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“Working Men’s Club” e os outros grandes álbuns que 2020 nos deu

O cronista musical da NiT escolheu os seus álbuns favoritos de 2020. Há muita coisa para ouvir.
Os Working Men's Club (Crédito: Andy Nicholson)

Chegámos aos últimos dias do ano mais estranho das nossas vidas, tempo para o habitual resumo discográfico do ano. Sem mais demoras, passemos então ao Top dos 10 melhores álbuns que ouvi em 2020 (na verdade são 11), numa seleção com discos para todos os estados de espírito, apropriada para o ano esquizofrénico que agora finda.

 

0. Neil Young – “Homegrown”

Neil Young lançou a confusão nas minhas listas anuais, ao tirar da gaveta um álbum gravado em 1974, que viu a luz do dia pela primeira vez em 2020. E que álbum. “Homegrown” era a peça que faltava para entender a trilogia Ditch (que afinal é uma quadrilogia) – a fase mais introspectiva e mais fascinante da carreira de Neil Young. Um disco sobre um amor perdido, fechado a sete chaves por ser demasiado pessoal e Neil querer, na altura, seguir em frente com a sua vida. Num ano em que o mundo se viu numa espiral destravada rumo ao abismo, Neil Young resolveu lembrar-nos daquilo que realmente interessa – o amor. Como olhar então para “Homegrown”? É demasiado ancorado a 1974 para ser um disco de 2020, mas grande parte do álbum é música “nova”, completamente desconhecida até este ano e de tal forma superlativa que tinha que ter um lugar nesta lista. Fica então com o número “zero” e serve de prefácio para a contagem dos álbuns lançados no último ano e gravados, enfim, mais recentemente.

Faixa essencial: “Separate Ways”

 

10. Destroyer – “Have We Met”

Sou fã dos Destroyer desde “Kaputt”, lançado em 2011 e um dos melhores discos da última década. Desde então, Dan Bejar tem tentado abordagens radicalmente diferentes em cada novo álbum, com resultados naturalmente dispersos. O anterior “ken” (2017) fora um trabalho mais de grupo e curiosamente, achei-o menos interessante que este “Have We Met”, que teve uma gestação solitária em duas fases distintas: primeiro, Bejar compôs tudo e gravou as demos sozinho em casa; depois, o baixista dos Destroyer, John Collins, produziu e aumentou as faixas no seu iPad e chamou o habitual guitarrista da banda, Nicolas Bragg, para acrescentar umas linhas de guitarra. Et voilá, um ano antes do ano do lockdown (o álbum foi lançado em Janeiro), os Destroyer fizeram um álbum em isolamento, sobre o isolamento. E o melhor desde “Kaputt”.

Faixa essencial: “Cue Synthesizer”

 

9. Perfume Genius – “Set My Heart On Fire Immediately”

Comecei a acompanhar o Perfume Genius (Michael Hadreas) em 2014, aquando do seu álbum “Too Bright” e desde então tem sido sempre a subir. “Set My Heart On Fire Immediately” não parece só o culminar de toda a sua discografia e temática anterior, é um cocktail esquizofrénico de influências, uma miríade de estilos que tornariam este parágrafo demasiado penoso de ler, se eu começasse aqui num name-dropping. Também penosa – ou catártica, depende do ponto de vista – é a audição do álbum do princípio ao fim, de uma vez só. Num disco de forma grandiosa, mas conteúdo introspectivo, a intensidade da voz, da lírica e da música, fazem de “Set My Heart On Fire Immediately” um verdadeiro desafio. Sonicamente, o álbum dispara para todas as direções, mas consegue manter um fio condutor etéreo e temático. Viajamos sobre as nuvens, na voz dorida de Hadreas, acompanhando a eterna luta contra a prisão do seu corpo, sempre com o amor como única forma de redenção. Melhor disco da carreira de Perfume Genius.

Faixa essencial: “Describe”

 

8. Fleet Foxes – “Shore”

Os Fleet Foxes deram as boas vindas ao Outono com o disco perfeito para a ocasião. “Shore” foi lançado exactamente às 13:31 de 22 de Setembro, para coincidir com o Equinócio de Outono – um capricho que soa, e é, muito millennial, mas que mapeia com precisão o posicionamento emocional deste álbum. Segundo Robin Pecknold – cantor, compositor e líder dos Fleet Foxes – é um disco que “celebra a vida diante da morte”. Filho dos fantasmas do lockdown (vamos ter muitos), “Shore” é sonicamente o disco perfeito para o fim de um dia terrível no trabalho, um bálsamo depois da dor. E o melhor álbum da discografia dos Fleet Foxes.

Faixa essencial: “Can I Believe You”

 

7. Baxter Dury – “The Night Chancers”

O filho de Ian Dury dos Blockheads (temo que Baxter nunca se livrará desta sombra) tem um dos discos mais cool do ano. Lançado antes das trevas do lockdown, “The Night Chancers” lembra-nos de um mundo livre de Covid, em que nem tudo se devia aos fantasmas do confinamento. A estética sónica do álbum leva-nos numa caminhada nocturna pelos bares de Oberkampf (ou do Cais do Sodré, depende do imaginário do ouvinte), enquanto Baxter vai expelindo a sua poesia perversa e libidinosa, sobre linhas de sintetizador que nos sugerem que o perigo se aproxima a qualquer instante, provavelmente sobre a forma de uma mulher. Não é ao acaso que as backing vocals  femininas são um acompanhamento constante ao longo do álbum, como se de vozes na mente de Baxter se tratassem. “The Night Chancers” é uma relíquia das nossas vidas pré-Covid e, sim, também o melhor disco da já longa carreira de Baxter Dury.

Faixa essencial: “I’m Not Your Dog”

 

6. Doves – “The Universal Want”

Parece um conto de fadas – o parente pobre da post-Britpop que já todos tinham esquecido regressa em 2020 para um dos álbuns do ano. “The Universal Want” surge do nada, 11 anos depois do último disco dos Doves e o mais incrível é que este álbum é melhor do que tudo o que precedeu a discografia da banda de Manchester. Carregado de melodias que abraçam o ouvido, riffs que arrepiam a espinha e paisagens sonoras que convidam a ficar, “The Universal Want” não veio reinventar a roda, mas trouxe 10 das melhores composições de 2020. O regresso do ano. 

Faixa essencial: “For Tomorrow”

 

5. Taylor Swift – “evermore”

Taylor Swift é a mais entusiasmante artista mainstream do momento e para quem ainda tinha dúvidas que a menina Taylor é a melhor compositora da última década, penso que 2020 veio pôr uma pedra sobre o assunto. Para mim, que já era fã da faceta Pop de Taylor, deixou de haver dúvidas acerca do sumo das cancões, quando Ryan Adams extraiu um dos melhores álbuns dos últimos 10 anos a partir dos temas de “1989”. Curiosamente, o caminho que Taylor trilhou desde então vai dar ao encontro dessa mesma sonoridade mais minimalista e é precisamente isso que ouvimos nos dois álbuns que lançou este ano. “folklore” e “evermore” são dois lados da mesma moeda e no futuro deverão ser olhados como um par (tal como “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” dos Guns N’ Roses), mas a visão da Taylor Swift é que são dois álbuns distintos e por isso, vou respeitá-la. Para ser justo, ambos os álbuns poderiam figurar nesta lista, mas como não queria repetir artistas, a escolha recaiu no melhor dos dois, que é o mais recente “evermore” – uma colecção pessoal com um tema para cada estado de alma. 

Faixa essencial: “champagne problems”

 

4. Ryan Adams – “Wednesdays”

A surpresa do ano. Depois de ter sido cancelado em 2019, Ryan Adams regressou este mês com o lançamento-surpresa do álbum “Wednesdays”, disco que supostamente seria a segunda parte de uma trilogia programada para 2019 e agora projectada para 2021. “Wednesdays” é um disco que por vezes parece ter saído da fase Ditch de Neil Young, outras vezes passa pelo “Nebraska” de Bruce Springsteen e que tantas vezes evoca o sangue derramado pelo coração de Bob Dylan em “Blood On The Tracks”. Se estão hesitantes em ouvir “Wednesdays” por causa do que Ryan Adams terá ou nao terá feito há 10 anos, o meu conselho é seguirem as palavras sábias de Steve Van Zandt – “Confiem na arte, nunca no artista”. Gostam do álbum? Não tenham problemas em admitir. #metoo

Faixa essencial: “I’m Sorry And I Love You”

 

3. Bruce Springsteen – “Letter To You”

Quem diria que Bruce ainda tinha em si um grande álbum para a E Street Band? O maravilhoso “Western Stars” de 2019 mostrou-nos um Bruce envelhecido e confortável na sua pele de ancião, mas sucessivas desilusões em trabalhos com a E Street Band (desde “Magic” de 2007, que não havia um álbum que enchesse as medidas) adivinhavam um lento crepúsculo em da sua sonoridade mais clássica. Tudo isso foi mandado pela janela em 2020, quando Bruce resolveu regressar às origens e fazer um álbum “à anos 70”. Como? Foi à gaveta buscar um punhado de temas que escrevera quando tinha 18 anos. Bruce recuperou “Janey Needs A Shooter”, “Song For Orphans” e “If I Was The Priest”, regravou-os e conseguiu de forma incrível canalizar a energia e a urgência do Bruce adolescente, naquelas que foram para mim as melhores coisas que eu ouvi em 2020. Mas isto sou eu que sou um fã hardcore do Bruce Springsteen, com a perfeita noção de que qualquer coisa que ele faça vai sempre partir da pole position. Dividido em 3 lados, “Letter To You” perde gás no Lado B, prova que teria beneficiado de uma ligeira edição. De qualquer forma, é um disco inesperado de pulmão cheio, que mostra que Bruce ainda está aqui para as curvas.

Faixa essencial: “Janey Needs A Shooter”

 

2. Daniel Lopatin – “Uncut Gems: Original Motion Picture Soundtrack”

Não é todos os dias que chega um álbum que cria um universo próprio com a sua sonoridade. O exemplo máximo desta efeméride terá sido a banda sonora de “Blade Runner” de Vangelis que, tal como anunciava no filme, começou uma vida nova nas Off World Colonies. Mas se a banda sonora de “Blade Runner” nos atirou para um futuro distante (a partir de 1982) e um espaço infinito, a banda sonora de “Uncut Gems” vira para dentro, para o espaço não menos desconhecido, não menos enigmático e não menos infinito da nossa mente. Daniel Lopatin dá uso a sintetizadores que evocam gigantes do passado Tangerine Dream, Klaus Schulze (e Vangelis, claro) e pintores sónicos do presente, para criar uma paisagem cinemática lustrosa, perfeita para uma obra que vive da soma entre a imagem e o som e submerge o espectador num universo só seu. Lopatin que, curiosamente, usou nesta banda sonora o seu nome próprio, ao invés do seu alter-ego Oneohtrix Point Never, que lancou outro álbum este ano (“Magic Oneohtrix Point Never”), interessante a espaços, mas não tao convincente como “Uncut Gems”. O filme saiu nos últimos dias de 2019, tarde demais para figurar nas listas do ano passado, e é para mim o melhor que vi e ouvi este ano. Com “Letter To You” e o disco que se seguirá na contagem, a banda sonora de “Uncut Gems” forma um tríptico dos meus álbuns favoritos deste ano e honestamente, qualquer um poderia figurar no primeiro lugar.

Faixa essencial: “The Ballad Of Howie Bling”

 

1. Working Men’s Club – “Working Men’s Club”

A revelação do ano. Há doze meses, quem é que sabia quem eram os Working Men’s Club? Pouca gente, imagino. O compositor e cantor da banda, Sydney Minsky-Sargeant, disse na altura que “o motivo pelo qual não há muitas bandas Rock em voga é porque toda a gente faz a mesma merda. Ninguém pode estar surpreendido que o Rock esteja a morrer”. Entretanto, Syd pôs mãos à obra e os Working Men’s Club lançaram um dos melhores singles do ano (“Valleys”), um dos álbuns de estreia mais entusiasmantes do ano (o homónimo “Working Men’s Club”) e ainda deram o melhor concerto que vi durante a pandemia (no Oslo Hackney em Londres e sim, foi seguríssimo). O corolário terá sido o anúncio este mês como suporte dos New Order, no mega concerto em Heaton Park em 2021. Hoje ainda poucos são os que conhecem as letras de Syd, as linhas de baixo de Liam Ogburn e as pinceladas da guitarra de Mairead O’Connor (a banda mais promissora do norte de Inglaterra ainda nem sequer tem uma página na Wikipedia), mas prevejo que isso mude nos próximos meses, ou pelo menos quando a banda puder voltar à estrada para mostrar o seu primeiro álbum. “Working Men’s Club” não é o disco de Rock típico. A fusão com a eletrónica confere ao álbum um apelo underground, que funciona melhor debaixo de pouca luz e muitos decibéis. Os acenos ao passado são óbvios, mas nunca distractivos – o álbum começa com um ‘olá’ aos New Order e termina com um ‘adeus’ aos Stone Roses; pelo meio há aromas da pop lustrosa dos Human League, do neo-psicadelismo dos Tame Impala, e da esquizofrenia dos Joy Division, numa palete que tantas vezes parece ter levado o dedo de Martin Hannett (foi Ross Orton quem produziu o álbum). Todos estes acenos funcionam como um veículo e não como um fim em si mesmo. O Syd tem 18 anos e é provável que nem sequer conheça grande parte do reportório que enunciei atrás. Fazer-me lembrar deles é o melhor elogio que lhe posso prestar. Mal posso esperar pelo segundo álbum.

Faixa essencial: “John Cooper Clarke”

 
Epílogo

A escolha do Top 10 foi difícil, por isso fiquem com mais 9 sugestões (sem nenhuma ordem especial) para juntar às 11 em cima e uma playlist no Spotify para acomodar tudo:

The Avalanches – We Will Always Love You

Creeper – Sex, Death & the Infinite Void

Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters

IDLES – Ultra Mono

Benjamim – Vias de Extinção

Declan McKenna – Zeros

Fontaines D.C. – A Hero’s Death

Sufjan Stevens – The Ascension

Andy Bell – The View From Halfway Down

Run The Jewels – RTJ4

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