Televisão

“O MasterChef deu-me a liberdade de chegar a casa de alguém e fazer o que quero”

A NiT entrevistou Rúben Silva, o último vencedor do concurso, para antecipar a nova temporada, na RTP.
Rúben Silva venceu em 2019.

É uma das grandes novidades televisivas deste final de ano. “MasterChef Portugal” está de volta à RTP1 desde 20 de novembro. Desta vez, os jurados do concurso de culinária são Vítor Sobral, Marlene Vieira e Óscar Geadas.

Para antecipar a nova edição, a NiT falou com Rúben Silva, o último vencedor da competição. Aos 38 anos, o profissional natural de Vila do Conde viu a sua vida mudar após ter conquistado o concurso de culinária. Embora acredite que tenha tido algum “azar”.

“Mudou totalmente a minha visão sobre a cozinha. Estava muito ligado à sala, à parte de barman. Passei a focar-me mais diretamente na cozinha. Claro que me trouxe oportunidades. Encaro o facto de ser vencedor do ‘MasterChef’ como um cartão de visita. Estás um passo à frente das outras pessoas. Mas depois, na hora da verdade, o que vai ditar é o teu conhecimento, as tuas capacidades. Não sais de lá como cozinheiro nem como chef de cozinha. Sais como um bom amador. Depois precisas de te capacitar com competências — e foi isso que fiz.”

Aquela edição de “MasterChef Portugal”, que contou com Rui Paula, Miguel Rocha Vieira e Nuno Bergonse como jurados, terminou em dezembro de 2019. Em fevereiro de 2020, Rúben Silva foi fazer um mestrado no Basque Culinary Center, em San Sebastián, Espanha. Em março, a pandemia obrigou-o a regressar a Portugal para ficar confinado. Mas o português conseguiu voltar em maio para concluir o curso.

Em setembro, teve de fazer um estágio integrado no mestrado. Conseguiu uma oportunidade na Casa de Chá da Boa Nova, do chef Rui Paula, que tinha conhecido no “MasterChef”. “Aí, sim, tornei-me cozinheiro.”

Apesar disso, Rúben Silva diz que teve azar com o timing por causa da pandemia — e aponta que não teve qualquer apoio mediático da TVI após o final do programa de televisão. “Quase não aproveitei a ‘fama’, é muito fugaz. As pessoas pensam ‘ganhou o MasterChef, é famoso’ mas isso passa. O que fica é o teu conhecimento. Porque daqui a dois anos já ninguém se lembra do vencedor do ‘MasterChef’. Muito menos eu, que fui um bocado esquecido. Tive azar nestas coisas todas. Sendo o canal que foi, não promoveu em condições, ganhei e nunca mais fui chamado à TVI.”

No ano passado (depois do “MasterChef”, do curso e do estágio), apostou em lançar um projeto no qual já estava a trabalhar há alguns anos. Assim nasceu a marca de molhos artesanais Rufia. “Claro que o cartão de visita do ‘MasterChef’ para certas coisas funcionou, para outras não. Foi uma coisa que criei do zero, sem nada.”

Rúben Silva conheceu Rui Paula no “MasterChef”.

Tudo começou com um desafio feito por um amigo de Rúben Silva, dono de algumas churrasqueiras e que queria usar molhos artesanais distintos. “Estudou em Londres e conhecia a rede Nando’s e os muitos molhos para frango que têm.  Um dia comprei o bilhete de avião, fui a Londres, trouxe-os todos, comecei a experimentar e criei uma linha de base com três variedades. Ficou estagnado. Não tinha marca, não tinha nada, dei-lhe as receitas e pronto. Depois, no confinamento, como já tinha tudo pronto — as receitas estavam afinadas —, registei a receita, fiz análises, idealizei o layout e conceito da insígnia e lancei os produtos.”

Rúben Silva considera que preenchem uma “lacuna no mercado”. “É uma moda que apareceu este ano, a do churrasco americano, e vai expandir-se. Queria estar na linha da frente. Ainda faço uma produção muito artesanal e agora está na hora de dar o salto — mas também tenho consciência de que não tenho essa capacidade. Estamos a falar de investimento numa linha de enchimento, em publicidade… Se calhar está na altura de me agregar a uma marca mais forte para potenciar esta.” Por enquanto, não está nada previsto.

Dois meses depois de lançar os molhos, começou a trabalhar como professor de cozinha — dá aulas na Escola de Hotelaria de Viana do Castelo e na Escola Profissional de Esposende. “A formação é algo de que gosto. Primeiro, porque a minha história de vida inspira estes miúdos que se estão a formar como cozinheiros. Dou-lhe uma visão diferente: não é por ganharem um programa de televisão que se tornam cozinheiros. É preciso muito mais: estudo, disciplina. A vida da restauração é dura.”

Além disso, trabalha como chef privado ao domicílio. “O ‘MasterChef’ deu-me a liberdade de chegar a casa de alguém e fazer o que quero. As pessoas não escolhem o que vão comer, eu é que faço o meu menu.”

Durante este período, recebeu propostas para abrir espaços ou para ser chef de cozinha de determinados restaurantes, mas nunca aceitou. Porquê? “Pela dureza que é. Não pelo medo do desafio, mas a idade também já pesa um bocadinho. Não me vejo a ser dono de um restaurante agora. A restauração depende de muitos fatores que não consegues controlar. Hoje em dia é um risco muito grande. Tens de trabalhar com equipas e gerir o fator humano, que é o mais difícil. Pessoas que faltam, que não aparecem — e não me apetece lidar com isso agora. Prefiro ensinar o que aprendi do que acartar com o peso de ter um espaço com funcionários que precisam de levar salários para casa porque têm famílias. Toda essa pressão… não quero. Já a tive.”

E acrescenta: “Para me meter, tem de ser a 100 por cento. E isso é dedicar a minha vida totalmente àquilo. Por isso, nem sequer aceito. Não consigo fazer as coisas pelo meio termo. Ou faço a 120 por cento ou prefiro não fazer e estar um bocadinho à margem, como agora. Adoro ensinar os miúdos.”

Antes de “MasterChef Portugal”, Rúben Silva tinha tido dois restaurantes e um bar. Começou a trabalhar aos 13 anos no restaurante do pai — e sempre foi muito curioso em relação à forma como se cozinhavam as refeições lá em casa. 

Rúben Silva foi o último vencedor do programa.

Apesar de alguma amargura com as circunstâncias da sua vitória, Rúben Silva está muito grato pela experiência e pelas portas que o concurso lhe abriu. “Para quem gosta de cozinha, é o programa que toda a gente segue. O ‘MasterChef’ é uma marca. As pessoas chamam a alguém que cozinha bem: ‘ah, és o MasterChef’. É enormíssimo, o maior programa de culinária do mundo. Tenho o prazer de estar escrito na história que ganhei um.”

Rúben diz que, enquanto concorrente, mudou um pouco a visão que tinha do era a produção. Mas aceita bem todas as contrapartidas que um formato televisivo acarreta. “Em Portugal temos muito a tendência de vermos o ‘MasterChef’ australiano, que tem um formato completamente diferente, é diário. Na nossa, e na maior parte das versões, dá uma vez por semana. Temos de ter consciência de que por três provas que façamos, é um episódio na televisão. Claro que mudou um bocadinho a forma como o via porque três ou quatro dias de filmagens que são encaixados em duas horas. Acaba por ser um bocado uma desilusão nesse sentido… Não digo que seja um reality show, mas precisa de ter entretenimento também. De umas pitadas de intriga. Com essa parte os concorrente podem ficar um bocado desapontados mas faz parte da televisão criar esse floreado. Mas não me sinto desiludido.” 

O vencedor lembra que se despediu do seu emprego para se dedicar a tempo inteiro aos dois meses e meio que duraram as gravações do programa. “Não fui para brincar. Fui com objetivos bem delineados, uma estratégia bem definida. E quem ganha o ‘MasterChef’ não é quem cozinha melhor. É quem lida melhor com a pressão das câmaras, com o mundo da televisão, quem está mais focado, quem sabe decidir rapidamente. O fator de cozinhares bem é um extra, mas se conseguires contornar todos os obstáculos que tens numa hora, vais conseguir passar etapa a etapa. Depois é ler o jogo, os teus adversários. Cá no norte costumamos dizer que não podemos estar com palas nos olhos. Temos de os ter bem abertos porque tudo influencia.”

Quanto à nova temporada, Rúben Silva assume estar bastante curioso para ver o regresso de “MasterChef Portugal” à RTP. “No nosso fizemos provas engraçadas, estou para ver neste. E vou estar atento aos jurados também. A Marlene já conheço, por acaso estudou comigo na mesma escola. Há 20 e tal anos, era um jovem de 16 anos e estava a tirar o curso de barman e empregado de mesa, enquanto a Marlene estava a tirar de cozinha. O Vítor Sobral dispensa apresentações — é um dos grandes em Portugal. O Óscar vai buscar muito a parte da tradição e dou muito valor a esse tipo de pessoas. Faz-me lembrar muito o Rui Paula porque vai buscar aquelas raízes e memórias e tudo… Estou intrigado também com os concorrentes, como é lógico, e estou curioso para saber quem vai ser o meu sucessor [risos].”

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