Televisão

“Normal People”: a série emocional, romântica e realista que todos deviam ver

Tem 12 episódios com menos de meia hora e está disponível na HBO Portugal. É uma produção irlandesa baseada num bestseller.
Paul Mescal e Daisy-Edgar Jones são os protagonistas.
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Numa era em que o entretenimento (e não só) é consumido de forma rápida e para satisfação imediata — estilo fast food —, sempre em busca da próxima tendência, é cada vez mais importante vermos e valorizarmos séries que nos obrigam a parar, a pensar e a sentir verdadeiramente. É o caso de “Normal People”, que estreou na HBO Portugal a 12 de agosto e que conta com uma dúzia de episódios.

O título diz tudo, não é? Esta não é uma história sobre personagens extraordinárias que vivem aventuras distantes da nossa realidade do dia a dia. Pelo contrário, neste caso menos é mais. São pessoas comuns, nas quais nos conseguimos rever, que tomam decisões, cometem erros e exprimem sentimentos de uma forma com que nos conseguimos identificar.

A produção da BBC e da Hulu foca-se em Connell e Marianne, dois colegas de escola de uma pequena cidade irlandesa. Connell é da classe trabalhadora — aliás, a sua mãe é empregada de limpeza na casa de Marianne — mas, apesar disso, é um dos alunos mais populares e inteligentes da escola.

Marianne, de uma família disfuncional de classe média alta, tem de lidar com um irmão agressivo e uma mãe que vive de forma dormente — atormentada pelo trauma de ter sido vítima de violência doméstica do marido, que já morreu. Marianne é uma outsider solitária, alguém que é gozada na escola, mas que tem sempre uma resposta esperta e à altura na ponta da língua.

Na escola, Connell e Marianne não podiam ser de grupos mais opostos. Lá fora, e também por causa da ligação com a mãe de Connell, os dois acabam por simpatizar um com o outro e começam uma relação apaixonada.

Esta não é uma comédia ou drama adolescente como a maioria dos que conhecemos — o tom é sempre mais sério e profundo do que isso. Além disso, a narrativa — que se baseia num bestseller escrito por Sally Rooney, publicado em 2018 — acompanha a trajetória dos dois protagonistas ao longo dos anos.

O enredo pode começar no último ano do liceu, mas expande-se para a faculdade e para as diferentes fases na relação entre os dois, com saltos temporais de vários meses, e numa narrativa que se prolonga durante alguns anos. Há momentos em que estão juntos, outros em que são apenas amigos próximos e namoram com outras pessoas, e também fases em que se distanciam.

De qualquer forma, Connell e Marianne têm uma tendência inevitável para se sentirem atraídos um para o outro. São melhores amigos, confidentes, por vezes amantes. As personagens são complexas, vulneráveis, e vão mudando, como é natural, ao longo da história. O amadurecimento acontece mesmo à nossa frente e os jovens atores Paul Mescal e Daisy Edgar-Jones estão brilhantes nesta adaptação televisiva. São eles que conduzem a série e têm tudo para serem estrelas em ascensão.

Realizada por Lenny Abrahamson e Hettie Macdonald, e nomeada para quatro Emmys, “Normal People” é uma série subtil e discreta. Os diálogos são bons e não precisam de ser óbvios nem muito diretos. Tal como na vida real, muitas das coisas que as personagens querem dizer ou tentam transmitir acontece através de gestos, ações ou linguagem corporal. Muitas vezes não dizem a coisa certa na altura certa, e isso pode ser doloroso para os espectadores — e é muito fácil envolvermo-nos emocionalmente com estas personagens — mas também significa que a história é empolgante e profundamente realista.

As várias cenas eróticas, que contribuíram bastante para o hype internacional que esta série teve, não são gratuitas nem existem por si só. É uma forma de irmos acompanhando a sua relação, de percebermos em que ponto estão, em que as personagens expressam sentimentos e comunicam tanto como se estivessem simplesmente a conversar. Foram filmadas de uma forma íntima e subtil, são tão físicas como psicológicas (além de incluírem momentos que normalmente não vemos representados na televisão).

A narrativa gira em torno de sentimentos e da evolução dos estados emocionais das personagens — o grande foco são as relações humanas, aquilo que nos é mais natural e, ao mesmo tempo, aquilo que por vezes pode ser mais difícil nas nossas vidas.

Tanto consegue retratar da forma mais real e simplista — sem ser nem demasiado dramática nem leviana — a felicidade de uma amizade como a depressão de uma pessoa, os sentimentos contraditórios, as difíceis mudanças na vida de adulto ou a ansiedade social característica dos tempos de escola. É romântica, mas nada lamechas. Pode ser calma e ao mesmo tempo intensa — e nunca aborrecida. Sem a pretensão de ser ambiciosa, é uma série com uma rara sensibilidade e uma tremenda inteligência emocional que todos deviam ver. 

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