Música

Wuant: o fenómeno português que é seguido por 3,7 milhões de pessoas

A NiT falou com Paulo Borges, um rapaz desconhecido de 25 anos que vive em Loures — mas que é uma estrela mundial.
O miúdo que cresceu à vista de todos.

O nome Paulo Borges dirá pouca coisa à maioria dos portugueses. Mas há vários anos que os seus vídeos acumulam milhões de visualizações, colecionando uma legião de fãs que nos melhores dias só não compete com Cristiano Ronaldo. Paulo é Wuant — e Wuant é um caso de estudo.

Nisto da Internet, os números são uma espécie de algodão branco: não enganam. Cristina Ferreira, por exemplo, conta no Facebook com mais de 1,8 milhões de seguidores e mais 1,4 milhões no Instagram. O canal de Wuant no YouTube tem mais de 3,7 milhões de subscritores. Entre estes há uma boa porção que chega do lado de lá do Atlântico, do Brasil. Mas até isso é reflexo de um fenómeno crescente — e que não é alheio às marcas.

Na era de influencers em que vivemos, já não nos surpreende imaginar um miúdo de 25 anos conseguir fazer carreira dos conteúdos que o próprio trata online. Em 2009, imaginar algo assim por cá parecia ser só um futuro longínquo. Mas de certa maneira esse futuro era já o presente para Wuant.

Começou ainda em inglês e com uns vídeos sobre Counter Strike. O vídeo mais antigo que atualmente podemos ver no seu canal remonta a 2012. É sobre Minecraft e no título já tinha um toque de humor adolescente, ao melhor estilo da web. Temos um miúdo a jogar enquanto nos explica que queria começar a fazer algo para a comunidade em português.

Há uma ligação umbilical entre a ascensão de youtubers e o mundo dos videojogos. O crescimento fez-se ao longo do tempo mas de forma imparável: hoje em dia, a indústria dos videojogos gera mais dinheiro do que Hollywood. Estamos numa fase em que há gamers profissionais e plataformas como a Twitch podem estar a transmitir uma competição de “League of Legends” ou “Street Fighter” com centenas de milhares de pessoas a assistir online. Mais público traz mais receitas. Não é por isso estranho que alguns daqueles youtubers tenham feito disto carreira. Mais surpreendente é saberem ao que iam desde cedo. Foi o caso de Wuant.

É um jovem de sorriso algo embaraçado que se senta à conversa com a NiT a recordar como chegou aqui. Algo curioso se pensarmos que era adolescente e, semana sim, semana sim, dava a cara em vídeos com milhares de visualizações.

“Comecei na brincadeira, via o pessoal lá fora e pensei: vou fazer. Quando percebi que isto se estava a tornar algo maior do que imaginava, comecei mesmo a estudar mais o que era o YouTube. Inconscientemente aprendi um pouco sobre o marketing: a perceber como é que vão clicar no meu vídeo, o que é que as pessoas querem ver”, conta. Em 2014, recebeu uns 200 dólares do YouTube e foi a correr ter com os pais. “É possível, é possível”. Era também cada vez mais inevitável. E isso notava-se.

“Não tomava atenção nas aulas, estava sempre a pensar no vídeo que ia fazer a seguir. Estava a fazer um curso de programação no décimo ano e tinha o meu professor a avisar: ‘estás sempre com isso’. E eu: ‘mas, ‘stôr, isto vai ser a minha vida”. Os pais bem queriam que continuasse a estudar mas aquele sucesso inicial permitiu-lhe negociar as coisas quando acabou o 12º ano: “deixem-me fazer isto durante um ano e se resultar…”. A verdade é que nunca mais parou.

A confissão de que ainda se sente nervoso nestas situações tem um sorriso pelo meio para esconder o embaraço. “Partilhei a minha adolescência inteira na Internet, não tinha filtros, de vez em quando fazia umas coisas estúpidas, e acabei a crescer neste meio habituado a falar com muita gente mas não a estar em frente a muita gente. Falava só para uma câmara”.

Wuant, Thor e Zeus.

Esse nível de exposição acabaria por ter consequências, especialmente quando se é um miúdo com acesso a um simples ecrã capaz de chegar a tanta gente. “No início tinha muito aquela mentalidade do vou fazer como quero. Mas dá para continuar a ser eu de uma maneira muito mais responsável. E quando cometi o erro que cometi, comecei a perceber que tinha demasiada gente a olhar para mim”.

Sabemos o que Paulo quer dizer com “erro”. No início deste ano, ainda antes da pandemia,. Wuant e a namorada, a também youtuber Owhana, anunciaram em vídeo a sua separação. Ela surgia a chorar, ele aparentemente mais descontraído. Foi um daqueles momentos em que a atenção sobre Wuant foi muito além do seu canal de seguidores — e com ela veio uma avalanche de críticas.

“Estava tão preso na rotina que uma pessoa não pára para pensar”, diz Wuant sobre o vídeo. “Gravámos dois vídeos, eu estava com a Ana, vimos aquilo juntos. Estávamos a chorar baba e ranho, achei que não era suposto ser assim, e disse: ‘bora fazer um vídeo mais animado”. Seguiu-se um verdadeiro desastre. “Coisas como arrotar e assim são coisas que faço quando estou nervoso para fazer os outros rir. O pessoal interpretou como teve de interpretar e isso fez-me aprender. Eu hoje vendo esse vídeo, realmente pareço uma besta. Estou a trabalhar muito nisso e sei que não sou assim”.

Nos últimos seis meses, quem estava habituado aos vídeos em catadupa do youtuber terá estranhado o silêncio. As semanas passavam e não havia nada de novo. Há coisa de um mês, surgia um pequeno teaser a anunciar o regresso. Pouco depois, novo vídeo, uma música. Não era a primeira incursão de Wuant no mundo da música mas havia agora um lado pop que se lhe desconhecia.

“A música é uma nova paixão” que lhe tem ocupado o tempo. O tempo de pausa serviu para pensar mas também para aprender mais sobre música e cantar. “Melhor ou Pior” foi lançada a 12 de setembro no Spotify e já foi ouvida mais de 1,1 milhão de vezes. O vídeo foi lançado a 19 de setembro e já leva mais de 1,6 milhões de visualizações no YouTube. Se fosse só mais um vídeo entre outros, teria passado ao lado. Mas deixou “a música respirar”, realça.

“Muito do pessoal que me seguia em 2013, por exemplo, deixou de me seguir a partir de 2017, e quando foi a casa dos youtubers, porque deixaram de se identificar”, recorda à NiT. A casa dos youtubers foi a primeira vez que saiu de casa dos pais. “Tinha 21 anos, foi uma aprendizagem, mas houve muitos erros, lá não havia limites”.

“Na altura não me apercebi. Quando entramos na rotina às vezes só estamos a viver para aquilo. E quando me apercebi que já estava a perder uma certa geração acabei também por ter que fazer uma pausa para respirar e pensar. Foram três anos seguintes a postar vídeos, quase sem sair de casa”.

Durante a pandemia, Wuant mudou-se para a casa do DJ Diego Miranda, uma moradia em Loures com vista sobre a planície onde nos encontramos. Às vezes há miúdos que passam de bicicleta depois das aulas só para dizer olá da rua. Por perto, andam dois cães, o matulão Thor e um cachorro, o irrequieto Zeus.

A casa conta com um estúdio, o que lhe dá toda a margem para continuar a fazer as coisas como quer. Por ali vão passando amigos, alguns também youtubers. Por momentos, dá para imaginar o espaço como um pequeno quartel-general de onde dá para partir à conquista da Internet no País.

“A Internet foi onde eu cresci e sinto que a conheço de cor e salteado”, diz-nos. Durante anos, apresentava-se em pranks, a reagir em compilações, dizendo olá ao mundo com um “Sup doods”. Havia piadas parvas, palavrões e todo um léxico sobre as coisas cringe [embaraçosas] que a Internet nos dá. Continuar a fazer o mesmo era correr o risco de ele próprio olhar para dentro e sentir o tal cringe. “Já era automático, não era genuíno”.

O momento de mudança é também um teste a quem o segue. “É difícil quando uma pessoa está anos a ver-me fazer piadas. Deve ser um choque para os mais novos ver-me agora. Mas os mais velhos percebem. É uma questão de trabalhar o meu processo, o meu posicionamento, para que o pessoal perceba o que quero transmitir.

A Internet continua a ser o seu reino, embora por estes dias já não esteja tão focado no YouTube. No Twitter tem mais de 640 mil seguidores, no Instagram mais 840 mil. Os próximos projetos incluem um documentário sobre o que tem feito durante esta pausa — “É a prequela do que aí vem”, diz-nos. Vai ser tudo lançado online, como é fácil de ver.

Perguntamos-lhe como costuma ser fora do ecrã, se os videojogos ainda são o seu principal passatempo. “Jogo um Fifa com o pessoal, vou para o meu quarto ver séries na Netflix, mas estou focado no que quero fazer. Quero aproveitar que sou novo e não é aquela coisa do ‘ah, tenho tempo’. Aliás, estou atrasado [risos]”.

E acrescenta: “Ao início, via-me com dinheiro e queria comprar coisas. Agora tenho uma visão mais empreendedora, quero fazer coisas pela cultura, quero incentivar os mais novos. Não é a seguir o caminho que eu segui mas seguir algo, porque a Internet é um mundo”.

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