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O que é verdade e o que é ficção em “The Crown”? A série da Netflix está de volta

É a maior produção da plataforma e uma série que já tem estatuto de culto. A NiT dá-lhe uma ajuda para distinguir os factos da fantasia.
Série é um dos grandes sucessos da Netflix.

Depois de décadas de cerimónias de estado e a animar a imprensa cor-de-rosa, a família real britânica liderada por Isabel II ganhou toda uma nova dimensão no ecrã. O mérito é de “The Crown”, série da Netflix que começa este domingo, 15 de novembro, a sua quarta temporada, e uma que promete, com a chegada de Margaret Thatcher (Gillian Anderson), e em especial da princesa Diana (Emma Corrin), à narrativa.

Desde 2016 que a série tem cativado espectadores pela qualidade, mas também pela proximidade de figuras que todos nós conhecemos (e mais umas quantas de que o público britânico é, naturalmente, mais conhecedor). Mas o que é que é facto ou ficção? Mais do que isso, como é que se passam para o ecrã todos estes cenários e complexas relações?

“The Crown” tem construído um ambiente de culto à sua volta. Além de membros da família real, há figuras históricas a surgir que marcaram o século XX. Margaret Thatcher e Winston Churchill (John Lithgow) são duas das personalidades que ao longo da série merecem aqui um retrato complexo e plantado na realidade. O mais curioso é que várias das personagens são pessoas ainda vivas. E elas também estão atentas à série, a começar pela própria rainha.

Ao longo dos anos, uma fonte do “Daily Express” próxima do palácio de Buckingham tem revelado que a rainha gosta da série e que costuma vê-la. Já teve, também, algumas queixas. Aconteceu, por exemplo, na forma como o seu marido, o Duque de Edimburgo, não se compadeceu com o filho, Carlos, quando este se teve de adaptar à nova realidade num colégio interno.

Ao que parece o duque não terá sido tão frio com o filho. Embora haja livros e artigos a corroborar esta versão de um miúdo sensível a viver uma nova vida longe dos pais, o próprio príncipe Carlos já admitiu publicamente que não foi assim tão traumático, elogiando a educação que recebeu.

O criador da série, Peter Morgan, tem lembrado ao longo dos anos que, mesmo baseada em factos reais, “The Crown” continua a ser uma série de ficção. É por isso normal que haja momentos históricos que tiveram mais importância no mundo real e que são tratados mais ao de leve ou que passam ao lado da série. Aconteceu com o famoso Bloody Sunday, em 1972, que inspiraria mais tarde a célebre canção dos U2. Os Beatles ou os Sex Pistols, cujo hino punk “God Save The Queen” varreu o país, foram contemporâneos de acontecimentos da série e tiveram um peso cultural que aqui é desvalorizado. Nem a melhor série dá para tudo.

O inverso também se verifica: cenas que não terão sido assim tão importantes mas que tiveram grande destaque na série. Filipe, o marido de Isabel II, na verdade não teve grandes problemas em ajoelhar-se perante a mulher. Era ela a monarca e ele foi educado naquele ambiente. Neste caso a realidade foi bem mais simples e comum do que a ficção.

A princesa Diana é uma das novidades.

Embora inspirada em factos bem reais, “The Crown” não procura ser um documentário ou um retrato exato. É por isso que a dinâmica das relações entre personagens tem maior preponderância do que os factos históricos. Além de trabalhar com consultores, a série faz também um extenso trabalho de pesquisa. Quando falamos da família real britânica ali retratada, falamos de décadas e décadas de protocolos, cerimónias públicas, escândalos, rumores e declarações públicas. É um gigantesco manancial de informação que serve de base e que é usado com alguma liberdade criativa.

À “Radio Times”, Robert Lacey, historiador da família britânica (e sim, há historiadores dedicados apenas a este tema), explicou essa mesma dinâmica. “O que vemos é inventado e verdadeiro.” Quem o diz é um dos consultores da série. A título de exemplo: as relações próximas entre a princesa Ana e Andrew Parker Bowles, e Carlos e Camilla Parker Bowles, até têm o seu fundo de verdade. Mas a biógrafa de Carlos Sally Bedell Smith está convencida de que são relações que nunca se sobrepuseram no tempo. Como é óbvio, complexas tramas amorosas são sempre um ingrediente útil para uma receita que funcione no ecrã.

O documentário desaparecido

Em certos casos a realidade pode ser até tão ou mais interessante do que a ficção. É o que acontece, por exemplo, quando a família real abre as suas portas para um documentário. Em “The Crown” ficamos com a ideia de que foi um certo fiasco, expondo-os ao ridículo. Na verdade, mesmo tendo havido bastantes críticas, o documentário até recebeu alguns elogios. E foi um sucesso brutal de audiências.

Na altura em que estreou na BBC e na ITV, em junho de 1969, o documentário “Royal Family” foi visto por cerca de 30 milhões de espectadores, isto num pais com pouco mais de 55 milhões de habitantes. A rainha teve oportunidade de o ver antes de sair e não exigiu grandes alterações (a margem criativa era, aliás, uma das exigências do realizador Richard Crawston).

O documentário até voltaria a ser exibido mais umas poucas vezes. A última vez que alguém o viu, no entanto, foi a 6 de fevereiro de 1972 na BBC. De então para cá tornou-se uma espécie de obra de culto, escondida e inacessível, que nunca mais foi exibida. Os direitos sobre o filme pertencem ao próprio gabinete de Isabel II, que após aquela data nunca mais permitiu a sua exibição. A razão oficial foi que era “um programa do seu tempo e para o seu tempo” e, como tal, já não precisava de voltar a ser exibido. E a verdade é que hoje em dia já só há relatos de quem o viu então. A exibição não autorizada valeria um processo judicial.

A produção

Embora seja sempre de admirar alguma capacidade de improviso e poupanças, há casos em que o dinheiro e uma preparação exaustiva são sinónimo de qualidade. “The Crown” é mesmo a aposta mais dispendiosa de sempre da Netflix numa série, o que também foi desde cedo um claro sinal da aposta que a plataforma estava a fazer no projeto. O orçamento para as duas primeiras temporadas terá sido superior a cem milhões de euros.

Todos os atores principais de “The Crown” contaram com treinadores de voz para se preparar para o papel. Emma Corrin, a princesa Diana desta quarta temporada, contou à “Variety” que cada ator costuma ter uma palavra específica que serve de referência para trabalhar o sotaque da personalidade que estão a interpretar. No seu caso, “alright” foi a palavra repetida de forma exaustiva até dominar o tom de voz e sotaque da princesa do povo.

O trabalho em termos de cenários é também exaustivo. “The Crown” não pode filmar em edifícios históricos como o palácio de Buckingham ou o palácio de Windsor. Mas há soluções, como explicou à “Fortune” Martin Childs, responsável pelos cenários todos e design de produção.

Ao todo, a série já usou cerca de 400 cenários diferentes. Em certos casos, mesmo não podendo filmar lá dentro, há imagens dos locais. Em cada episódio, Martin Childs desenha onde vai decorrer a maioria da ação. Desenha o cenário que lhe interessa de um palácio numa folha em branco e vai juntando com setas informações sobre a ação a decorrer. O trabalho exaustivo dá lugar a autênticas criações artísticas, com o próprio a admitir que já há quem lhe peça os desenhos como autêntica peça de coleção.

Se por acaso uma cena decorre em aposentos privados (que ninguém sabe ao certo como são) de algum dos membros, a equipa de “The Crown” trabalha com aquilo a que chama “imaginação informada”. A ideia, acima de tudo, é que seja credível ao espectador. Como a série se desenrola ao longo de anos, muitas vezes há trocas de atores em personagens centrais. O facto de os cenários se repetirem pode parecer coisa pequena mas é uma forma útil de ajudar o espectador a adaptar-se ao rosto novo, mais velho, que irá assumir um determinado papel importante daí em diante.

Esta quarta temporada de “The Crown” que estreia agora centra-se nos finais dos anos 70 e em particular na década de 80. Entretanto, já se sabe que a atriz australiana Elizabeth Debicki vai assumir o papel de Diana já mais adulta, nas futuras quinta e sexta temporadas da série. Os fãs que se preparem porque serão as últimas de “The Crown”. Até lá, têm ainda uns aninhos pela frente para desfrutarem das subtilezas e complexidades do poder britânico, neste retrato duplamente real.

Já que aqui está, aproveite para espreitar algumas das imagens que vão estar em destaque nos dez episódios da nova temporada.

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