears For Fears. Neste árido contexto pandémico, nada melhor que saciar a nossa sede de emoções, nesta palete de sons, cores e sabores que é a caixa de “The Seeds Of Love”.

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