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A noite em que Bill Burr perdeu a cabeça em palco — e se tornou uma lenda da comédia

Ao ver os colegas vaiados, o comediante trocou as piadas pelos insultos. Ao fim de 12 longos minutos, tinha conquistado a plateia.
Foi o momento que definiu a carreira de Burr

“Foda-se, o Rocky é o vosso herói. Todo o orgulho da vossa cidade existe em torno de um tipo que nem sequer existe”, atirou Bill Burr em direção às dez mil pessoas que enchiam os lugares do recinto em Filadélfia. Na plateia ouviam-se apenas vaias, assobios e insultos violentos.

Durante 12 longos minutos — o tempo total do set atribuído a Burr —, o comediante atacou impiedosamente os espectadores, a sua cidade, as equipas de futebol e baseball, as especialidades gastronómicas. Pelo meio, insultos. Muitos insultos. Os piores que lhe vieram à cabeça.

O que poderia ser um incidente fatal para qualquer carreira, tornou-se num momento que definiu o percurso de Bill Burr, que esta semana vê (mais) um dos seus especiais de comédia chegar à Netflix. “Bill Burr Live at Red Rocks”, o quinto a estrear na plataforma.

A comemorar três décadas de carreira, é conhecido por ser “o comediante dos comediantes”. Para isso, muito contribuiu o incidente que teve lugar em 2006 e que cimentou a sua fama de implacável.

Burr era um dos vários comediantes escolhidos para participar na digressão de um programa de rádio. O espetáculo em Filadélfia aconteceu num recinto com capacidade para dez mil pessoas e prolongou-se durante mais de três horas.

A abrir o espetáculo estava um novo comediante local, um nativo de Filadélfia que, supunha-se, iria ser recebido de braços abertos. Não foi o que aconteceu.

“Ele subiu ao palco, era de lá, tinha a família toda na bancada e de repente começa a ser vaiado”, recorda Burr. “Nos bastidores, ficámos todos espantados e pensámos ‘bem, vai ser uma daqueles espetáculos’.”

O comediante levou o set até ao fim, enquanto em coro, a plateia lhe chamava “cara de cu”. Burr percebeu então que ia ser uma noite de pesadelo.

“Percebi que ia dar merda quando o Tracy Morgan subiu ao palco e devia fazer um set de 15 a 20 minutos. Aos sete minutos e pouco, parou, agradeceu e veio-se embora”, recorda. “Ele sabia. Habituas-te a fazer aquelas salas pequenas e começas a conseguir prever quando se aproxima uma vaia. Ele olhou para o oceano e percebeu que vinha aí um tsunami. Foi o tipo mais esperto da noite. Viu aquela cambada de gajos brancos, completamente bêbados, e pensou que ninguém se iria lembrar se ele fez o set todo ou não. E bazou.”

Burr tinha ainda que esperar pelo seu momento em palco. “De repente, o sol põe-se e parecia uma cena do ‘Apocalypse Now’, aquela cena da ponte.”

Na verdade, confessou anos mais tarde, nem tudo foi mau. Muitos dos comediantes presentes conseguiram terminar os seus sets sem problemas. “O Bob [Saget] subiu ao palco e foi ótimo. O Patrice [O’Neal] e o Ralphie [May] também. Mas a meio do ser do Dom Irrera, as vaias voltaram.”

Chegara a vez de Burr. “Por essa altura, eu já estava irritado. Quer dizer, eles puderam ver um elenco de alguns dos melhores comediantes que conheço, e estes gajos estão a tratar toda a gente como merda. Sou um gajo defensivo, irritado, e estava montada a tempestade perfeita.”

“Entrei sem qualquer tipo de nervosismo. Como se fosse à loja comprar um peito de frango e primeiro ainda ponderei com que piada é que iria começar”, recorda. A primeira tentativa não funcionou. A segunda era uma que tinham usado nos anúncios do evento, portanto já todos a conheciam. Frustrado e contrariado, decidiu mudar a abordagem.

“Passei-me e decidi que não iria sair do palco. Ia atacar tudo aquilo que eles amam”, conta. O que aconteceu a seguir foram 12 minutos de absoluta loucura — e que, felizmente, foram gravados com um telemóvel. Apesar da má qualidade, o set haveria de ser eternizado num dos vários DVD do comediante.

Burr debitou profanidades a um ritmo imparável. “Querem que fale de quê? Digam. Atirem temas. Vamos falar sobre doenças cardíacas, algo que espero que vos mate. E vou-me rir no vosso funeral merdoso, o que vai ser incrível. Vão todos apanhar cancro.”

O público estava estupefacto, sem saber se haveria de vaiar ou de aplaudir a coragem. Burr atacou tudo o que estava minimamente relacionado com Filadélfia. A cada minuto que passava, relembrava a plateia o tempo que faltava até ao fim do set. “Faltam sete minutos, caralho. E vou aproveitar cada um deles.”

A certa altura, um espectador da fila da frente grita. “Senhor, está a gritar porquê? Estás na fila da frente, idiota. Meu Deus, desejo-vos SIDA, com toda a força, ao ponto de ficarem tão fracos que mal conseguem caminhar até ao vosso carro. E desmaiam. Encontram-vos mais tarde, deitados ao lado do vosso Monte Carlo de 1983, com a gravilha colada na vossa cabeça careca.”

“Vou terminar o meu set a atirar a base do microfone como se fosse um disco. Espero que acerte na cabeça de um bebé — o único no meio de toda esta plateia que terá hipóteses de eventualmente tirar um curso superior”, gritou Burr, antes de desejar poder disparar uma arma na direção da cabeça de cada um dos espectadores.

A assistir a tudo isto estava Bob Saget, ator e comediante, que recorda um cenário ligeiramente diferente daquele que Burr viu do palco.

“Estava mesmo junto ao palco”, recorda. “É um público difícil, o de Nova Jérsia e Filadélfia, tens que aguentar muita coisa. Eles estavam a vaiar o Burr e ele simplesmente devolveu os golpes. Disse as piores coisas que se possam imaginar. Vi tudo e foi incrível.”

A meio do set, algo de surpreendente aconteceu. “De repente, os aplausos eram quase tão audíveis quanto as vaias. Teve direito a uma ovação em pé, mas acho que ele não chegou a ver.”

Burr entrou nos bastidores furioso, a parecer “um lutador suado no final de um combate”. “Vinha a dizer que tinha sido horrível e eu expliquei-lhe, ‘Bill, aquilo foi incrível’. Ele não acreditava em mim”, recorda Saget.

O set tornou-se numa espécie de lenda e, eventualmente, Burr teve que abordar o tema e reconheceu que esteve mal. “A culpa foi minha, não fui profissional. Deveria ter mantido a cabeça fria e ter tentado sobreviver. Só que decidi atirar gasolina para a fogueira”, recorda.

“Eu não queria estar lá. Passei o tempo todo nos bastidores a pensar que podia estar num pequeno sítio com 150 pessoas que realmente querem ouvir as minhas piadas. Teria feito 10 por cento do dinheiro, mas estaria feliz.”

Então com 15 anos de carreira, Burr confessava que já havia sofrido as humilhações que tinha que sofrer. Estaria já num ponto em que não teria que se sujeitar a esse tipo de tratamento. “Não devia ter ido. Já tinha levado com merda suficiente até aí.”

Mas Saget, que morreu em janeiro, sabia que estava ali um tesouro. “Ele continuava furioso, e disse-lhe: ‘Bill, aquilo foi incrível. Tu ainda não sabes o que aconteceu aqui, mas se alguém gravou isto, isso vai mudar tudo. Vais-te recordar deste momento'”, recordou. “Foi o momento que definiu toda a sua carreira.”

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