Música

Vem aí o primeiro álbum de Luís Trigacheiro: “Procurei muito ser eu próprio”

O disco do vencedor do "The Voice" tem músicas compostas por Diogo Piçarra, António Zambujo, Carminho ou Luísa Sobral.
Falta uma semana e meia.

Em 2020 Luís Trigacheiro venceu “The Voice Portugal”, um programa de televisão no qual foi inscrito por amigos, sem o seu conhecimento. Natural de Beja, e com experiência em grupos de cante alentejano, foi ultrapassando cada etapa do concurso de talento, adaptando a sua interpretação de cariz regional a várias canções portuguesas.

A vitória foi o incentivo necessário para que o jovem — na altura estudante do curso de Agronomia — começasse a levar a música mais a sério. Um dos prémios do primeiro lugar no “The Voice” foi um contrato com a editora Universal Music Portugal para o lançamento do disco de estreia.

Esse álbum está prestes a chegar. Chama-se “Fado do Meu Cante”, é editado a 13 de maio e apresentado ao vivo no dia 26. Luís Trigacheiro vai tocar no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e os bilhetes já se encontram à venda, entre 12,50€ e 20€.

Em conversa com a NiT,  o cantor admite estar “ansioso e nervoso, à espera do feedback” que o disco irá gerar. O processo de construção do álbum começou cerca de dois meses após a final de “The Voice Portugal”. “Foi quando se começou a conversar e a recolher repertório. Entretanto, foram lançados alguns singles e depois começámos a fazer uma seleção dos temas que nos chegavam”, conta.

“Meu Nome é Saudade”, “Peixe Fora de Água” e “Quem Me Vê” foram os temas divulgados para antecipar “Fado do Meu Cante”. O disco foi construído com a colaboração de vários compositores e músicos. António Zambujo, Carminho, Diogo Piçarra, Luísa Sobral, Joana Espadinha e Diogo Clemente foram alguns dos que criaram temas para o projeto. 

Para o álbum foi também musicado um poema de Florbela Espanca, foram incluídas duas canções populares e um par de composições do próprio Luís Trigacheiro. Destacam-se ainda as letras de Paulo Abreu Lima, letrista de Mariza e Rui Veloso, que viveu no Alentejo e faleceu há um ano, com 68 anos. Luís Trigacheiro chegou a privar com ele, e considera que este disco é, de alguma forma, uma homenagem à sua obra.

“O processo foi incrível só pelo facto de poder ter trabalhos feitos por alguns dos maiores artistas do nosso País. Foi ótimo, senti-me um privilegiado ao mais alto nível. Gostava de ter tido oportunidade de colaborar com eles pessoalmente, o que não aconteceu, por causa da pandemia. Na altura, quando começámos a recolher repertório, pedíamos e as coisas chegavam-nos, mas o processo é muito mais giro e criativo quando é feito ao vivo. Surgem sempre ideias diferentes, que se fundem e criam coisas novas. É uma mais-valia. Não havendo essa oportunidade, foi ótimo poder contar com obras de grandes referências.”

Luís Trigacheiro explica que o objetivo deste disco é que funcione como uma apresentação oficial ao público — daí a preponderância para os temas originais, em vez de versões distintas de canções já conhecidas. “Isso poderá fazer sentido num segundo ou terceiro álbum — talvez mais no terceiro. Porque já estás mais dentro do mercado, da indústria, conheces mais pessoas, mais música e tens outra facilidade de fazer uma versão de algo que já exista e que valha a pena ser criado. O primeiro álbum é uma carta de apresentação ao mundo e, como tal, deves ser um pouco egoísta nesse sentido e apresentares-te sobretudo a ti.”

E acrescenta: “Procurei muito ser eu próprio neste trabalho. Procurei descobrir formas de interpretar e de apresentar músicas diferentes, dentro daquilo que é a minha identidade, claro. Ao mesmo tempo acabei por descobrir essas nuances novas que nunca tinha experimentado a cantar. Foi um processo de descoberta enquanto fazia o disco”.

O tema “Fado do Meu Cante”, que dá nome ao álbum, é especialmente simbólico porque representa as suas raízes do cante alentejano, mas também o fado, género tradicional de que se tem vindo a aproximar. “O tema fala do que eu sou e do que é a minha vida neste momento e da mudança do Alentejo para Lisboa. No álbum, claro que tenho cante alentejano porque faz parte da minha forma de interpretar e da minha pessoa. Por ser uma das minhas grandes raízes, inevitavelmente vai estar presente. O fado está presente pontualmente. Não sou fadista, mas tenho alguns trejeitos do fado, de o ouvir cantar. Acaba por ser uma mistura das duas coisas.”

Luís Trigacheiro conta que a experiência em “The Voice Portugal” fê-lo evoluir de forma determinante — até porque foi a primeira vez que se apresentou a solo. “Nunca o tinha feito e nunca tinha recorrido a formas de interpretação que hoje utilizo porque nunca me tinha sido pedido, nunca tinha sido necessário. Antes era muito brusco a cantar, não tinha bem noção, não me defendia, não utilizava registos mais leves e agudos. Punha sempre muita força na maneira como cantava. agora já tento conciliar as duas coisas e faço uma interpretação mais intermédia, porque também comecei a ouvir mais música e a escutar mais o silêncio. A música não tem que ser só cantada com força e power. A música tem silêncio e deve ser respeitado — o silêncio é incrível.”

Neste disco estreia-se com algumas composições, algo em que deseja continuar a investir, mas que alega ser desafiante. “Já comecei a compor, mas muito com base na minha ignorância musical porque, do pouco que sei, grande parte vem do facto de ser autodidata. Gostava de saber muito mais mas sou um bocadinho preguiçoso. Às vezes, a minha vontade de saber mais perde-se na minha preguiça. Mas, sim, já consigo compor algumas coisas e vamos ver o que aí vem.”

Luís Trigacheiro é de Beja.

E acrescenta: “Também sinto que escrever não é fácil. Às vezes, tenho ideias mas são só pontas soltas, não são suficientes para construir uma história de três ou quatro minutos, que é basicamente um texto. Não é fácil. Às vezes faltam-me palavras e acontecimentos para aquilo fazer sentido. Todas as pessoas com quem tenho falado, dizem que escrever é muito mais fácil quando lês. Tens que ler muito, tens que te instruir muito, ler coisas distintas e muitas obras diferentes, e depois a escrita torna-se mais fácil. Claro que, se escreveres todos os dias, torna-se um exercício, começas a praticar e desenvolve-se mais facilmente”.

Ainda antes do álbum, o músico deu inúmeros concertos nalguns circuitos. E espera que se intensifiquem cada vez mais a partir de agora. “No início acontecia sobretudo na zona centro e sul. Agora já começamos a ter alguns concertos para o norte, nas ilhas. Portanto, as coisas estão a acontecer de dia para dia. É um processo que leva o seu tempo, mas posso considerar-me um sortudo, porque ainda não tenho um álbum cá fora e tenho tido imenso trabalho.”

Quando lhe perguntamos o que ambiciona para o seu percurso, diz querer ter “uma carreira longa e próspera”. “Gostava de trazer algo de novo à música portuguesa e que esse algo novo pudesse ser apresentado ao mundo de forma a que a nossa música e o nosso País chegassem a outras pessoas e gerassem curiosidade. Tanta que as faça visitar e conhecer Portugal de ponta a ponta. O nosso País tem tanta cultura e musicalidade distinta que grande parte dela é mal aproveitada e não é conhecida nem por nós. portugueses. Fazer fusões de toda essa cultura seria interessante. Portanto, criar uma linguagem nova.”

Quanto ao curso de agronomia, assegura que gostaria de o concluir, ainda que não seja possível conciliar a música com a agricultura, enquanto profissões. “É um curso que adoro, uma área de que gosto muito, e gostava de conhecer muito mais e trabalhar também nessa área. Infelizmente não dá para conciliar as duas coisas. No máximo poderei ajudar o meu pai na exploração que tem, mas gostava muito de concluir o curso. Não é para dizer que tenho um curso, não é disso que se trata, é mesmo para ter os conhecimentos básicos para, se algum dia tiver de apostar na área da agricultura, saber no que me vou meter.” Um plano B caso a música não funcione? “Por exemplo. Ninguém sabe o dia de amanhã. As coisas hoje correm bem, amanhã podem correr muito mal. Ter uma segunda opção é sempre bom.”

Mas talvez não seja preciso. Afinal, Luís Trigacheiro tem a agenda cada vez mais preenchida e está prestes a mostrar qual é o fado do seu cante. 

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