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“O carinho e o cuidado que o Bruno Nogueira teve com todos nós foi exemplar”

A NiT entrevistou Jorge Pinto, um dos participantes do mais recente episódio de “Tabu”, programa da SIC.
O episódio foi sobre adição.

Jorge Pinto foi um dos quatro participantes no terceiro episódio de “Tabu”, novo programa de Bruno Nogueira na SIC. O tema era a adição — e Jorge foi uma das quatro pessoas que partilharam a sua história de vida. Contou como se tornou dependente do álcool e das drogas e, depois, como conseguiu recuperar.

O conceito de “Tabu” é simples: Bruno Nogueira passa vários dias com quatro pessoas que tenham uma condição considerada sensível pela sociedade. Através de conversas e interações, vai descobrindo as suas histórias e principais dificuldades. Um mês depois, apresenta-lhes um espetáculo único de stand-up comedy inspirado nas suas características.

A NiT falou com Jorge Pinto sobre o recurso ao humor para abordar uma situação delicada e a experiência de participar no programa. Leia a entrevista.

Quando foi convidado para participar no programa, ficou reticente?
A primeira ideia foi dizer que não, sinceramente. Não é um tema fácil de abordar e não é consensual e, portanto, a primeira impressão foi dizer que não. Depois, pensei um bocadinho além de mim: talvez a minha experiência pudesse ajudar alguém. E bastaria ajudar apenas uma única pessoa para justificar a minha participação.

Quando começaram as gravações, corresponderam ao que estava à espera?
Sim, foi bem explicado, eu também pedi para que me explicassem o formato. Trabalho na área de vídeo e edição, por isso quis perceber como era feita a produção. Puseram-me sempre à vontade: qualquer frase que me arrependesse de ter dito ou qualquer coisa que achasse menos própria poderia retirar — tinha sempre essa liberdade. Correram mais ou menos como imaginava.

Quando percebeu qual era o formato do programa, decidiu logo abrir-se tanto e a falar sobre tudo? Deixou temas de fora, que prefere manter privados?
Fiz uma pré-entrevista de seis horas, contei a minha história de vida toda, mas no final indiquei dois ou três assuntos que não queria abordar. Por uma razão simples: não tinham nada a ver com a minha opção de me expor e implicavam a exposição de terceiros. Aquele era um testemunho meu — não queria envolver outras pessoas. Só pedi isso e foi sempre respeitado.

Quantos dias estiveram a gravar?
Penso que quatro e meio, porque no último viemos à hora de almoço. 

O Jorge já era fã do Bruno Nogueira? Qual era a sua relação com ele, enquanto humorista?
É uma pessoa que tenho vindo a acompanhar, cujo trabalho aprecio, tanto como humorista como no projeto Deixem o Pimba em Paz. Não foi por ele que decidi participar, apesar de conhecer o trabalho do Bruno. Se fosse com outro humorista, com o qual não me identificasse tanto, se calhar tinha ponderado [não o fazer]. Mas, sim, conheço e gosto.

Partilhou esses quatro dias e meio com ele. Correspondeu à pessoa que imaginava que ele seria?
Sim, eu já tinha trabalhado com o Bruno, porque tenho uma empresa de eventos e ele tinha participado num — mas foium contexto diferente, só nos cruzámos nos bastidores. Aí, não foi uma relação de viver quatro dias com uma pessoa [risos]. Não vou dizer que foi uma surpresa completa, mas agradou-me bastante o lado humano do Bruno. O carinho e o cuidado que teve sempre com todos nós foi exemplar. Nunca foi o Bruno num canto e nós noutro. Ele esteve sempre connosco. Porque o que se vê nas filmagens é um almoço, um jantar e um pequeno-almoço e nestes quatro dias e meio fizemos muitas mais refeições, tivemos muitos tempos livres e ele esteve sempre presente. Esteve, de facto, a viver connosco aqueles quatro dias. E acho que essa proximidade contribuiu muito para o resultado do programa. Ele próprio no final disse: saio daqui e sinto que tenho quatro amigos novos, porque fiquei a conhecer muito sobre a vossa vida e coisas tão íntimas. Porque existiram muitas outras conversas e realmente criou-se ali uma relação, é o que posso dizer.

Foram momentos que também serviram para que o Bruno estabelecesse proximidade e pudesse conhecer melhor as vossas perspetivas e histórias.
Exatamente. O formato é muito bem feito. E ele próprio também diz que é preciso criar uma ligação para sentirmos abertura para falarmos de coisas tão sensíveis com tanto à vontade. Seria muito estranho ele aparecer só na hora da entrevista e estarmos com esse à vontade a falar. Aquilo realmente está bem pensado e estruturado. A pessoa podia ter alguma dificuldade a criar empatia, mas não é o caso. O Bruno fez isso com muita facilidade, é alguém de quem se gosta facilmente e portanto correu muito bem.

E deu-se logo bem com os outros participantes?
Sim, sim, foi ótimo — com toda a gente. A produção também foi muito atenciosa, não nos deixavam levantar um prato [risos] nem fazer absolutamente nada. Chegávamos à noite com a caminha feita, foi só mimos, isso foi impecável. Toda a gente com muita sensibilidade também. Gostei da maneira como, mesmo fora das filmagens, havia interesse da parte da produção em perceberem melhor como é que funciona a adição. Porque acho que qualquer pessoa já conheceu um caso de alguém, um familiar, vizinho ou amigo. Manifestaram muito interesse sobre como podiam fazer com pessoas amigas. Não existem respostas certas, mas ajuda sempre perceber a experiência do outro.

O programa foi transmitido no sábado.

Em relação ao espetáculo de stand-up comedy, não sabiam o que o Bruno ia dizer. Gostou?
Sim, genericamente sim. Em termos de humor puro, houve coisas mais bem conseguidas, outras menos bem. O que passa não é o espetáculo na íntegra. Foi feita uma seleção e foi boa —  penso que as que resultaram menos não apareceram. Mas gostei, não achei nada ofensivo. Acho que é muito fácil pisar o risco, tanto no nosso [espetáculo] como nos outros que já vi. É muito fácil pisar o risco, são temas muito sensíveis mas existiu muito cuidado da parte dele. Muitas das piadas vêm de conversas off the record, sobre coisas que brincávamos entre nós e que ele apanhou — e bem. Acho que fez um bom trabalho também nessa área.

Qual foi a sua piada favorita d?
Gostei de várias, mas gostei quando ele falou da questão de vivermos um dia de cada vez [risos]. É uma máxima de quem está em recuperação e ele ouvia-nos dizer isso imensas vezes — porque é quase uma ressalva, “isto é bom mas é só hoje, amanhã nunca sabemos”, porque a adição não tem cura e muita gente recai. Tem que haver uma vigilância constante. 

Obviamente, quando alguém aceita participar neste programa sabe que terá uma componente humorística, porque a ideia também é fazer comédia a partir destes temas sensíveis. Fora do programa, considera o humor uma boa forma de abordar a adição?
Não entendo a minha recuperação de outra maneira se não for com humor. Uma vida negra era a que tinha quando consumia. Sempre recorri ao humor, sempre foi uma coisa muito importante para mim, mesmo nas piores alturas da minha vida. E, nos piores momentos, o humor é, muitas vezes, a salvação. Olhando para as dificuldades que tive no passado e que foram situações muito delicadas… O humor é a melhor lente para olhar para essas dificuldades. O formato também me atraiu, mas tinha alguma curiosidade, porque na altura, quando me convidaram, não tinha visto absolutamente nada. Depois acabei por ver as versões australiana e belga, por isso sabia mais ou menos para onde a coisa podia ir, mas, obviamente, depende do humorista. Comigo funcionou, mas admito que não funcione com todos. Existem pessoas que não encaram bem brincar com situações sérias — se não não se chamaria “Tabu”, seria outra coisa qualquer.

E o programa também serve para desconstruir muitos dos estigmas associados a estes temas.
Claro. São sempre temas que não são consensuais e não se abordam com facilidade. No meu caso, desde que entrei em recuperação que digo: fala-se muito pouco da adição e podia ajudar muita gente — até de forma preventiva. Esta foi uma forma ligeira de falar da adição. E sabemos que a desgraça vende mais do que a recuperação — por isso, quando se fala da adição, fala-se sempre no problema e pouco na solução. Este programa teve o mérito de mostrar as pessoas recuperadas, não as pessoas no bairro. Acho que é importante também mostrar um lado mais brilhante e menos negro da coisa [risos].

E mostrar exemplos de pessoas que conseguiram dar a volta e resolver os seus problemas, com mais ou menos dificuldade, e que conseguem falar sobre aquilo por que passaram.
Exatamente, foi incrível a quantidade de mensagens e telefonemas que recebi a seguir. Não estava nada, nada à espera de uma reação em massa. Até hoje. Continuo a receber telefonemas e mensagens, todas muito positivas, de pessoas que nunca souberam do meu problema porque já me conheceram em recuperação, ou porque não tinham essa proximidade. Todas elas muito positivas, a agradecer o exemplo e a coragem. Pessoas, inclusive, que não conhecia. Houve um caso de uma pessoa que teve um irmão com 40 e poucos anos que faleceu em consequência do uso de drogas, que me agradeceu porque através do programa conseguiu perceber a adição de uma maneira que nunca tinha entendido. E nunca tinha resolvido a morte do irmão porque achava que o consumo dele era uma escolha. Percebeu que não era uma escolha, que é uma doença. Digamos que ficou mais em paz com a morte do irmão. Esses exemplos para mim são mais do que suficientes para mostrar que este formato resulta. Mostrar que é possível recuperar, que era a minha missão. Disse sempre que não ia com nenhum objetivo de promoção pessoal. O meu intuito é passar a mensagem de que é possível recuperar, seja em que altura for. E penso que a mensagem passou bem.

É muito positivo que tenha recebido todas essas mensagens.
Sim, e houve coisas muito curiosas. Por exemplo, subi ao Pico no verão passado e O meu guia, com quem estive meia dúzia de horas e nunca mais vi, ligou-me a agradecer. Já nem tinha sequer o contacto dele, mas ele pelos vistos tinha o meu e ligou-me a agradecer. Tinha visto o programa por acidente, foi a casa dos pais e estava a dar. E ele a dizer-me: “tinha simpatizado consigo quando fez a subida, mas agora fiquei ainda a gostar mais de si” [risos]. São coisas muito boas.

Houve algum aspeto sobre o tema da adição que sente que deveria ter sido mais (ou melhor) abordado?
O programa não dava para tudo, eles estavam limitados ao tempo. Nós fizemos umas 15 horas de gravação, era preciso reduzir para uma hora — aliás, menos, porque ainda havia a parte do stand-up. Houve uma opção da edição de focar-se mais na parte do passado do que propriamente na minha vida em recuperação, mas compreendo essa escolha na medida em que bastava ver-nos lá para perceber que estávamos bem. Acho que o contraponto foi bem feito, tendo de optar por uma coisa ou outra. 

A experiência de ter participado no programa é indiferente para a sua recuperação? Ou também o motivou e lhe deu força nesse sentido?
Como disse, tinha uma missão quando fui para lá: passar a mensagem de que é possível recuperar. E isso foi uma decisão minha desde que entrei em recuperação. Todas as oportunidades que tivesse — e já fiz voluntariado em prisões, em centros de tratamento e outras instituições, sempre que posso partilhar a minha experiência e ajudar alguém… considero que é quase um dever. Ali passou-se um bocadinho a mesma coisa. As reações que recebi agora — li uma de alguém que viu o programa com os amigos e que decidiu entrar em tratamento — para mim são motivado para continuar esta minha missão. Eventualmente, passei por isto para poder ajudar outras pessoas, ou pelo menos, devo usar essa má experiência para transformar para melhor as experiências de outras pessoas ou para evitar que outras sofram. Por isso, sim, contribuiu para me motivar.

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